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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os ricos estão enchendo suas casas com objetos roubados dos pobres 2

Primeiro Isaías: leitura anotada

Primeiro Isaías: leitura anotada
O presente trabalho é resultado da leitura do livro “Como Ler o Primeiro Isaías, de autoria de Shigeyuki Nakanose e Enilda de Paula Pedro. O propósito é apresentar alguns pontos que marcaram a leitura dessa interessante obra.
Pr. Sólon Lopes Pereira

Nome, data, local de atuação do profeta

Isaías, cujo nome significa "Javé é salvação" nasceu por volta de 760 a.C., no reino do Sul, Judá, durante o reinado de Ozias (781-740 a.C.) e tinha formação e cultura típicas de Jerusalém, já que era profeta do Templo e conselheiro do rei (2Rs 19,1-7). Esse lugar social, com suas tradições religiosas, delineou a vida; as opções e a mensagem do profeta.
Por volta de 740 a.C., com apenas 20 anos de idade, Isaías recebeu a vocação profética e, em seguida, casou-se com uma profetisa que lhe deu dois filhos, aos quais Isaías deu nomes simbólicos, relacionados com sua mensagem profética: Sear Jasub, que significa "um resto voltará" (7,3), e Maer Salal Has-Baz, que significa "pronto-saque-rápida-pilhagem" (8,3c).
O estilo de seus escritos é clássico e original. Foi verdadeiramente um poeta, cheio de sensibilidade, breve e preciso: linguagem direta, com imagens simples que tocavam o âmago da questão e atingiam em profundidade o destinatário (Is 5,1-7).
A data de sua morte é incerta. Provavelmente ocorreu após a morte de Ezequias, em 687 a.C. A tradição judaica, assumida por alguns padres da Igreja, como Justino, Tertuliano e outros, diz que Isaías foi martirizado por Manassés, que teria mandado parti-Io ao meio.

O livro de Isaías

O livro de Isaías é dividido em três partes. Segundo estudiosos, trata-se, na verdade, três livros em um só, cada qual com situações históricas de épocas e lugares diversos.
O primeiro Isaías vai do capítulo 1 ao 39 e foi escrito, em sua maior parte, em Judá, pela comunidade do profeta Isaías. Esse texto abrange o período histórico de 740 a 701 a.C.
O segundo Isaías vai do capítulo 40 ao 55 temos. Seu autor é do tempo do exílio na Babilônia, mais ou menos 550 a.C.
O terceiro Isaías vai do capítulo 56 a 66, provavelmente escrito no pós-exílio, por um grupo de Judá, nos anos 500 a.C.
Situando-nos na história
a) De Davi até a época de Isaías
O processo de consolidação da monarquia em Israel se deu com Davi (1010-970 a.C.). O Egito estava em decadência e a Assíria ainda não constituía ameaça para a Palestina e para os países vizinhos.
Davi organizou um exército mercenário com aqueles que estavam à margem da sociedade: os estrangeiros, os endividados, os desempregados (1Sm 22,1-2). E com isso lhes deu serviço: proteger aqueles que tinham bens e podiam pagar tributos (18m 25). Davi deixou de lado a lei tribal da "guerra santa", segundo a qual só se podia guerrear em caso de defesa e partiu decididamente para a guerra de conquista, pela qual se praticava o saque e se apropriava dos despojos do inimigo, algo também condenado pelas leis tribais (Js 6,17-21).
Com esse exército, ou os "seus homens", Davi dominou a estratégica cidade-estado de Jerusalém, que estava nas mãos dos Jebuseus. Jerusalém, também chamada "fortaleza de Sião", tornou-se então a Cidade de Davi (2Sm 5,6 - 12).
Davi continuou ligado à organização tribal. Manteve o exército tribal através do seu chefe, Joab (2Sm 8,16). E na questão religiosa, ao lado de Sadoc, sacerdote jebuseu, conservou o sacerdote levita Abiatar, que pertencia ao sistema tribal (2Sm 8,17).
Com os "seus homens" Davi conquistou cidades importantes e controlou rotas comerciais, arrecadando mais tributos (2Sm 8,1-12). Conquistando Edom (28m 8,13-14), passou a controlar a estrada dos Reis que ligava o porto de Asiongaber com a cidade de Damasco, atravessando Edom, Moab, Amon e a região de Galaad.
Ao conquistar a região de Sefelá, área produtora de trigo e cereais, Davi controlou a estrada do Vale que ligava Sefelá a Jerusalém. Essa rota interna fazia a conexão entre as duas grandes rotas comerciais: estrada dos Reis e o caminho do Mar, que ligava Egito, Assíria e Mesopotâmia. Com tais conquistas Davi conteve o avanço dos filisteus, além de ter nas mãos a região de Sefelá e a rota para transportar produtos e abastecer o centro de Jerusalém.
Desse modo, a nação desenvolveu-se, expandiu-se, e Davi cresceu em popularidade. Afinal, ele agradava a ricos e pobres. O nacionalismo aumentou. Davi não massacrou o povo do campo com tributos, pois conseguiu muitos bens e riquezas a partir de conquistas. Mas, ao passo que realizou essas conquistas, violou algumas leis tribais, guardadas zelosamente no coração do povo, além de privilegiar Judá em detrimento das tribos do Norte (2Sm 15,1-6). E aqui e acolá foram surgindo revoltas, como a de Absalão (2Sm 15-18) e de Seba (2Sm 20).
Para acalmar os ânimos e justificar a conduta do rei, lançou-se mão da religião do próprio povo. Jerusalém, a fortaleza de Sião, foi apresentada como a "Cidade de Davi", escolhida por Javé. Para dar respaldo a tal escolha, a Arca da Aliança, símbolo da religiosidade camponesa, foi transportada para Jerusalém (lSm 6). Pouco a pouco a elite, com a ajuda do profeta Natã, foi incutindo no povo a idéia da escolha divina da casa davídica, com a qual Javé fez aliança para sempre (2Sm 7; SI 89,1-5). A partir dessa ideologia, o rei passou a ser o intermediário entre Deus e o povo. Obedecer ou desobedecer ao rei significava obedecer ou desobedecer a Deus.
Salomão, ao substituir Davi no trono de Israel, eliminou os remanescentes tribais próximos à corte. Mandou matar Adonias, seu irmão mais velho (1Rs 2,12-35), nascido em Hebron (2Sm 3,4), e Joab, chefe do exército popular. O governo de Salomão pode ser classificado como um governo de "segurança nacional" e solidificação do sistema monárquico. Salomão criou um exército poderoso, com carros de guerra, a arma moderna da época, para defender as rotas comerciais, os armazéns com os excedentes e o palácio (lRs 10,26-29). Construiu o Templo, palácios, cidades-armazéns (lRs 6-9). Para manter essa infra-estrutura e a mordomia da corte, Salomão espoliou o povo com tributos em forma de arrecadação de produtos e de corvéia - trabalho que as pessoas eram obrigadas a prestar para as obras do Estado (lRs 5,27-32; 9,15-24; 11,28).
Salomão organizou um grupo de escribas e sacerdotes da corte que, além de escrever os anais, tinham a função de estruturar a justificativa ideológica da monarquia davídica que até então era embrionária. Esse trabalho ideológico foi mais longe. Enclausuraram a Arca da Aliança no Templo (lRs 8,6) e, com ela, um dos importantes pontos de referência da religiosidade popular. Javé, o Deus da vida, que caminhava com o povo, agora tinha um rosto diferente: era o rei dos reis e sua morada era o Templo, na montanha santa de Sião. Aí devia ser procurado. Mais tarde, Isaías, profeta do Templo ligado à corte, assimilou essa teologia.
As medidas de governo tomadas por Salomão entraram em choque com a realidade dos camponeses e a cultura tribal, da qual eram portadores. A alta tributação em forma de corvéia, sobretudo às tribos do Norte, estrangulou a produção do campo - base de sustentação da cidade e da própria monarquia (lRs 4,1-5,8). Salomão perdeu o controle de Edom e da estrada dos Reis e, conseqüentemente, do comércio (lRs 11,14- 25). Para saldar as muitas dívidas externas, Salomão foi forçado a entregar cidades importantes (lRs 9,10-14). A situação tornou-se insustentável. No final do seu governo já estava nítido o clima de revolta (lRs 11), que acabou estourando no início do reinado de seu filho Roboão (lRs 12). Em 931 a.C. aconteceu a divisão do reino: reino do Sul, Judá; reino do Norte, Israel. Após a divisão do reino, Judá entrou num processo de crise.
b) Época de Isaías
Cento e cinqüenta anos mais tarde, durante o longo reinado de Ozias (781-740 a.C.), o reino do Sul voltou ao esplendor dos tempos de Salomão. Nesse mesmo período reinava no Norte Jeroboão II (783-743 a.C.). Judá viveu um tempo de independência, prosperidade e paz. Paralelamente a essa realidade, aconteciam injustiças, arbitrariedades, corrupção, cobiça dos grandes, opressão.
Foi nesse contexto de prosperidade associada à opressão do povo que Isaías inicia sua contraposição ao governo e à elite dominante (3,15).
No final do governo de Joatão e início do reino de Acaz (736-716 a.C.), o tempo de independência, de festa e de glória do reino de Judá, pouco a pouco, foi desaparecendo. Iniciava-se a expansão do império assírio, sob o comando de Teglat-Falasar III (745-727 a.C.). Este grande imperador e hábil militar, desejoso de ampliar seus territórios e conquistar rotas comerciais, aperfeiçoou, equipou e modernizou seu exército (9,4).
Teglat-Falasar III e seus sucessores assumiram a tática militar chamada de "guerra de conquista". Segundo essa tática, o império impunha progressivamente seu domínio sobre as nações dependentes através de três etapas de vassalagem, quais sejam:
1ª etapa: imposição pela força militar de um tributo anual e convocação de soldados para o exército em caso de necessidade.
2ª etapa: deposição do rei em exercício e imposição de um novo "rei" de confiança do império; ocupação das cidades estratégicas e das terras produtivas; deportação de parte da população; aumento do controle militar e da tributação. Nessa etapa ainda permanece a capital.
3ª etapa: perda da independência, tomada da capital. O estado vassalo se transformava numa província assíria. Um administrador assírio arrecadava os impostos. As lideranças eram deportadas e um grupo de estrangeiros ocupava os cargos estratégicos. Isso visava desmobilizar os camponeses e impedir qualquer revanche contra a Assíria. Foi o que aconteceu com Israel em 721 a.C.
Com essa tática de guerra, Teglat-Falasar III estendeu o domínio assírio desde Urartu até a Babilônia e a zona da Síria-Palestina. Suas campanhas na Síria-Palestina o levaram a intervir, a pedido de Judá (2Rs 16,7), na Guerra Siro-Efraimita. O preço dessa ajuda foi incluir Judá entre os países vassalos da Assíria. Enquanto Israel passava para a segunda fase de vassalagem, perdendo suas terras férteis, cidades estratégicas e tendo de "engolir" um rei imposto pelo império assírio (2Rs 15,29-30), Judá entrou na primeira etapa de vassalagem à Assíria, com a obrigação de pagar pesados impostos (2Rs 16,8-9).
Teglat-Falasar III morreu e Salmanasar V ocupou o trono (726-722 a.C.). Neste período muitos países tentaram se livrar do jugo da Assíria. Judá permaneceu quieto em sua situação de vassalagem.
A época de Sargon II é muito importante para entendermos a atividade de Isaías. Por volta de 713, vários pequenos estados, como Edom e Moab, fizeram modesto levante, liderados pelo estado filisteu de Azoto, com apoio do Egito. Desta vez, Judá "levantou a bandeira da revolta" e aliou-se aos rebeldes. Encontramos muitas alusões a essas guerras nos oráculos de Isaías. Sargon II abafou a rebelião e Judá conseguiu escapar, submetendo-se ao rei assírio com o pagamento de pesados tributos.
Sargon II foi substituído por Senaquerib (704-681 a.C.). Aproveitando essa mudança de reis no império assírio, os pequenos reinos da Palestina e áreas vizinhas fizeram nova tentativa de revolta, como havia acontecido em 713 a.C. Desta vez Judá, tendo como rei Ezequias (716-687 a.C.), assumiu a liderança do movimento antiassírio. Foi uma catástrofe!
Esses acontecimentos e seu impacto na vida do povo estão por detrás da mensagem do Primeiro Isaías.

TEMPO DE PROSPERIDADE (740-736 a.C.)

Durante o longo reinado de Ozias e seu filho Joatão, Judá viveu um tempo de independência política, prosperidade e expansão. Mas, o custo da prosperidade, segurança, abastecimento do comércio e da manutenção da elite foi alto. A corvéia[1] e o alimento extorquido do camponês foi denunciada por Isaías, que constatou que havia injustiças, arbitrariedades dos juízes, corrupção dos governantes do país (3,13-15); cobiça dos grandes (5,8-10). Tudo isso era acobertado por uma falsa religião (1,10- 20). Vários oráculos de Isaías pertencem a esse período histórico.

I. Isaías viu

1. Não se pratica mais ajustiça e o direito...
Isaías lamenta a atual situação de Jerusalém, a cidade escolhida de Javé. Antes, estava "cheia de direito, e nela morava a justiça; agora, está cheia de criminosos!'. Isso, na visão de Isaías, faz dela uma prostituta. A imagem é a do matrimônio. Jerusalém ou o povo é a mãe de família que gera e acolhe. É a esposa do Senhor, a quem deve fidelidade. Temos aqui um eco do profeta Oséias 2,21-22. Essa fidelidade consiste em administrar a cidade com justiça. Conforme diz o Salmo 122,5: "Aí estão os tribunais da justiça, no palácio de Davi". O que nos dá a entender que a palavra do profeta se dirige aos governantes, primeiros responsáveis por que haja justiça no país.
Comparando os homens de Judá a uma vinha plantada por Deus, Isaías registra que Deus "Esperava que produzisse uvas boas, mas ela produziu uvas azedas”
Sem esperar resposta, talvez os gestos falem por si mesmos, o cantor passa à ameaça. Vai tirar toda a proteção da vinha e deixá-Ia servir de pasto para os animais seIvagens. Vai até dar ordens às nuvens para que não chovam. O texto é claro: é Javé, o Senhor da história, o noivo que fala através do profeta. Os chefes do povo, os juízes são condenados.
2. A situação de luxo e bem-estar torna a elite orgulhosa
Diante da situação de calamidade, Deus assume posição de juiz contra aqueles que deveriam conduzir o povo com retidão e justiça. Isaías chama todo esse grupo de "seu povo", em oposição a "meu povo", que são os pobres (3,13-15).
As acusações são fortes: os ricos estão enchendo suas casas com objetos roubados dos pobres (cf. Dt 27,25; Ez 22,12). E, pior ainda, tudo indica que isso faz parte do cotidiano. O profeta é direto na sua pergunta, que traz nítida a compaixão de Deus pelo "meu povo": Que direito têm vocês de oprimir o meu povo e de esmagar a face dos pobres? Isaías se identifica com os pobres, cuja face está sendo esmagada (Am 2,7). Não se trata de um povo anônimo. É um povo que tem face, tem identidade: é povo de Deus!
Isaías observa até o comportamento das mulheres da elite. A beleza feminina, com adornos e atrativos, é força que pode ser usada tanto para libertar (Jt 12,15; 16,7-8), como para oprimir e insultar, como em Isaías 3,16-26. Nesse texto, o profeta critica a situação contrastante entre ricos e pobres que se expressa até no jeito tão próprio de as mulheres se enfeitarem. Isaías, ironicamente, cita vinte e uma peças de enfeites, muitas das quais de nomes estrangeiros, o que significa serem objetos importados, acessíveis somente à elite. Portanto, trata-se de mulheres das classes altas da capital (Sf 1,8). A acumulação de objetos sofisticados e supérfluos envolve roubar aqueles que passam necessidade. E o pior é que tamanhas injustiças ainda são acobertadas por cultos e outras manifestações religiosas!
3. A religião usada como máscara
Ao denunciar, o profeta é objetivo: enquanto o povo estiver sofrendo com as injustiças, o culto será uma farsa. E ele vai mais longe: é um suborno! É querer enganar a Deus (Dt 10,17; Eclo 35,11-13). Encontrar-se com Deus não se reduz a pisar nos átrios, trazer oferendas e praticar uma série de rituais. "Quando vocês vêm à minha presença e pisam meus átrios, quem exige algo da mão de vocês? Parem de trazer ofertas inúteis. O incenso é coisa nojenta para mim, luas novas, sábados, assembléias... não suporto injustiça junto com solenidade. Eu detesto suas luas novas e solenidades. Para mim se tornaram um peso que eu não suporto mais. Quando vocês erguem para min as mãos, eu desvio o meu olhar; ainda que multipliquem orações, eu não escutarei" (1,12-15ab).
E continua: "As mãos de vocês estão cheias de sangue. Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem; busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva" (1,15c-17).
O profeta faz um apelo à conversão, que se dá através da prática concreta do direito e da justiça para com o pobre, personificado no oprimido, no órfão e na viúva. A lei lhes assegura direitos (Dt 24,10-22) que não estão sendo reconhecidos pelos que estão encarregados da administração da nação.

II. Isaías reage

1. O rei não é Deus!
As críticas apresentadas até aqui têm como ponto de partida o fato de Isaías desmistificar a figura do rei com sua corte. O que ocasionou isso foi a morte do rei Ozias, considerado pelo pessoal da capital como um novo rei Davi, por suas obras e conquistas. O rei Ozias foi atingido por lepra. Teve de ficar isolado, vindo a falecer. Naquela época, para um judeu, isso era terrível, pois a lepra era tida como um castigo de Deus por alguma falta grave. A pessoa leprosa era considerada impura e tudo o que ela tocasse se tornaria impuro também (Lv 13,1-17). Tal acontecimento foi palavra de Deus na vida de Isaías. Ozias não era um super-homem. Esse fato desmistificou a imagem do rei que Isaías carregava. Ocorreu uma conversão na vida do profeta. Ele passou a relativizar o rei, os dirigentes da nação e a questionar a realidade social de seu povo. O verdadeiro rei era somente Javé.
2. Aguardem as consequências
Deus abate a arrogância humana. A mensagem de Isaías se dirige diretamente à sociedade que se gloria de sua auto-suficiência econômica, social e militar, que revive o apogeu salomônico durante o governo de Ozias e seu filho Joatão: "E a fama dele se espalhou até a Entrada do Egito, pois ele se tornou muito poderoso" (2Cr 26,8b). O profeta compara a altivez dos poderosos com todos "os altos cedros do Líbano", com "os altos montes" e "as colinas elevadas! O domínio ideológico da elite e a sua arrogância se manifestam nas suas fortalezas, "torres altas" e luxuosa frota comercial com a qual se transportavam tesouros. Como um furacão, Deus vai derrubando tudo o que se ergue! Só Javé será exaltado!
A elite se dá o direito de recorrer às práticas de magia para apressar os acontecimentos. Os problemas em que a nação está mergulhada indicam a catástrofe iminente, mas aqueles que governam se conservam na incredulidade, como se dissessem: é preciso ver para crer! E continuam enganando o povo como se tudo estivesse bem (5,20).
Os juízes que foram instituídos para defender a causa do fraco, do pobre, da viúva, do órfão usam seu cargo para oprimir o desamparado. É a perversão da justiça. Os tribunais criam leis para defender os ricos e poderosos. Isaías contrapõe: "vocês", ou "este povo", a "meu povo". Quando Isaías diz: "vocês", ou "este povo", está se referindo aos ímpios e poderosos, enquanto aos pobres e oprimidos ele usa a carinhosa expressão "meu povo". Sinal de que e se identifica com esta categoria marginalizada. (10,1-4).
Estes, que agora têm autoridade, um dia comparecerão diante do tribunal de Deus. O que farão? Quem irá defendê-Ios? Nesse dia não haverá advogado que os defenda. A existência dos pobres, em si, já é uma acusação contra os ricos opulentos. Mas é interessante notar que em nenhum momento Isaías menciona o rei como alvo de suas denúncias. O profeta pede justiça social dentro da estrutura monárquica. Acredita que pode existir uma cidade

GUERRA SIRO-EFRAIMITA (735-734 a.C.)

 Ao mesmo tempo em que Judá decaía, ao final do governo de Joatão, o império assírio estava em expansão, sob o comando de Teglat-Falasar III (745-727 a.C.). Esse império começou a tributar o reino do Norte e as cidades-estados da Síria. Era a primeira etapa de vassalagem. O rei de Israel, Facéia, que comandou a nação de 737 a 732 a.C., fez uma aliança com o rei de Damasco, capital da Síria, com o objetivo de barrar o avanço da Assíria e parar de pagar impostos.
Os dois reis tentaram incluir Acaz, rei de Judá, nessa trama. Acaz não aceitou a proposta. Israel e Damasco invadiram Judá (2Rs 16,5). É provável que o desejo de expansão territorial, sobretudo a disputa do território da Transjordânia, estivesse por trás desse jogo político. Acaz pediu socorro ao rei da Assíria, que não perdeu a oportunidade (2Rs 16,7-9). Partiu para apoiar Judá. Arrasou Damasco e tomou posse das cidades estratégicas de Israel, além de levar seus habitantes deportados para Assíria (2Rs 15,29), deixando apenas Samaria. Esta é chamada guerra Siro (Damasco)-Efraimita (Israel), ocorrida entre 735 e 734 a.C., mencionada diversas vezes pelo profeta Isaías nos capítulos 7 e 8.
A partir de então, enquanto Israel passava para a Segunda etapa de vassalagem, Judá entrava na primeira tendo de pagar pesados tributos ao império assírio (2F 16,8). E o segundo livro dos Reis nos informa de outro problema que Judá enfrentou, simultaneamente. "Na mesma época, o rei de Edom reconquistou Elat para os edomitas, expulsando os judaítas que aí moravam" (2F 16,6). Note-se que a cidade de Elat era fundamental para o controle da mais importante rota que cortava Palestina de norte a sul: a estrada dos Reis. Perder esse controle dificultava a livre transação comercial.
Nesse contexto Isaías era contra toda e qualquer aliança. Seu apelo aos dirigentes da nação sempre foi para que pusessem a fé em Javé, o Deus que fez aliança com o povo através de Davi (2Sm 7). Por isso ele insiste com Acaz para não ter medo dos aliados e não buscar socorro no império assírio.
Mas, diante do cerco, Acaz corre atrás dos grandes. A Assíria ataca Damasco e Samaria. Os exércitos que cercam Judá são obrigados a se retirar para defender suas cidades-estados em conflito com a Assíria. Judá aproveita a oportunidade para mandar seu exército perseguir os inimigos em fuga. Contrariando a opinião dos outros conselheiros oficiais do rei, Isaías anuncia derrota do exército de Judá e promete castigos por parte de Javé (3,25-26). Como estes não se realizaram, o profeta caiu no descrédito e foi obrigado a entrar no silêncio.

I. Fracasso do movimento antiassírio

Desde o começo das ameaças dos países aliados - Damasco, Samaria e as várias cidades filistéias - contra Judá, Acaz e a elite se manifestaram temerosos: "... o rei e todo o povo ficaram agitados como árvores do bosque agitadas pelo vento" (7,2). O sucessor de Davi e o seu grupo, com medo do ataque, estão prestes a buscar socorro na potência Assíria. Essa aliança com a Assíria, para enfrentar os aliados, não vai dar certo. Isaías faz um irônico convite para os aliados anteciparem sua derrota, pois os seus planos e estratégias "não se cumprirão, porque Javé está conosco" (8,10). De onde Isaías tira tanta convicção? Da certeza de que Javé escolheu a cidade de Jerusalém e fez aliança com o povo através da casa de Davi: "A dinastia e a realeza dele permanecerão firmes para sempre diante de mim; e o seu trono será sólido para sempre" (2Sm 7,16). Sua palavra não falha!
Isaías faz um último oráculo antes da invasão dos aliados contra Judá. Através de símbolos, explica a situação para o povo que freqüenta o Templo. O primeiro é a tábua com um nome que nos deixa curiosos. Isaías toma duas testemunhas: uma delas é Urias, um sacerdote do Templo, fiel servidor do rei Acaz, conforme 2Rs 16,10-16; a segunda é Zacarias, filho de Baraquias, mencionado em 2Rs 18,2. A seguir fala de sua mulher profetisa que lhe dá um segundo filho, cujo nome é exatamente a estranha expressão que se encontra na tabuinha. O nome do menino e o seu rápido crescimento explicam a iminente derrota dos aliados e a perda de suas riquezas. As primeiras palavras da criança soarão como cântico de libertação para o povo de Judá (8,1-4).
As palavras do profeta caem no vazio. Os aliados avançam de todos os lados. O exército de Damasco desce pela estrada dos Reis, somando forças com Amon, Moab e Edom, ou seja, toda a região da Transjordânia. No caminho se divide em dois grupos. Um grupo se dirige à Samaria para reforçar o exército aí existente. Outro grupo continua o caminho em direção ao porto de Elat e Asiongaber. Na volta, ataca Jerusalém. Do lado leste, cidades filistéias fazem o cerco à capital de Judá. O rei de Judá está encantoado por seus antigos aliados.
Acuados, Acaz e a elite se inclinam para a Assíria a fim de pedir socorro. O profeta é enviado junto com seu filho mais velho, Sear Jasub, para conversar pessoalmente com Acaz. O garoto não fala na cena. Mas sua presença tem valor de testemunho. E seu nome, que significa: "Um resto voltará", é uma promessa (10,21-23). A ordem de Javé é clara. Não temer e ter cautela. Manter a neutralidade. Na hora oportuna, "Javé, o Santo de Israel, agirá!" (30,15).
Os aliados não querem destruir Judá, mas incluí-lo na sua aliança contra a Assíria. Para realizar tal plano, se propõem trocar Acaz por alguém de sua confiança. Aí está o problema. Acaz não está preocupado com o povo, mas com a perspectiva de perder o que ele quer deixar para sua posteridade: o trono. Isaías lhe assegura que basta ter calma e confiar em Javé (7,3-9).
O oráculo termina fazendo um apelo de fé: "Mas, se vocês não acreditam, não se manterão firmes" (7,9). A fé é a base da vida do povo. A raiz da fé é a palavra de Deus, que se há de cumprir apesar dos planos e projetos dos inimigos. A fé é dizer incondicionalmente "amém" a Deus.
Acaz tem de tomar uma decisão. Deus oferece ao rei a possibilidade de pedir um sinal, à sua escolha, para confirmar sua débil fé. O rei recusa a oferta de Deus, alegando religiosidade e respeito: "Não vou tentar a Javé!' (7,10-12).
Na verdade Acaz não quer sinal, porque também não tem fé. Ele tem medo de se aproximar de Deus. Diante de tamanha hipocrisia, o profeta não se contém e exclama: "Escute, casa de Davi, será que não basta a vocês cansarem a paciência dos homens? Precisam cansar também a paciência do próprio Deus?" (7,13). Acaz é o continuador da casa de Davi, a dinastia eleita. Sua atitude incoerente está cansando o povo e o próprio Deus.

II. Por que confiar nos grandes e poderosos?

Apesar de todo o esforço do profeta, Acaz vai atrás da Assíria. Os discípulos de Isaías registraram alguns fragmentos dos seus oráculos criticando tal atitude. A aliança com a Assíria, para Isaías, terá como conseqüência a presença molesta do Egito e da Assíria comparada com insetos invasores (7,18-19).
Em outro oráculo, Isaías usa uma imagem mais forte: "Uma navalha alugada além do rio Eufrates". Desta vez a invasão da Assíria será mais desastrosa e humilhante. Raspar a cabeça e o pêlo das pernas é um gesto de humilhação terrível (cf. 2Sm 10,4). É como deixar a pessoa nua em público. O Senhor vai humilhar o exército assírio. Sua chefia e seus líderes políticos serão destruídos (7,20).
Os países aliados cercam Jerusalém. Isaías fala que, mesmo diante do cerco dos países vizinhos, é preciso agüentar firmes, confiando só em Javé. Qualquer ajuda do grande império terá o preço da violência das águas, que ninguém consegue deter (8,5-8).
O rei da Assíria atende o pedido do rei Acaz e vai em seu socorro. Arrasa Damasco e toma posse das cidades estratégicas de Israel: "Aion, Abel-Bet-Maaca, Janoe, Cedes, Hasor, Galaad, Galiléia e toda a região de Neftali; e deportou seus habitantes para a Assíria" (2Rs 15,29), deixando apenas Samaria. Os exércitos da Síria e Israel deixam Jerusalém e voltam para se defender dos ataques do império assírio. Acaz se põe em perseguição aos exércitos inimigos e ultrapassa as fronteiras de Judá. Este fato, ocorrido por volta de 734 a.C., é mencionado pelo profeta nortista Oséias (5,8-15).

III. Fidelidade a Javé em primeiro lugar

Isaías considera absurda a atitude de Acaz. No fundo ele está se entregando com todo o reino de Judá nas mão do rei assírio. Para lutar contra o leão, Acaz se joga no braços do urso! (cf. Am 5,19). Isaías não pode concordar. Sua fidelidade a Javé, o Santo de Israel, e às promessa feitas à dinastia davídica gritam mais forte dentro dele É um momento estratégico. Apesar de ser conselheiro oficial, Isaías não profetiza a vitória de Israel, mas a sua derrota (3,25-26).
Entretanto, os fatos contradizem a palavra profética. O exército de Acaz, com ajuda da Assíria, vence e volta cantando vitória. Isaías é ridicularizado (8,11-15) e entra num tempo de silêncio. Essa sua nova maneira de agir se torna uma denúncia por si mesma... o grito do silêncio (8,16-18).
Nesse tempo Isaías perde sua função de conselheiro oficial porque não anuncia vitória. Ele foi acusado até de estar fazendo conspirações contra a nação (8,11-13).

MOVIMENTO ANTIASSIRIO  (727-711 a.C.)

Com a morte do imperador assírio Teglat-Falasar III, em 727 a.C., seu substituto, Salmanasar V, governou a Assíria de 726 a 722 a.C.
Nessa oportunidade, os pequenos reinos vassalos, encabeçados pelo rei Oséias, de Israel, e estimulados pelo Egito e Babilônia, começaram um movimento antiassírio para se livrarem dos tributos. O reino de Judá não entrou nesse movimento e permaneceu fielmente na sua situação de vassalagem, pagando tributo ao grande império.
Em 724 a.C., Salmanasar V entrou em guerra com Israel, prendeu o rei Oséias e sitiou Samaria, e seu filho Sargon II (725-705 a.C.) tomou a cidade e deportou seus habitantes (2Rs 17,3-4). Foi a terceira etapa de vassalagem do reino do Norte. Um ano depois veio o socorro egípcio, que também foi derrotado pelas forças assírias, a 30 km antes de Gaza. Isaías alerta, afirmando que confiar no Egito era pisar em terreno minado. Para o profeta estava-se confiando demais nos poderosos.
Em 713 a.C., as cidades-estados filistéias, lideradas por Azoto e apoiadas pelo Egito, promoveram nova rebelião. Desta vez, o rei de Judá, Ezequias, aliou-se aos rebeldes, apesar da insistência de Isaías para confiar em Javé e desconfiar da ajuda dos egípcios (18,1-6). Isaías tinha razão. Sargon II, em 711, conseguiu controlar os estados rebeldes. O rei de Azoto, que havia procurado asilo político entre os egípcios, foi entregue aos assírios. Azoto foi transformada em província assíria. Judá escapou desse destino porque mais uma vez se submeteu à Assíria, pagando pesados impostos.
Isaías continuava avesso a qualquer aliança, que significava falta de confiança em Javé, o Santo de Israel, que escolheu o povo através de Davi e Jerusalém como sua santa morada. Isaías, homem sintonizado com Deus e com o povo, embora carregasse a teologia davídica, e sem os meios de comunicação de que hoje dispomos, conseguia tirar "raio X" dos acontecimentos e perceber suas conseqüências na vida do povo. Sabia que os grandes faziam as revoltas e os pactos e os pequenos pagavam o preço.

I. Judá em cima do muro

As conseqüências da aliança com a Assíria, que custaram a Isaías um silêncio forçado, não se fizeram esperar. A guerra Siro-Efraimita custou para Israel a perda de suas cidades importantes e a deportação de suas lideranças (2Rs 15,29). Para Judá, o pagamento de forte tributação à Assíria por mais de 20 anos (2Rs 16,8). A situação comprovou a veracidade da palavra do profeta. Com isso ele recuperou a credibilidade na corte.
Com a morte de Teglat-Falasar III e a revolta dos pequenos reinos, entram em cena as duas potências emergentes: Babilônia e Egito, que tinham interesse no corredor comercial da Palestina e na região da Fenícia. O rei Oséias, de Israel, mandou mensageiros para convidar Judá a entrar no "conchavo" antiassírio. Isaías foi radicalmente contra e os chamou de "bêbados" (28,1-6).
O Egito tinha interesse nessa atitude de revanche dos dominados assírios e, por isso, mandou mensageiros estimulando Judá a participar do movimento. Isaías os classificou de "bêbados" (19,11-15).
As cidades filistéias, embaladas pela onda de revolta queriam que Judá aderisse à rebelião dos pequenos estados. Isaías, mais uma vez repugna tal proposta (14,28-32).
Por trás do movimento antiassírio estava a confiança dos pequenos países na força do Egito. Isaías repetia insistentemente que a salvação estava nas mãos de Deus nele o homem devia confiar. A Assíria, para Isaías, representava a mão de Deus educando o povo. A história iria mostrar. Ou seja, era preferível submeter-se e viver a entregar o povo nas mãos do império assassino (cf. Jr 27,12).
O Oráculo de Isaías 14,28-32 é um dos mais fortes nesse período, um apelo para Judá não ficar como Samaria, correndo atrás do Egito. O profeta queria que a nação judaíta deixasse a luta com os estrangeiros na mão de Deus. O importante no momento era fazer uma boa política dentro do país, ou seja, ter um rei que governasse com justiça e direito, construindo uma cidade acolhedora, justa e fraterna: "Que lahweh fundou Sião e ali se refugiarão os mais pobres do seu povo" (14,32). Isaías não queria que a nação se tornasse palco de guerra, onde os grandes prejudicados seriam "os pobres do meu povo".
A corte de Judá deve ter seguido a orientação de Isaías, porque nesse momento não entraram na rebelião e continuaram pagando tributo à Assíria durante cerca de vinte anos.

II. Judá entra na revolta antiassíria

No ano 716 a.C., Ezequias assumiu definitivamente o trono (2Rs 18,1-20,21). Nos seus primeiros anos de governo, manteve neutralidade em relação às revoltas antiassírias, ou seja, aceitava a sua situação de vassalagem e continuava pagando tributos. Mas, pouco a pouco, os incentivos dos rivais assírios, Egito e Babilônia, juntaram-se aos desejos reformistas do jovem rei, levando-o a se envolver nas revoltas das nações vizinhas.
Ezequias foi se preparando militarmente para, no momento oportuno, enfrentar a grande inimiga. Começou a fortificar Jerusalém (Is 22,10-11) e estocar armas. Assegurou a provisão de água, construindo um aqueduto subterrâneo que conduzia água da fonte de Gion ao interior da sua capital.
O Egito estimulava o movimento antiassírio. A corte de Judá ficou dividida em dois grupos: um grupo chefiado por Sobna e o outro por Eliacim (cf. 2Rs 18,18). O grupo chefiado por Sobna, um governador carreirista, apoiado nas forças egípcias, queria combater a Assíria e assim ficar famoso. O outro grupo, chefiado por Eliacim, nome que significa: "Deus suscitou", apoiava a proposta de Isaías de "não-revolta" e "não-aliança". O nome de Eliacim correspondia à missão que lhe tinha sido confiada. Missão de ser "servo" de Deus e do povo, num momento estratégico de libertação das forças inimigas.
Os discípulos de Isaías contam que, quando Sargon II mandou um general para destruir Azoto, o profeta andou três anos a pé, nu, como um prisioneiro indefeso, para mostrar que o Egito e a Etiópia se tornariam prisioneiros da Assíria (20,1-3).
Isaías tinha razão. Azoto foi tomada e se tornou província assíria. Judá se livrou de tal punição porque Ezequias mais uma vez se submeteu a pagar os pesados tributos exigidos pelo grande império (2Rs 18,14b-16).
Seguiram-se alguns anos de calma na Palestina. Tempos depois, aproveitando o período de mudança de governo no império assírio, as pequenas nações que lhe estavam submetidas deram início a nova onda de revolta, incentivadas pelo Egito e pela Babilônia. Judá liderou a rebelião.

NOVO MOVIMENTO ANTIASSÍRIO - CERCO DE JERUSALÉM (705-701 a.C.)

Após a morte de Sargon II, Senaquerib o sucedeu (704-681 a.C.). Como em 713 a.C., os reinos vassalos da região siro-palestina, entre eles Judá e as cidades filistéias de Ascalon e Ecron, apoiadas pelo Egito e Babilônia, acharam que esse era um momento propício para se rebelarem contra o jugo da Assíria. Tal revolta se processou em etapas.
No primeiro momento houve uma espécie de preparação secreta, ou a formação do partido antiassírio. Judá foi insistentemente convidado a entrar no “jogo”. Vários oráculos mostram a inquietação de Isaías diante de tais preparativos porque não levavam em conta a vontade de Deus, ou seja, a vida do "meu povo" (28,23-29; 29,1-10). Por isso mesmo o profeta previu destruição em vez de liberdade para o povo.
O segundo momento pode ser denominado de preparação aberta. Trata-se de um declarado movimento antiassírio. Ezequias adere ao movimento de revolta. Declara sua independência da Assíria e empreende reformas político-religiosas (2Rs 18,4-8). Envia mensageiros ao Egito, pedindo ajuda e propondo aliança. Isaías condena violentamente essa postura (30,1-5; 31,1-3). Para o profeta, fazer aliança com o Egito é trocar Javé pelo faraó. É voltar à escravidão do Egito. Além de ser uma política absurda, é idolatria! Esta atitude empedernida da elite de Jerusalém, que quer guerrear com a Assíria a todo custo, leva o profeta a considerar-se fracassado. Diante disso, Isaías, como Moisés, deixa o seu testamento para os futuros israelitas (30,8-11).
No terceiro momento temos a reação da Assíria. A ajuda do Egito de nada adiantou. Senaquerib rechaça o Egito, invade Judá, conquista 46 cidades-fortalezas, entre elas Laquis, e exige que Judá se renda. Ridiculariza a confiança de Judá em si mesma, no seu exército, na aliança egípcia (30,6-7). Até aqui, Isaías está de pleno acordo. Mas a prepotência assíria vai mais longe. Ela ataca a última segurança de Judá: "Não deixem Ezequias enganar vocês, dizendo: 'Javé os livrará'. Por acaso, o deus de cada um desses países pôde livrá-los das mãos do rei da Assíria?" (36,18).
Essas palavras arrogantes e o perigo da destruição da fortaleza de Sião nos levam a entender a mudança do profeta. Isaías, que via na Assíria um instrumento de Deus para educar o povo (5,26-29; 10,5-6; 28,2), diante da atitude orgulhosa e prepotente deste império, lança oráculos de condenação (30,27-33).
Não se sabe exatamente que "milagre" aconteceu. Senaquerib aceitou a rendição de Ezequias sem matá-Io nem destruir Jerusalém, a cidade santa. Assim, manteve-se a dinastia davídica. Para decepção do profeta, a elite de Jerusalém, mais uma vez, não conseguiu ler os sinais de Deus através da história. Em vez de conversão, festejou euforicamente a retirada dos exércitos assírios. Isaías, num dos textos em que aparecem mais nitidamente seus sentimentos humanos, diz: "Não olhem para mim, porque choro amargamente; e não me queiram consolar da derrota sofrida pela filha do meu povo" (22,4).

I. Nova revanche contra o império assírio

1. Preparação secreta
Iniciam-se os conchavos das potências Egito e Babilônia e as pequenas nações siro-palestinas, a fim de angariarem adeptos para a revolta.
A visita da embaixada do rei da Babilônia a Ezequias quando este ficou curado de uma séria enfermidade nos deixa entrever os interesses militares desta visita (capítulos 38-39). Em 2Rs 20,12-13 conta-se como Ezequias mostrou aos visitantes todos os seus tesouros e munições para uma eventual guerra.
O Egito, por sua vez, também dá os seus passos na mesma direção...
Na perspectiva apresentada pelo profeta, quando os pactos estiverem prontos, como as uvas para a colheita, Javé virá para cortar. De fato, foi o que aconteceu poucos anos depois. Jerusalém foi cercada e desafiada na sua fé.
Pouco a pouco, Judá, estimulado pela Babilônia e pelo Egito, engrossa o grupo dos aliados na nova onda de rebelião antiassíria.
Dando mais um passo no movimento de insurreição antiassíria, Ezequias proclama a independência de Judá. Suspende os tributos e inicia uma reforma político-religiosa (2Rs 18,1-8), com o nome de volta à aliança com Javé. Retira os deuses assírios do Templo, fortifica as cidades (2Cr 32,5); faz estoque de armas; fecha os reservatórios de água ao redor da cidade para dificultar a atividade do exército assírio (2Rs 20,20; 2Cr 32,2-4); enfim, prepara-se para a guerra. Medidas que indicavam uma "revanche" político-econômica contra a Assíria.
Por trás da reforma político-religiosa havia o interesse econômico de Judá, bem como das potências estrangeiras, Egito e Babilônia. Elas precisavam da Palestina como corredor comercial e a elite judaica, por sua vez, queria se safar do jugo do tributo e aumentar a arrecadação dos tributos através do Templo, e assim continuar explorando o povo.
Como a religião estava a serviço da política, sacerdotes e profetas usavam o discurso religioso para justificar as reformas de Ezequias. Eles descreviam como o Templo estava sendo profanado com os deuses assírios, o que era uma idolatria, e afirmavam que a purificação do Templo simbolizava o restabelecimento do nome de Javé, o único Deus. Essa fé, implantada no coração do povo, era o motor que despertava o nacionalismo e catalisava a adesão popular.
Isaías discorda desse comportamento dos sacerdotes e profetas e os chama de bêbados. É uma alusão aos banquetes rituais, em que sacerdotes e profetas embriagados deixam de cumprir sua função de mediadores do ensinamento do Senhor (28,7-8 e 29,9-10).
O tom imperativo do profeta: Espantem-se. Fiquem cegos! Fiquem bêbados! é uma ironia. Na realidade, a cegueira e o endurecimento são manifestações do que já existe. Isaías acusa aqueles que têm a tarefa de ver a situação do povo e agir com justiça, mas na prática agem em função dos próprios interesses.
Isaías é contra o movimento antiassírio, não porque ele apóie a Assíria, mas porque isso é "dar murro em ponta de faca". O profeta quer a independência de Judá. Rebelar-se contra a Assíria com o apoio do Egito é uma atitude suicida daquele que, para se escapar do leão, se joga nos braços do urso. Isaías não quer nem agressão à Assíria, nem aliança com o Egito.
Para Isaías, a confiança na ajuda egípcia com suas armas especializadas significa desconfiança sobre a fidelidade de Javé, o Santo de Israel. E o abandono do Deus nacional, que tanto fez pelo seu povo. Cavalos, carros com condutores velozes servem para invadir. "Uns confiam em carros, outros em cavalos; quanto a nós, invocamos o nome de Javé nosso Deus" (SI 20,8). Para se autodefender, o povo da Palestina aprendeu a confiar nos seus próprios camponeses. Eles são a base da nação, com sua força de produção e de defesa. O livro do Deuteronômio insiste: "O rei não deverá multiplicar cavalos para si, nem fazer que o povo volte ao Egito, para aumentar sua cavalaria" (Dt 17,16). Agora Judá está confiando nos cavalos, na força militar do Egito.

II. A Assíria reage

1. Cerco de Jerusalém
Quando Senaquerib controlou seu império e conteve o avanço da Babilônia, por volta de 701 a.C., investiu suas forças contra a região siro-palestina. Sufocou as revoltas dos pequenos reinos, venceu os exércitos egípcios e etíopes que estavam ajudando Ascalon e Ecron. Mas a elite de Jerusalém se manteve firme no seu propósito de lutar e resistir.
O segundo livro das Crônicas nos relata que até fecharam os reservatórios de água fora da cidade para forçar o exército assírio a se retirar. Sinal de que confiavam no seu abastecimento interno (2Cr 32,2-4). Isaías, mesmo diante da auto-suficiência da elite, continua gritando, mas não é (29,13-14).
Esse texto é considerado como uma palavra de Isaías no momento da derrota dos aliados e do Egito. Nesse grave momento os sacerdotes e a elite de Jerusalém fizeram um culto nacional para que Javé contivesse a Assíria. Mas na cabeça do pessoal da corte já estava decidido: vamos lutar até o fim. Eles queriam apenas justificar sua decisão. Por isso era um culto hipócrita. Isaías advertiu, mas eles foram para a luta assim mesmo e perderam. A Assíria se apoderou de quarenta e seis cidades estratégicas do reino de Judá (2Rs 18,13), cercou Jerusalém, "deixando o rei Ezequias preso como um pássaro na gaiola", impossibilitado de sair pelo portão da cidade.
Ezequias e os sacerdotes fizeram a reforma religiosa, na perspectiva da aliança com o Egito, e lutaram contra a Assíria como se fosse guerra santa, fazendo assim propaganda dos seus projetos. Os aliados foram derrubados, quarenta e seis cidades-fortalezas foram tomadas. O Egito foi rechaçado. Isaías nomeia: nação, povo, raça, filhos. Todos abandonaram Javé. Retrocederam. Voltaram à escravidão do Egito com suas falsas alianças. a povo estava como um corpo em chagas vivas. O país estava devastado.
Nesse momento, os exércitos assírios consideraram que a guerra contra Judá e sua audaciosa capital Jerusalém estava ganha! Começaram a cantar vitória, ridicularizando os vencidos e sua fé em Javé: "Não deixem Ezequias enganar vocês, dizendo: 'Javé os livrará'. Por acaso, o deus de cada um desses países pôde livrá-los das mãos do rei da Assíria?" (36,18).
Até aqui, Isaías, apesar dos pesares, continuava vendo na Assíria a mão de Deus educando o povo. Mas agora era demais! Desafiaram o Rei dos reis, o Senhor dos senhores - o Santo de Israel-, Javé dos exércitos! A fortaleza de Sião corria perigo de cair nas mãos inimigas, isso seria o fim da dinastia davídica e a destruição do seu povo. Então, Isaías mudou de posição e anunciou o castigo da Assíria, e conseqüentemente a libertação de Jerusalém.
2. Não se desafia o poder de Javé
Isaías anuncia o castigo da Assíria e a libertação de Jerusalém nos mesmos moldes da libertação do povo no Egito. A ação de Javé é descrita de maneira teofânica. Ele vem de longe, com formas humanas e com a força do cosmo (30,27-33).
No capítulo 28,2, a Assíria é descrita "como chuva torrencial que alaga tudo". Agora Javé é a "tempestade" que castiga o império invasor! Outra ironia do profeta: no capítulo 8,7-8, a invasão da Assíria é semelhante às águas que afogavam Judá até o pescoço. Aqui a ação de Javé "é como o rio na enchente, que sobe até o pescoço" submergindo o prepotente império. A "vara e o bastão" trocam de mão. No capítulo 10,5-6, o poder estava nas mãos da Assíria para oprimir e destruir Judá. Agora é Javé que tem o domínio. É a guerra santa. Como no tempo tribal, o próprio Javé combate por seu povo (Js 23,10; Jz 4,14): "A Assíria cairá ao fio de uma espada que não pertence a nenhum homem, será devorada por uma espada que não é de nenhum ser humano..." (31,8). Por isso, enquanto o opressor treme, o povo de Jerusalém celebra com procissões.
A destruição da Assíria implica a salvação de Jerusalém. No capítulo 31,4-9, Isaías anuncia tal salvação. As imagens de Deus que usa para descrever a ação salvífica de Javé são muito interessantes. Como em Oséias 13,7, Deus é comparado a um leão. Usa a força para defender o seu povo. Ao mesmo tempo, Deus é apresentado com a ternura de mãe. Ele é "como ave que abre as asas para proteger seus filhotes" (cf. Ex 19,4).
A seguir o profeta descreve o que acontecerá com as forças assírias: sua elite e seus exércitos especializados "cairão em trabalhos forçados".
No meio de tudo isso, o profeta faz um apelo a Jerusalém: "Filhos de Israel, convertam-se a ele desde o fundo da rebeldia de vocês. Nesse dia, ninguém mais vai querer saber dos ídolos de prata ou de ouro que suas mãos pecaminosas fabricaram". Voltar à aliança e à fidelidade a Javé é a convocação de Isaías.
Com a tomada das cidades-fortalezas, Ezequias se viu totalmente isolado, não lhe restando outra coisa senão se render ao grande império e pagar um considerável tributo. Foi a segunda etapa de vassalagem de Judá à Assíria. Senaquerib aceitou sua rendição e separou Jerusalém do território de Judá. Entretanto, o rei assírio não transformou o território de Judá numa província assíria, mas o entregou às cidades filistéias que não participaram da revanche antiassíria: Asdod e Gaza. A seguir, Senaquerib deu ordens a seus exércitos que cercavam Jerusalém para que voltassem ao seu país (Is 37,36-38; 2Rs 19,35; 2Cr 32,21-22).
Mesmo diante de tanto sofrimento provocado pelo cerco de Jerusalém e pela destruição de tantas cidades, a elite de Jerusalém não se sensibilizou...
3. O exército assírio se retira e o povo faz festa! O profeta chora a insensibilidade da elite
Qual não foi a decepção de Isaías quando viu o povo de Jerusalém festejando a retirada do exército de Senaquerib! Ele denuncia fortemente o comportamento da população da capital. É um povo que não reconhece no ataque da Assíria a mão de Deus e não vê na retirada dos seus exércitos a sua própria salvação. Eles não sabem ler os acontecimentos. Estão sentindo-se vitoriosos e seguros de si. Verdadeiros imitadores do opressor! (22,1-14).
Isaías fala apaixonadamente em nome de Javé: "Não olhem para mim, porque choro amargamente". Aqui aparece o sentimento profundamente humano do profeta. Ele esperava que o recuo do exército assírio fosse um alerta para as lideranças de Jerusalém mudarem o rumo do seu comportamento. Mas, ao contrário, elas fizeram festa e reforçaram suas defesas. O povo teve oportunidade de escolher entre o caminho da vida e o caminho da morte e preferiu o caminho da morte (cf. Dt 30,19-20): "Comamos e bebamos, que amanhã morreremos". O profeta sofreu e teve coragem de expressar a sua dor.
Após a retirada da Assíria, Isaías desapareceu do cenário. Aparentemente a sua missão tinha sido um fracasso, mas, como diz o povo: "Deus escreve certo por linhas tortas". As suas mensagens proféticas foram relidas e registradas pelos grupos presentes no Segundo Isaías e no Terceiro Isaías.

CONCLUSÃO

O livro “Como Ler o Primeiro Isaías”, sem dúvida, traz importantes esclarecimentos históricos, culturais, políticos e religiosos dos tempos em que os capítulos 1 ao 39 do livro de Isaías foram escritos. Esse contexto, resultado de uma evolução que vai desde o surgimento da monarquia em Israel até ao tempo em que o profeta atuou, é o pano de fundo do início, da influência e do desenvolvimento do ministério profético de Isaías.
Com base nessas informações, é possível compreender a mensagem de Isaías, seu foco, sua responsabilidade e o compromisso até o momento em que suas intervenções, contrárias às expectativas do governo e da elite, provocaram sua “demissão do cargo” de conselheiro do rei.
Mas, uma constatação é muito importante: a história comprovou a veracidade da palavra do profeta que, embora rejeitado pelos homens, foi aprovado por Deus.

BIBLIOGRAFIA

Nakanose, Shigeyuki e Pedro, Enilda de Paula. Como Ler o Primeiro Isaías. 4. ed. São Paulo: Paulus, 2005.


Leia mais: http://www.celeiros.com.br/products/primeiro-isaias-leitura-anotada/

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