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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não aguento mais a agenda da imprensa


Por Carlos Castilho em 25/11/2013

Você leitor(a) vai me desculpar o desabafo e o uso da primeira pessoa no texto, mas não aguento mais a agenda de notícias da imprensa brasileira. É impressionante a mesmice, o viés e a alienação da pauta diária de jornais, emissoras de rádio, telejornais e até as páginas noticiosas na Web. Todos giram em torno dos mesmos temas, os telejornais se repetem em horários diferentes e nas principais notícias fica estampado o viés político-partidário que orienta toda a produção de textos e imagens.

Somos obrigados a conhecer detalhes mínimos da situação coronária do deputado José Genoino, somos informados da troca do juiz responsável pelo cumprimento das penas impostas aos mensaleiros, mas não se esclarece o porquê da relevância atribuída a esses temas. Se a noticia é tão importante assim para merecer manchetes e preciosos minutos na TV, o elementar seria explicar a causa da troca de magistrados e da preocupação com o estado de saúde do ex-presidente do PT. Na falta de esclarecimentos, sobram suspeitas sobre o viés da notícia.
O caso do mensalão é exemplar. Uma cobertura avassaladora digna de um grande desastre natural mostrando que a vingança política superou a lógica do marketing político. O lógico, segundo os manuais, seria minimizar o episódio após a condenação para evitar que a população acabe tendo pena dos detidos. Mas a imprensa, movida pelo desejo cego de tirar o PT do poder, esqueceu de tudo o que é obvio em matéria de cobertura política voltada para o interesse publico.
Enquanto isso a velha bomba relógio do sistema prisional continua no limbo informativo. O caso mensalão teria sido uma oportunidade ótima para que a imprensa resolvesse investigar e mobilizar a opinião pública para a busca de soluções para um problema que é de todos. Mas o que os jornais, revistas e telejornais mais fazem é buscar o escandaloso, distribuir culpas e quase sempre deslocar a questão para envolvimentos político-partidários. Trata-se de um desprezo olímpico pelo que a população sente e deseja.
O caso da saúde pública é outro item que mostra o distanciamento entre o mundo das redações e a realidade das ruas, bairros e favelas. O internamento de uma personalidade recebe tratamento VIP, mas as filas, corredores empilhados de doentes e instalações precárias viraram pé de página.
O caso dos médicos estrangeiros é emblemático. Foi dado mais destaque na imprensa ao corporativismo das associações de classe do que à busca de soluções para o problema das comunidades sem médicos. Agora que as previsões apocalípticas não se concretizaram, o assunto sumiu da pauta quando seria urgente e essencial saber se está funcionando e, em caso positivo, como a torná-lo permanente. Se a medida não funcionou, precisamos saber por quê.
Todo mundo acabou suspeitando que no problema dos médicos estivessem embutidos interesses eleitorais de ambos os lados, mas a imprensa nunca tratou o tema abertamente. Ela poderia ter assumido a posição do público para buscar soluções duradouras e efetivas, por meio de um esforço sistemático e prolongado de produção de informações sem viés partidário ou empresarial.
O trânsito nas grandes capitais é outra questão onde a espetacularização dos congestionamentos já se tornou maçante, por conta da repetição. É um problema nacional, mas só saem reportagens sobre São Paulo, onde o caso é mais grave, mas nem de longe o único. A imprensa está cansada de saber que não adianta só cobrar das autoridades e já deveria ter verificado que ela tem que “meter a mão na massa”, ou seja, partir para a busca de soluções junto com a população, em vez de promover desfiles de especialistas nas páginas e no vídeo.
A sensação de cansaço em relação à agenda da imprensa é causada tanto pela escolha de temas como pela forma de abordá-los por meio da batida técnica do “fulano disse, sicrano disse” (ver “A praga do jornalismo declaratório”). As notícias acabam se transformando numa inócua sucessão de declarações pouco esclarecedoras, algumas flagrantemente falsas mas não contestadas pelo repórter e no geral seguindo um roteiro onde a famosa regra de ouvir os dois lados serve apenas para tentar conferir credibilidade à reportagem , texto ou sonora.
Já deixei de assinar jornais, passo os olhos sobre as páginas noticiosas na Web e assisto aos telejornais mais por rotina do que por interesse. Tento não me irritar com o tipo de noticiário que nos é oferecido, mas nem sempre consigo me conter. Casos como, por exemplo, a repetição de notícias em telejornais, nas edições matutinas, ao meio-dia, no fim da tarde e no início da madrugada. O ritmo industrial de produção de notícias nas principais redes de televisão atropela a necessidade de buscar enfoques diferenciados – e aí caímos na mesmice rotineira.
Poderia continuar desfiando aqui as mazelas do noticiário quotidiano, mas acabaria também me tornando repetitivo e monocórdio. Há dezenas de outros problemas sociais implorando uma ação mais comprometida da imprensa. O mesmo empenho dedicado ao projeto Criança Esperança poderia ser aplicado em questões bem mais complexas como saúde, segurança pública, aposentadorias e mobilidade urbana. É só a imprensa trocar o pedestal político pela sola de sapato, tão decantada nos manuais de redação.

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