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terça-feira, 9 de julho de 2013

Evo Morales, a América Latina e a afronta da prepotência



Não satisfeitos em afundar num lodaçal econômico arrasando conquistas sociais de décadas, alguns países europeus acreditam que ainda podem exibir as galas da impertinência imperial. Fazem um jogo de espelhos, em que a realidade é refletida pelo avesso: se submetem, vergonhosamente, aos desígnios do império norte-americano, enquanto agem com a América Latina como o império que alguma vez souberam ser. Por Eric Nepomuceno.



Um amigo bem humorado costuma dizer que há limite para tudo nessa vida, até mesmo para retirar dinheiro em caixa eletrônico. Pode ser. Mas, pelo que o mundo acaba de ver, alguns países da Europa decretaram que não há limite para nada no horizonte da sua prepotência. 

Não satisfeitos em afundar num lodaçal econômico arrasando conquistas sociais de décadas e décadas, acreditam que ainda podem exibir as galas da impertinência imperial. Fazem um jogo de espelhos, em que a realidade é refletida pelo avesso: se submetem, vergonhosamente, aos desígnios do império norte-americano, enquanto agem com a América Latina como o império que alguma vez souberam ser. 

O que fizeram há poucos dias com o presidente boliviano Evo Morales é uma afronta inadmissível. Entre a falta de hombridade dos governos da França, de Portugal e da Itália, e a empáfia insuportável do governo espanhol, escancarou-se a face abjeta da submissão. Os mesmos países que cantam de galo protestando contra a espionagem desvairada do governo de Barack Obama, que dizem ser inadmissível, se curvam de maneira vexaminosa aos ventos soprados de Washington. 

É verdade que Evo Morales tem o perfil traçado sob medida para que os europeus façam o que fizeram, especialmente os espanhóis: é latino-americano, é de esquerda, é indígena e, para culminar, preside um país chamado Bolívia. Na cabeça destrambelhada dos governantes europeus, a soma desses fatores tornava o presidente boliviano em algo pronto para ser desrespeitado. 

O relato de Evo Morales é assombroso. Minutos antes de entrar no espaço aéreo francês – o plano de voo do avião presidencial previa a rota que, no espaço aéreo europeu, ia da Rússia até Portugal – o comandante do avião foi avisado de que a permissão havia sido cancelada. Ato contínuo, foi a vez da Itália fazer a mesma coisa. Não havia combustível suficiente para voltar a Moscou. Foi preciso fazer um pouso de emergência em Viena, capital da Áustria. 

Mais humilhações esperavam pelo presidente dos bolivianos: Alberto Carnero, o fulano que exerce o cargo de embaixador da Espanha, resolveu entrar no avião. Queria confirmar que Evo Morales não estava levando Edward Snowden para a Bolívia. Sem fazer pessoalmente essa verificação, o avião presidencial boliviano já não poderia fazer a escala técnica de reabastecimento nas Ilhas Canárias. Foi impedido. Sugeriu que o presidente boliviano falasse com o vice-chanceler espanhol. Vendo que a empáfia superava qualquer absurdo, Evo Morales respondeu que se fosse para falar com alguém, que o primeiro-ministro Mariano Rajoy ligasse para ele. 

O fulano teve que se contentar em aceitar a palavra de Morales. Pensando bem, deve ter sido difícil para ele: afinal, a palavra do seu chefe, Mariano Rajoy, não vale nada. Mente com a mesma facilidade com que troca de camisa.

Um avião presidencial é como uma embaixada. É território soberano. O que França, Itália e Portugal e principalmente a Espanha fizeram viola um compêndio inteiro de tratados e convenções internacionais. E rompe marcas olímpicas de prepotência e indecência.

Tudo isso, para agradar Barack Obama e seu governo. Tudo isso para ter certeza que Edward Snowden não estaria indo para a Bolívia. Não estava. E se estivesse? Como iriam arrancá-lo do avião presidencial, que, vale reiterar, é, por convenções internacionais, território soberano do país?

Bem, e o quê fazer agora com Snowden, o técnico terceirizado, especialista em computação, que denunciou ao mundo um escândalo de dimensões enormes que desgastou ainda mais o desacreditado governo de Obama? 

Ele está, desde o domingo 23 de junho, em Moscou. Dizem que na área reservada aos passageiros em trânsito do aeroporto internacional da capital russa. Dizem. O mais provável é que esteja recolhido em alguma casa de protocolo reservada a visitantes ilustres. 

Uma coisa parece cada vez mais certa: o presidente Vladimir Putin (aliás, veterano dos serviços secretos da antiga União Soviética) não vai extraditar Snowden. Não quer, é verdade, entrar em conflito com Washington. Mas tampouco pode entregar quem revelou barbaridades do mesmo governo, o de Barack Obama, que o persegue com sanha especial.

Depois de ter pedido asilo a 21 países – o Brasil inclusive – e ter recebido como resposta o silêncio, a recusa ou condições para ele inaceitáveis, Snowden recebeu garantias de asilo de pelo menos três países, a Venezuela, a Nicarágua e, depois do que fizeram com o presidente Morales, a própria Bolívia. 

Agora, o problema é outro: como chegar a esses países? Não há voos diretos de Moscou para nenhum deles. A única possibilidade é ir via Havana, para onde sim há voos diretos. 

Supondo que Cuba faça o que dela se espera, e autorize que Snowden viaje via Havana, é quase certo que apareça outro problema: que os mesmos governos servis da Europa que impediram que o avião presidencial boliviano passasse pelo seu espaço aéreo agora impeçam a passagem de um voo comercial Moscou-Havana. 

A hipocrisia pode se repetir: os mesmos governos que se queixam de terem sido espionados por Obama podem agora impedir que o homem que revelou essa invasão saia de Moscou. Essa incongruência, que levou os governos de Portugal, da França, da Itália e da Espanha a violar normas e acordos internacionais, pode facilmente acontecer de novo. 

O que Snowden fez foi optar, em termos éticos e morais, entre defender os direitos institucionais de cidadãos do mundo inteiro e os interesses de quem pagava seu salário. Escolheu a decência, correndo seus riscos. Os governos europeus preferiram a indecência da submissão. 

E enquanto isso, conforme vai gotejando informações, Snowden assombra o mundo. Assombra um mundo impotente, que vê como o império seriado em Washington bisbilhota a vida de todos. E assombra ao deixar evidente a servil submissão de uma Europa desmilinguida, mas ainda e sempre pernóstica, impertinente, prepotente.

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