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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Os crimes da Shell


O escritor enforcado
EDUARDO GALEANO
As empresas petroleiras Shell e Chevron arrasaram o delta do rio Níger. O escritor Ken Saro-Wiwa, do povo ogoni da Nigéria, denunciou em um livro publicado em 1992: “O que a Shell e a Chevron fizeram ao povo ogoni, às suas terras e aos seus rios, aos seus riachos, à sua atmosfera, chega ao ponto de um genocídio. A alma do povo ogoni está morrendo e eu sou sua testemunha”.
Três anos depois, no início de 1995, o gerente geral da Shell na Nigéria, Naemeka Achebe, explicou assim o apoio de sua empresa à ditadura militar espremendo a esse país: “Para uma empresa comercial que se propõe realizar investimentos, é necessário um ambiente de estabilidade. As ditaduras oferecem isso”. Uns meses mais tarde, no final de 95, a ditadura da Nigéria enforcou Ken Saro-Wiwa. O escritor foi executado junto com outros oito ogonis, também culpados de lutar contra as empresas que aniquilaram as suas aldeias e reduziram suas terras a um vasto deserto. E muitos outros haviam sido assassinados antes pelo mesmo motivo.
O prestígio de Saro-Wiwa deu a este crime certa ressonância internacional.
O presidente dos Estados Unidos declarou então que seu país suspenderia o fornecimento de armas à Nigéria, e o mundo o aplaudiu. A declaração não foi lida como uma confissão involuntária, ainda que o fosse: o presidente dos Estados Unidos reconhecia que seu país havia estado vendendo armas ao regime carniceiro do general Sani Abacha, que vinha executando gente a um ritmo de cem pessoas por ano, em fuzilamentos ou enforcamentos convertidos em espetáculos públicos.
Um embargo internacional impediu depois que qualquer país assinasse novos contratos para a venda de armas para a Nigéria, porém a ditadura de Achaba continuou multi-plicando seu arsenal graças aos contratos anteriores aos adendos que por milagre lhes agregaram, como elixires da juventude, para que esses velhos contratos tivessem vida eterna.
Os Estados Unidos vendem cerca da metade das armas do mundo e compram cerca da metade do petróleo que consomem. Das armas e do petróleo dependem, em grande medida, sua economia e seu estilo de vida. Nigéria, a ditadura africana que mais dinheiro destina aos gastos militares, é um país petroleiro. A empresa anglo-holandesa Shell leva a metade; porém a estadunidense Chevron arranca da Nigéria mais da quarta parte de todo o petróleo e do gás que explora nos 22 países onde opera.
O preço do veneno
Nnimmo Bassey, compatriota de Ken Saro-Wiwa, visitou terras latino-americanas no ano seguinte ao assassinato de seu amigo e companheiro de luta. Em seu diário de viagem, conta instrutivas histórias sobre as gigantes petroleiras e suas impunes devastações.
Em Curaçao, na costa da Venezuela, a empresa Shell erigiu em 1918 uma grande refinaria, que desde então vem lançando gases venenosos sobre a pequena ilha. Em 1983, as autoridades locais mandaram parar. Sem incluir os prejuízos à saúde dos habitantes, que são de valor inestimável, os especialistas estimaram em 400 milhões de dólares a indenização mínima que a empresa devia pagar para que a refinaria continuasse operando.

A Shell não pagou nada, e em troca comprou a impunidade a um preço de fábula infantil: vendeu sua refinaria ao governo de Curaçao, por um dólar, mediante um acordo que liberou a empresa de qualquer responsabilidade pelos danos que havia infligido ao meio ambiente ao longo de sua fudida historia.

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