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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

The Voice é um show de calouros que tem a ver com tudo, menos com vozes.


 Por Kiko Nogueira
Postado em 31 out 2015
O calouro
O calouro

“Às vezes, fazer algo muito romântico não tem a pegada do que as pessoas querem em um programa de calouro”, falou o candidato Matteus Brunetti no The Voice.
“Isso é um programa de grandes vozes”, protestou a cantora Cláudia Leitte, seguida pelos três outros jurados. A falsa indignação era porque Matteus estava certo, mas fugiu do script. Recusou-se a chamar o lixeiro de “engenheiro sanitário”, como no filme de Scorsese.
O The Voice não apenas é uma versão mais rica do que os concursos do Raul Gil ou do Chacrinha, como não tem nada a ver com voz. É um reality show ordinário em que todos soam exatamente iguais, seja interpretando samba, pagode, rock ou baião.
Em nome de um suposto favorecimento dos atributos vocais sobre os físicos, o juri fica de costas para o cidadão — como se já não tivesse havido uma triagem anterior.
Gente que alimenta o desejo de ficar famosa ou algo que o valha se submete aos argumentos dos quatro “especialistas”, que prometem fazer da pessoa uma estrela. Ninguém parece notar: “Opa, aquele ali é o Michel Teló, que fez um hit na vida, uma besteira cujo nome já foi esquecido. Vou nessa. Ele vai me transformar no novo Michel Teló”.
Nos bastidores, o pegajoso Tiago Leifert promove uma apelação aos instintos mais baixos com pais, mães, namorados e amantes chorando e contando como o cara cantava em Cachaceiro do Itacurumi, a galera aplaudia e alguém falou que ele era tão bom quanto Alcione e que precisava tentar uma chance e lágrimas, eu sempre acreditei nele etc etc.
A música brasileira não merecia esse espancamento. Qualquer sinal de originalidade é sufocado no berço. O primeiro colocado ganha 500 mil reais, um carro zero, contrato de gravação e “gerenciamento de carreira” com a Universal. As carreiras foram tão bem gerenciadas que os ganhadores das três edições anteriores continuam desconhecidos.
Os únicos que se saem bem são os técnicos. Lulu Santos voltou a ter agenda de shows, Cláudia Leitte virou nome de perfume, Carlinhos Brown saiu do limbo e Michel Teló ganhou uma sobrevida.
Não é só no Brasil. Nas versões do The Voice em todo o mundo, os técnicos levam a melhor sem que consigam lançar um único nome novo no cenário, o que é, em tese, a razão de ser do programa. O The Voice depende da inocência dos calouros que precisam fingir não ser calouros para que todo o mundo fature, menos os calouros.
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