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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Luiza, Eike e o tombo do canguru vaidoso


O


31 de outubro de 2013 | 17:12

Antes de qualquer coisa, deixem-me dizer que não nutro qualquer simpatia pelo Sr. Eike Batista e que dele a única inveja que poderia ter, por sua linda ex-mulher Luma, desvaneceu-se no episódio torpe da coleira de brilhantes.
Mas, vendo o massacre que ele está sofrendo da mídia que, durante anos, endeusou os mesmos excessos e vaidades aos quais, agora, atribui-lhe a bancarrota – bancarrota da qual, aliás, ainda duvido – , veio-me à cabeça uma velha história.
Quando Leonel Brizola foi à Austrália – não me recordo o ano exato, creio que 1988 – e voltou de lá falando umas coisas que eu, nos meus então 30 anos, não achava verossímeis, torci o nariz.
- Olha, Brito, eu conversei com uma senhora e, na hora em que a conversa terminou ela fez questão de me dizer: “como é que são os empresários no Brasil? Nós, aqui, amamos nossos empresários.”
E eu, com meus botões: “ora, vá plantar batatas, seu Leonel! Como é que vão gostar de empresários, um bicho que vive de ganhar dinheiro nas costas do trabalhador e do consumidor?”.
Mas ele repetia. O Octavio Costa, hoje no Brasil Econômico, deve lembrar bem desta história. Numa das primeiras pesquisa, quando ele apareceu à frente e Collor não tinha nada, chegou a ser retratado de “canguru” numa capa da então Istoé/Senhor. Fernando Mollica, de O Dia, também.
Eu não discuti, mas estava preocupado com este papo, porque se aproximavam as eleições presidenciais e eu achava – e não sem razão – que os acenos de Brizola ao empresariado e aos que ele chamava (existe isso?) de “conservadores lúcidos” iam nos comer votos à esquerda, como de fato ocorreu.
Vinte e cinco anos depois, dou a mão à palmatória.
O Estado é o reitor e o principal agente do progresso econômico e social do país. Sua omissão, como ocorreu, nos últimos tempos da ditadura militar e nos governos que a sucederam, até Lula, apenas disfarça – no caso de FHC, nem disfarça –  o processo de apropriação privada – e, sobretudo, estrangeira – das riquezas deste país.
Mas há um lugar – e indispensável – para empresários que querem ganhar dinheiro apostando do desenvolvimento do Brasil e do povo brasileiro.
Hoje já não acho tão estranho o que a australiana disse a Brizola.
Li, numa destas –  em geral – tolas “sabatinas” da Folha, o que disse Luiza Trajano, dona do “Magazine Luiza”.
Ela, claro, quer ganhar dinheiro. Mas entendeu, como varejista que é, que se ganha muito mais vendendo para muito mais gente. Que é melhor ter mais gente podendo se sustentar e consumindo que pouca gente podendo esbanjar, até porque os esbanjadores não deixam de esbanjar por causa disso.
Dona Luiza, talvez por isso, tenha visto o seu “Magazine Luiza”   fechar  o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 25,4 milhões, quase 11 vezes mais que o  ganho de R$ 2,3 milhões obtido no mesmo período do ano passado, quando o consumo popular andava bem mais apertado.
Mas as elites brasileiras se incomodam com os pobres. Estão aí os bancos privados, levando uma surra da Caixa Econômica, porque ela ousou emprestar mais barato e para gente que estava fora do mundo do crédito. Preferem forrar suas calçadas com pedras pontiagudas,como fez uma agência do Bradesco em Manaus, para expulsar dali os mendigos. É uma versão arquitetônica do “fazer ração para peixes”.
Reclamam dos aeroportos porque eles estão cheios de gente de classe média baixa, voando pela primeira vez.
Torcem o nariz para as empregadas domésticas que ousam ter direitos trabalhistas.
E por aì vai: custo Brasil, produtividade baixa, desqualificação do trabalhador, etc…
Todos se acostumaram com um país de 30 ou 40 milhões de habitantes, cercados por 160 milhões de “selvagens”, em relação aos quais clamam por segurança, polícia, prisão. E logo, reduzindo a maioridade penal, se possível.
Eike Batista está a anos luz de parecer-se com empresários como Luiza Trajano, com seu ar de gorducha bonachona.
É – ou era – o típico temerário, aventureiro, extravagante e exibido,com tudo o que a mídia e os comentaristas de economia da grande mídia adoravam e que, com a maior cara dura hoje apontam como seu “pecado”.
Mas há algo em seu favor que os jornais não dizem: que foi dos raríssimos empresários que colocou dinheiro em uma área que os empresários brasileiros não põem: indústria pesada e infraestrutura.
E, por isso, quebrou.
Porque – e essa é uma verdade simples, embora não costume ser dita – a indústria pesada, a infraestrutura, no Brasil, ou é papel do Estado brasileiro ou é a entrega da espinha dorsal de nossa economia a interesses muito raramente coincidentes com o do país.
A entrega da Vale e de boa parte da energia elétrica (aliás, a melhor parte, a distribuição) retiraram do Estado brasileiro a capacidade de investir nestas áreas, embora não lhe tenha, de forma alguma, retirado seus deveres de gastar muito para que possam funcionar, como é o caso das linhas de transmissão, hidrelétricas e portos e ferrovias, das quais uma e outra necessitam.
O que restou, mesmo estropiada, foi a Petrobras e, pelos desafios e dificuldades que ela hoje enfrenta e vence, podemos ter ideia do que seria o nosso país se Fernando Henrique tivesse conseguido concluir seus planos de vendê-la mais do que o fez.
Eike Batista afundou-se num poço quase vazio de petróleo, o tal “Tubarão Azul”, cujo insucesso parcial devorou sua capacidade de gerar caixa para continuar os seus “negócios-bicicleta”, que só se equilibravam porque em movimento.
E porque lhe faltou, na queda, a discrição que o mundo dos negócios dá aos seus pares “bem-comportados”, como os herdeiros Globo ou os Civita, que, na sombra, conseguiram se afastar dos abismos financeiros em que se meteram.
Os que lhe dizem “bem-feito” o fazem menos por seus erros que por suas ousadias. Fossem apenas falcatruas, como as de Daniel Dantas, talvez contasse com mais apoio, até mesmo dos amigos, como Aécio Neves, que não deu um pio.
Ou de toda essa gente da mídia que lhe comeu de favor e agora o execra.
É verdade que a vaidade e a ostentação de Eike tornam seu cadáver (embora, repito, ache que o cadáver não está morto) mais “saboroso” aos jornais.
Mas o que sentem, mesmo, no fundo, é um imenso prazer em ver qualquer brasileiro ousado cair.
Num país de ratos, maldito de quem se mete a canguru.
Por: Fernando Brito
http://tijolaco.com.br

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