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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

“O único critério de verdade é a prática”

O filósofo Mario Sergio Cortella traça um histórico das políticas públicas para a educação no Brasil, comenta a situação do professor e contesta o modelo educacional adotado no estado de São Paulo. “”Para ver se o projeto funciona ou não é só você verificar o que aconteceu nos últimos 14 anos e analisar o resultado. É melhor reavaliar o projeto ideológico que está por trás””
Por Glauco Faria e Renato Rovai
Fórum – Desde a redemocratização, o que foi feito em relação à educação e o que deixou de acontecer na área?
Mario Sergio Cortella – Em 1977, o grande Darcy Ribeiro fez uma conferência em São Paulo em uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na PUC-SP. Ele fez uma análise genial da crise da educação no Brasil e pôs isso em um texto, que era a conferência dele, chamado “Sobre o Óbvio”. Ali, disse que a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto. Assim, deixa claro o que aconteceu no país durante décadas.
O Brasil é um país que fez 509 anos de fundação, mas o Ministério da Educação foi fundado somente em 1930. Antes de 1930, não havia nenhum órgão nacional que cuidasse da educação. Aliás, a primeira universidade brasileira de fato é a de São Paulo, fundada em 1934. Para se ter uma ideia, Peru, Bolívia, Paraguai já tinham universidades no século XVI.
Fórum – E a primeira faculdade foi criada para dar um título…
Cortella – Isso, um título ao rei Leopoldo, da Bélgica. Existiam faculdades no Brasil, mas a primeira universidade é a USP. Quando as elites de um país, propositadamente, não cuidam da educação pública, é um sintoma de que não há a necessidade de fazê-lo para sustentação do seu poderio econômico. No período da República, a educação só entra como prioridade a partir de 1930, quando há a revolução liberal, graças a pioneiros como Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo que levaram a essa lógica.
Por incrível que pareça quem vai potencializar de fato a educação como elemento de integração nacional será a ditadura militar. É ela que em 1964, ao assumir no golpe, gerencia a estrutura política e econômica até 1985, e vai dar uma certa integralidade a uma noção de educação pública com todos os desvios que carregou e que podemos mencionar. A crise da educação no Brasil não tem sua agudização no governo militar por ser um governo militar. Mas porque ele implantou junto com as elites e com a burguesia uma série de políticas econômicas e sociais que relegaram a educação a um patamar secundário justamente quando ela se tornava pública.
Dou um exemplo. Em 1964, o Brasil tinha 70% dos brasileiros no campo ou em cidades pequenas. O que significa que o aparelho educacional público era suficiente para aqueles que o frequentavam, já que de fato apenas 30% dos brasileiros tinham demanda por educação pública. Vamos pegar 2004, 20% dos brasileiros estão nas cidades pequenas e no campo. Isto é, em 40 anos houve uma inversão, foi o maior deslocamento de população do campo para a cidade que o Ocidente teve. Em função do modelo econômico, a infraestrutura para a produção capitalista se concentrou nas áreas urbanas e isso provocou o deslocamento da população.
Isso é importante porque nos últimos 40 anos a educação pública se tornou, de fato, pública. Isto é, passou a ter povo dentro dela, e em grande quantidade. Nesse período, os investimentos foram decaindo de 1968 até 1988. Essa mudança que vai agudizar uma crise. Não se confunda qualidade da educação no Brasil no passado com privilégio. Quando se tem algo bom para poucos, não é qualidade, é privilégio. Sempre dou um exemplo, São Paulo é uma cidade na qual se come muito bem, isso é verdade, mas quem come? Temos um parque cultural de cinemas, teatros, museus, imbatível, mas quem os frequenta? Dizer que São Paulo tem grande qualidade para o parque cultural letrado, talvez seja mais fácil dizer que a cidade tem uma grande estrutura de privilégio para o parque cultural letrado.
É fácil entender alguns fenômenos. O primeiro deles é que o deslocamento da população do campo para a cidade levou a um inchaço da estrutura de demanda por escola. A mesma coisa na saúde, na habitação, no saneamento básico, que são as áreas que estão em crise sempre. Segundo, tivemos que trazer uma religiosidade popular das igrejas neopentecostais, cujo pavor pelo demônio veio do campo para a cidade, uma elevação da música sertaneja como critério de musicalidade vendável. Não foram só as pessoas que vieram do campo para a cidade, a sua cultura veio. Nessa hora que a Igreja Católica perde território – porque é um momento em que ela discute a visão social do evangelho, bate contra o grupo que deseja a oração e leva a um certo esvaziamento da igreja –, aqueles que adotaram o demônio como seu avatar crescem, especialmente nas áreas periféricas, que são justamente formadas por aquelas pessoas que vieram do campo.
A ditadura agudizou a crise da educação no Brasil? Sem dúvida, mas não por ser uma ditadura em si, mas porque fez um projeto capitalista com as elites. Juntar elite predatória, classe política canalha e classes médias acovardadas é uma receita muito boa para se criar uma condição econômica privilegiada e uma da educação que é de miserabilidade.
A ditadura deu ênfase à educação básica, como não havia acontecido antes. A Nova República do [José] Sarney e depois o governo FHC não deram atenção à educação básica, exceto quando o ministro Paulo Renato fez uma coisa positiva que foi a criação do Fundef, hoje Fundeb. Mas é só lembrar que a alfabetização de jovens e adultos no governo FHC estava na área de bem-estar social, da Comunidade Solidária, que é uma ideia boa, mas tem que estar vinculada ao sistema de educação.
O Brasil está deixando a indigência na área de educação nos últimos 15 anos. Portanto, no governo Fernando Henrique, no governo Lula, começa a se abandonar a indigência na área educacional. Mas isso não nos deixa alegremente exultantes e nem deve nos deixar desesperados por percebermos que falta muito. Para usar uma clássica e antiga frase, não estamos no começo do fim, estamos no fim do começo. Por isso, há um outro elemento. Os liberais, hoje chamados neoliberais, foram responsáveis pelo agravamento da crise da educação resultante do modelo econômico escolhido durante a ditadura pelas elites, sob gerenciamento dos militares. Haja vista que, quem foi ministro da Educação antes do governo Fernando Henrique Cardoso, isto é, na Nova República e na ditadura militar? Jarbas Passarinho, Jorge Bornhausen, Carlos Chiarelli, Hugo Napoleão, Marco Maciel…
Fórum – Houve uma continuidade de pensamento.
Cortella – Isso. Para quem diz que o problema da educação é falta de continuidade… (risos). Posso incriminar a ditadura, como ditadura em si, pelo viés da educação? Não. Pelo modelo econômico compartilhado pelas elites, sem dúvida. Pela proposta social de desprivilegiamento da educação com a introdução da LDB de 1971 que tornou a profissionalização do ensino médio compulsória desorganizou o sistema. Por outro lado, criou uma coisa boa, que foi o fim da separação entre o primário e o ginásio com o antigo exame de admissão que existia e que obrigava a fazer um vestibular para entrar no ginásio. Imagine a massa de despossuídos que ficava de fora desse circuito.
A democracia faz bem ao país por várias razões. A primeira delas é que a Constituição de 1988 previa uma coisa especial: pela primeira vez na República, havia o direito de voto ao analfabeto. Isso não é pouca coisa. Na primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, de acordo com os dados do TSE, de cada três eleitores adultos, um era analfabeto. Um terço do eleitorado acima de 18 anos era analfabeto e ficava excluído do processo.
A questão da escolarização interessa muito aos despossuídos, gente escolarizada tem o hábito de desprezar a escola. Gente inclusive altamente escolarizada costuma escrever livros contra a escola. Como já passou por ela, já se beneficiou, então escreve livros contra a escola, que vendem muito. Mas esses livros não fazem sucesso junto a pessoas que não têm escolaridade.
Última coisa: falar em educação no Brasil é falar em educação pública e 87% das vagas da educação básica no Brasil estão na área pública, 13% no setor privado. Portanto, se vamos conversar de educação pública, vamos falar da educação que pega 87 de cada 100 alunos no país. É bom ressaltar que a questão não é escola pública contra escola privada, mas escola boa contra escola ruim. E boas e ruins temos em ambos os campos. A escola privada, a confessional, é um direito dentro de uma democracia; e a pública é um dever do Estado e um direito do cidadão. E, sob este ponto de vista, o que fez a ditadura militar? Organizou um pouco o planejamento da educação brasileira; segundo, extinguiu alguns elementos de exclusão, com a junção de primário e ginásio; terceiro, começou a estruturar mecanismos de avaliação, ainda iniciais, do ensino superior no Brasil. Mas, seu nível de financiamento da educação pública foi irrisório diante das necessidades. Portanto, se permitiu e se incentivou que as pessoas viessem para as cidades mas não se garantiu a elas qualidade de vida, vitimando muita gente nesse processo.
A democracia trouxe a possibilidade de maior gestão democrática, de eleição de pessoas e grupos que não estavam no circuito com prioridade para a área de educação, trouxe a necessidade de maior fiscalização da imprensa e de organizações não-governamentais em relação ao aparato educacional público, agregou grandes massas que tiveram participação e uma inserção social muito forte. Até o modelo econômico voltado para o incentivo à cana-de-açúcar trouxe uma coisa curiosa, que é a organização do trabalhador volante – ou boia-fria como se diz no Sudeste –, que mora na cidade e demanda educação, o que levou a uma maior escolarização na área do campo.
Se olharmos hoje, que digo eu? Depois de 509 anos de história, há uma educação que começa a dar seus passos. Atingiu quase a universalização do ensino fundamental mas não atingiu a permanência.
Fórum – Isso leva o senhor a dizer que a educação está saindo da indigência?
Cortella – Está saindo da indigência nos últimos 15 anos porque temos sistemas de avaliação organizados; uma reestruturação, no governo Lula, do ensino superior com uma maior presença das camadas economicamente despossuídas; a necessidade de reorganização do vestibular que, tal como a jabuticaba, só existe no Brasil; a reformatação do sistema nacional de formação docente, que está sendo estudado pelo Fernando Haddad; o que o Paulo Renato como ministro fez, que é organizar um fundo de financiamento para o ensino fundamental, mas que tinha um pecado que foi corrigido pelo ministro Tarso Genro e depois pelo Haddad, que era deixar de lado a educação de jovens e adultos e a educação infantil. As universidades federais estão se organizando e há uma abertura imensa de vagas nessa área porque a ditadura militar fez algo que foi completado nos governos Sarney, Itamar e Fernando Henrique, que foi a privatização do ensino superior.
Fórum – Tem-se a impressão de que no governo FHC não se fez nada nesse sentido.
Cortella – Não se fez, ao contrário, o Conselho Nacional de Educação se tornou um grande cartório de homologação do ensino privado brasileiro, haja vista que hoje apenas 22% das vagas de ensino superior estão no sistema público, exatamente o inverso do que havia em 1964. Razão pela qual a questão do vestibular está ligada a isso, a questão tecnológica também e o fato de que sobram vagas no Brasil nessa área.
Portanto, crise em educação é uma coisa inata. Porque educação é processo, processo é mudança e, portanto, tem crise continuada. Mas, mais do que crise, houve é indigência e volto a Darcy Ribeiro: a educação nunca foi uma tragédia, foi um drama. A diferença entre tragédia e drama é que o trágico é decidido pelos deuses e os humanos não têm como lidar; o dramático é que temos escolha. A crise da educação no Brasil sempre foi uma escolha, um plano, deixou de sê-lo nos últimos 15 anos. Isso não significa, na grande viagem da comédia dantesca, que estejamos entrando no Paraíso. Estamos começando a sair do nono círculo de fogo do inferno. Mas chegaremos ao Paraíso porque temos condições de fazê-lo. Há forças sociais que se movimentam nessa área, a crise existe, mas temos saída.
Por último, muita gente diz que o Brasil vai crescer no dia em que tiver educação em larga escala. Essa equação não é tão automática, se fosse assim, não seríamos o número 66 no IDH em Educação e a décima economia do mundo. Educação é um bem, uma riqueza. O problema não é a posição em que ela está, o problema é que ela não é redistribuída. Portanto, sendo um bem não redistribuído, não adianta tê-lo em alta densidade, é preciso tê-lo em alta extensividade de absorção. A ditadura tem seus pecados, mas não tem todos.

Fórum – Dentro da estruturação desse projeto, desde a ditadura e que se estendeu na redemocratização, como ficou o papel do professor?
Cortella
– No início dos anos 1960, pegando-se uma década que teve turbulência em muitos momentos, grandes sonhos até 1964, grandes pesadelos a partir dele, o ressurgimento do sonho em 1968, tivemos muitas utopias elevadas e outras esmagadas. Ali se tinha o professor de escola pública como um profissional de alta qualificação, com um salário que equivaleria hoje, no inicial, a por volta de R$ 6 mil. Mas é preciso lembrar que essa escola era para pouca gente, tanto para as elites como para as camadas pobres que viviam nas cidades junto com as elites. Daí dizem que no passado o filho da empregada estudava junto com o filho do médico. Mas era só um médico e a empregada dele, não as não-empregadas que não estudavam, era outra lógica.
Dentro disso, essa década traz uma posição do professor que era mais valorizada. Quem é do interior como eu, que nasci em Londrina, para uma visita na cidade você mostrava a casa do delegado, do juiz de direito e da diretora da escola. O que acontece é que nos últimos 50 anos tivemos uma depauperação contínua e acelerada da formação docente; uma multiplicação imensa das atividades que a escola passou a absorver e que antes não tinha; e uma entrada de docentes sem uma formação completa porque formados no sistema privado de ensino. Às vezes, o setor privado de educação diz que a rede pública é responsável pela má qualidade, mas o professor de rede pública é formado extensamente na rede privada de ensino superior, portanto, a maior responsabilidade se localiza no sistema privado. Houve também o rebaixamento de salário em função também da banalização da profissão, muita gente passou a encará-la como uma forma de complementação do orçamento. A profissionalização universal e compulsória que o governo militar colocou de 1971 a 1982 levou a que profissionais que não eram da educação entrassem na docência, pela obrigatoriedade do currículo específico. Pessoas que tinham que ensinar Física, Biologia, parte de ensino profissionalizante, que não eram profissionais da área, portanto, não tinham naquilo um corpo de atividades no cotidiano. Tudo isso levou a que o professor hoje quase tenha um lema de “Vote em Jesus para Cristo”, o professor é incriminado. Não que não tenhamos responsabilidade sobre problemas na educação, mas a responsabilidade não é exclusivamente nossa.
Por outro lado, a educação não é um crime perfeito onde só tem vítimas. Tem autores. Existem causas extra-escolares para as dificuldades na educação. Como mencionei, as elites predatórias, uma economia que apropria o coletivo para uma parcela diminuta, classe médias acovardadas que utilizam a escola pública como ameaça para seus filhos: “se você não se comportar vou te por em uma escola pública, estudar com uma ralé”. Quando Benedita da Silva assumiu o governo do estado do Rio de Janeiro, foi ao palácio, lotado de tapetes, alguns do tempo do Império, e um jornalista fez uma pergunta extremamente escandalosa e elitista: “como a senhora se sente, já que mora em uma favela, pisando nesses tapetes?”. Ela respondeu: “não tenho nenhuma dificuldade, eu e todos os meus antepassados que vieram da África passamos séculos esfregando e limpando esses tapetes, temos o direto de pisar neles agora”.
Por que digo tudo isso? Porque houve uma depauperação das condições de trabalho e as sociedades que incharam as metrópoles levaram a que a escola assumisse algo que nunca deveria ter assumido. Educação não é sinônimo de escolarização. Educação é tarefa da família, a tarefa da escola é escolarização. De repente a escola teve que fazer educação física, científica, matemática, artística, sexual, ecológica, para o trânsito, oferecer merenda, cuidar da saúde e ela não tem estrutura para fazer isso.
Fórum – Uma transferência de responsabilidades?
Cortella
– Sim, algumas escolas, sobretudo privadas, fazem uma coisa altamente mentirosa. Uma escola que anuncia no seu site que oferece “educação integral” deveria ser enquadrada no artigo 171 do Código Penal, estelionato. A escola não faz educação integral, pode fazer escolarização. A educação integral se dá pela família, nas instituições sociais, no grupo de amigos, no sindicato, na mídia, ela só pode ser feita no conjunto da socialização. Por isso, essa depauperação das condições de vida docente fizeram com que houvesse um descompasso entre a formação docente e as necessidades.
Quando a escola pública se tornou pública, uma parte dos docentes não estava preparada para lidar com o que não era ligado às classe médias. Em outros tempos, a professora passava a lição de casa e pedia para os pais ajudarem. Nas periferias das grandes cidades, quase 80% das crianças que estão no segundo ano do ensino fundamental têm mais escolaridade que os pais. O que significa que se eu for um docente que foi formado levando em conta que o pai e a mãe auxiliem na tarefa, estou fadado ao fracasso.
A criança que não tem pais alfabetizados não tem estímulo. Uma das maneiras de melhorar a educação básica é alfabetizar o adulto. Isso eleva a condição educacional das crianças. A formação docente tem que ser tal como o governo federal vem começando a propor, um sistema nacional de formação docente, com uma proposta nacional de prova de concurso, que cada um vai adaptar para a sua realidade local. É importante citar a mudança que o governo fez na Capes, que sempre cuidou apenas do ensino superior e que hoje tem uma câmara de educação básica da qual faço parte. Ao mesmo tempo, é preciso que as avaliações sirvam para a mudança. Não podemos nos tornar grandes fabricantes de termômetros, temos que usar o termômetro como ferramenta indicativa de distúrbio e mexer no distúrbio.
Isso vem sendo trabalhado nos últimos 15 anos, estamos ainda dando os passos iniciais, mas os passos estão sendo dados. Agora, por exemplo, o governo federal está propondo uma bolsa para o professor. Como você tem bolsa para residência médica, uma residência na área de educação. Mas a grande novidade é colocar o sistema público de ensino e se puder, na sequência, colocar as confessionais e comunitárias, na relação com a educação básica, ao invés de haver esse distanciamento. Até agora quem decidia como seria o ensino médio era o vestibular da universidade, quando a lógica teria que ser inversa. Agora, com a utilização – optativa – do Enem por parte das universidades federais, a lógica muda.
Toda vez que se fala em vestibular, as pessoas opinam “tem que ser assim, tem que ser assado” e, no fundo, estamos discutindo o tamanho da porteira ao invés de falar da reforma agrária da universidade. Nós, professores, no momento, estamos na berlinda. Até porque vários secretários da Educação, inclusive no estado de São Paulo, vêm responsabilizando o professor por essa situação.
Fórum – Nesse contexto, como o senhor vê a política de bonificação e premiação do professor implementada no estado de São Paulo?
Cortella – O projeto tucano e o projeto lulista, chamemos assim, são diferentes em várias coisas e não em outras. Fernando Haddad hoje – também dando sequência a iniciativas de Tarso Genro – fez, com a expansão, que as federais estivessem a serviço da sociedade. O ensino médio, com a profissionalização tecnológica, que levasse a uma qualificação do trabalho dentro da sociedade. A grande diferença entre os dois governos é que o governo Lula tem uma concepção federativa e federalizadora da educação que o governo tucano não tinha. O governo Fernando Henrique imaginava que a autonomia de cada unidade deveria ser respeitada por conta de suas especificidades, e o governo lulista entende que a educação tem que ser federalizada, um vestibular único, um exame nacional de seleção único. E único não significa exclusivo, mas sim baseado em um patamar único. É a percepção de que é preciso fazer, e fazer juntando as forças nacionais. Nesse sentido é positivo.
O governo Fernando Henrique Cardoso e a gestão em São Paulo desde o governo Mário Covas até hoje se dá a partir das orientações do Banco Mundial. É só lembrar que parte dos educadores tucanos não é de desqualificados, ao contrário, tem outra percepção, mas todos tiveram algum tipo de pertencimento às políticas do Banco Mundial, inclusive o Paulo Renato, que viveu em Washington muito tempo, a Guiomar Namo de Mello [ex-secretária de Educação do município de São Paulo] até há pouco era presidente da Fundação Victor Civita, do grupo Abril… Essa lógica de um viés mais privatista, que deixa que as forças sociais e o setor privado se encarreguem de ocupar o que é gerador de qualidade, e que eu chamo de privilégio, é um grande diferencial.
Hoje, no governo estadual de São Paulo, principalmente de Paulo Renato e antes de Maria Helena Guimarães de Castro, que é uma grande professora e intelectual, é preciso centralizar a ação docente em função de um material. E esse material, que é o apostilamento da educação, é o grande motivo privatista na área de educação nas redes públicas país afora. Há grandes grupos privados cuja receita é o apostilamento do ensino municipal. Um grupo que atua com a produção de texto, de livro, e o município apostila…
Fórum – E eles estão se tornando financiadores de campanhas eleitorais.
Cortella – Alguns dos ministros que aí estavam eram proprietários dessas grandes redes. Existe capital internacional nisso também. Não é à toa que o Grupo Pitágoras, que eu gosto muito, faço atividades com eles eventualmente, mas são um grupo poderoso nessa área. Tem capital norte-americano, declarado, e o proprietário é o Walfrido Mares Guia, que foi um grande secretário de Educação de Minas Gerais, cujo principal teórico é o Cláudio de Moura Castro, que veio também de algumas atividades do Banco Mundial e é colunista da revista Veja. Ressalto de novo que não são pessoas que não têm competência na área da sua percepção ideológica da educação. Pelo contrário, têm uma competência sólida. Aliás, é uma pena, porque se menos competentes fossem teríamos uma dificuldade menor para romper determinados parâmetros que considero negativos.
Esse apostilamento da rede estadual paulista, como tudo na vida, tem um elemento de positividade, que é a capacidade de organizar um pouco o conteúdo que estava disperso. Mas ao ser colocado não como uma diretriz, mas como obrigatoriedade, e não fazendo uma formação que prepara o docente para a autonomia, o que ele faz é substituir o docente pelo material didático. Isso é o que se chamava de tecnicismo na educação, isto é, tanto faz se sou da área de filosofia, de psicologia, de comunicação, posso dar qualquer conteúdo pois este não está comigo, está no material escrito. Isto tira a autonomia das redes de ensino, nas municipais dificulta que ela ganhe a independência, porque ela passa a depender desse material. E no dia em que o contrato é rompido, durante anos você teve uma formação por empréstimo. Lembra um pouco Nietzsche quando diz “trouxestes os vossos leões do Pireu até aqui apenas para nos mostrar que o Pireu não é aqui?”. E durante quatro anos, ou seis ou oito anos, você tem aquele apostilamento sem que haja apropriação pela rede municipal, que não produz sua teoria, sua convicção, sua prática refletida. Cria-se uma certa orfandade pedagógica, que é o grande risco.
No caso do governo do estado, não é necessário que a gente pegue a temática do apostilamento e a descarte como se fosse de si negativa. Pelo contrário, ela tem elementos de positividade, se ela fosse uma junção de uma organização de um esforço pedagógico de formação, em conjunto com os docentes, as estruturas associativas sindicais, e que se fizesse um projeto de formação da educação pública no estado de São Paulo. Aliás, Paulo Freire dizia que a prática de pensar a prática é a única maneira de pensar certo. Marx tem uma frase que acho definitiva, “o único critério de verdade é a prática”. Para ver se o projeto funciona ou não é só você verificar o que aconteceu nos últimos 14 anos e analisar o resultado. Se é o mesmo tipo de modelo pedagógico e ele chega com o decréscimo das condições de aprendizagem do código matemático e o código linguístico, é melhor reavaliar o projeto ideológico que está por trás. E isso é algo que acontece no estado.
Por exemplo, Rose Neubauer, que foi secretária da educação do governo Covas, fez uma gestão cuja finalidade era quebrar a espinha da área sindical. E ela fez, porque ao levar a uma municipalização compulsória e precoce, e depois com a entrada em cena da separação das escolas, de primeira à quarta em uma unidade, de quinta à oitava em outra, separou docentes também. Quando Paulo Renato implantou o Fundef, que exigia que o município, para receber os recursos, tivesse um número maior de alunos no ensino fundamental, preferiu municipalizar, o que levou a um enfraquecimento das estruturas do movimento social via sindicato.
Quando ela foi substituída pelo Gabriel Chalita, ele conseguiu algo muito positivo na educação, mas, claro, não foi o suficiente. Ele reencantou um pouco a educação, levando um pouco de estímulo à parte do professorado que não tinha militância política no cotidiano. Ao falar da “pedagogia do amor”, da “esperança”, fazendo grande palestras, como ele é um brilhante palestrante, deu um pouco de ânimo, mas foi uma coisa eventual, já que não teve depois sustentação. Ele foi inspirador, reviu pontos a respeito da progressão continuada, mas foi substituído pela professora Maria Lúcia, freiriana, que infelizmente não permaneceu porque ficou adoentada. E a professora Maria Helena dá continuidade à gestão tucana. Paulo Renato, quando assumiu, não disse o que ia fazer, só falou do viés político. Em época de eleições, como em 2010, começa a haver um discurso cínico sobre educação. Ela vira prioridade, mas prioridade se traduz em recurso e políticas na área.
Fórum – A educação chegou a ter uma centralidade nas últimas eleições presidenciais.
Cortella – Mas perdeu o fôlego, por uma razão: algo só é assunto se a mídia pautar. Senão, sai do circuito.

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