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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Governo ou desgoverno?

Agência Brasil Fotografias / Flickr


Quem vê de fora pode achar que o governo Dilma fez uma aposta arriscada na ressurreição da vida depois da eutanásia da alma.
 
Os adversários agem como se assim fosse e não demonstram propensão à indulgência diante da travessia penosa e incerta.
 
O agendamento conservador pauta a sociedade brasileira de alto a baixo nesse momento.
 
Eduardo Cunha, a lebre omnívora, fareja negócios, redesenha o cardápio institucional, oferece oportunidades. Antes cevado, agora regurgita. Abriu uma avenida monumental para os que perderam nas urnas mas cobiçam uma instância de decisão para chamar de sua.
 
Na frente principal, onde já se trava a guerra aberta do impeachment, o juiz Moro e a falange midiática encurralaram o PT e a Petrobras numa estreita garganta; ali secionam ou interligam veias ao sabor da conveniência. Dia sim, o outro também, anunciam transfusões de sangue contaminado.
 
Dá-se a isso o nome de faxina na vida nacional.
 
Essa é a hora do Brasil.
 
O país não amanhece nem dorme sem consultar os ponteiros manejados pelo petit enfant aleitado nas cercanias do consagrado governador tucano Beto Richa (leia nesta pág. ‘A pauta da rebelião curitibana’)
 
O bastão passado a Joaquim Levy na economia gerou igual dependência adversa ao deixar o Planalto e o PT reféns do êxito ou do fracasso ortodoxo.
 
Seja qual for o desfecho, o preço da delegação será o mesmo: alto.
 
Ainda que produza a desinflação perseguida, entregue a meta fiscal, reduza o poder de compra das famílias assalariadas e reverta o pleno emprego (esse é o alvo de Levy) , não há garantia de que o Brasil ingressará em um novo ciclo de investimento produtivo.
 
Falta combinar com as recidivas de uma crise internacional que escapam ao controle de cada nação.
 
A contração da demanda agregada das famílias, governos e empresas em boa parte das economias ricas, e um processo de deflação em marcha --que adia o consumo e adiciona incertezas ao investimento —   impulsionam agora a guerra cambial de todos contra todos.
 
A epidemia de taxas de juros negativas urbi et orbi – para evitar a valorização das moedas locais — é o sinal de que ainda há abismo a escavar.  
 
No desencontro entre a capacidade da oferta e a anemia da demanda, paridades cambiais se esfarelam. Disputa-se quem vai sobrar na dança das cadeiras do comércio internacional.
 
Mesmo reduzindo o poder de compra do trabalho em dólar, o Brasil terá dificuldades para abrir um novo canal de expansão via exportações.
 
O ambiente externo é o oposto do vivido no primeiro governo Lula, favorecido então pelo apetite chinês, rebatido em um ciclo de alta nos preços das commodities exportadas pelo país.
 
Uma longa sístole de seis anos sem prazo para encerrar é o que mostra a radiografia do metabolismo econômico mundial.
 
O governo Dilma concluiu que a longa convalescença da crise esgotou a capacidade de resistência da diástole brasileira, mantida às custas de incentivos ao emprego e ao consumo, desde 2008.
 
Sérias e respeitabilíssimas cabeças pensantes do campo progressista questionam: a melhor maneira de contornar o pântano é embarcar no trem com destino ao abismo? (Leia oespecial de Carta Maior sobre esse tema; nesta pág)
 
Dito em outras palavras, se o investimento privado está arisco, por que se animaria sob uma dinâmica que encarece o financiamento, comprime o crédito, inibe o consumo e contrai o investimento público?
 
Quanto de arrocho salarial e desemprego seria preciso para despertá-lo?
 
A aposta do governo depende de uma cirúrgica e fortuita intersecção de varáveis virtuosas: sua expectativa é a de que, feito o ajuste, e dê tudo certo, entre 2015 e 2016 a recuperação internacional passe encilhada como um corisco pela linha do Equador.
 
O Brasil então galoparia uma nova arrancada baseada nas exportações – agora não só de commodities, mas de uma manufatura dotada de renovada competitividade, por conta da desvalorização cambial em marcha.
 
Dar a isso o nome de estelionato eleitoral não é tão simples quanto gostaria o colunismo isento.
 
Não se mede a coerência de um ciclo no varejo das horas.
 
Tampouco existe uma ‘ciência’ econômica, ou ferramental macroeconômico, que se possa carimbar preliminarmente como sendo de esquerda, de centro ou de direita.
 
Nunca é demais repetir: quem define a coerência macroeconômica de uma época é a correlação de forças do período  – e hoje essa matemática foi globalizada pela livre mobilidade dos capitais, que potencializou seu desafio.
 
Fugas walquirianas das manadas especulativas, explosão cambial, alta da inflação, seca das linhas internacionais às empresas, corrosão das reservas, demissões etc
 
Esse tem sido o saldo dos enfrentamentos solitários, que compreensivelmente vem cedendo lugar à busca de articulações internacionais para redesenhar a fronteira da soberania em nosso tempo.
 
Brics, Mercosul, Unasul incluem-se nesse assoalho em instalação.
 
Deslocar os capitais do circuito da riqueza financeira para a da produção é, essencialmente, uma construção política.
 
Portanto, não basta anunciar metas e medidas para mover e direcionar a engrenagem econômica do desenvolvimento.
 
Para ter chance de vencer nesse tabuleiro os requisitos são mais complexos.
 
O grau de articulação geopolítica e de mobilização social determina o que negociar, como negociar e até onde negociar.
 
Essa é a alma da luta pelo desenvolvimento no século XXI.
 
É discutível que a alma ressuscite se a negociação com o mercado incluir a renúncia ao comando político do processo e a desmobilização de quem tem interesse efetivo no passo seguinte da história.
 
O economista Ianis Varoufakis, ministro das finanças da Grécia, mergulhado de corpo e alma num braço de ferro com a troica, proferiu recentemente uma frase lapidar:
 
‘Só tem algo a negociar quem está preparado para romper’.
 
Vale para Atenas. Mas também para Brasília.
 
A ilusão de que não é bem assim, explica, por exemplo, a renúncia histórica do PT, paga agora em libras de carne do próprio pescoço,  em  prover a democracia brasileira de um sistema de comunicação que franqueie à sociedade a discussão e o escrutínio do seu destino.
 
É assim que o ciclo político determina o ciclo econômico, num caminho invariavelmente marcado pelo conflito que opõe a democracia social à lógica  capitalista.
 
Imaginar o contrário, que é possível pegar carona em um centurião do dinheiro grosso e, a partir daí,  ‘sanar’  as inconsistências e esgotamentos de um ciclo de crescimento em direção a outro, é quase como acreditar na mão invisível dos mercados.
 
Essa tentação pode devorar o governo Dilma.
 
Não se trata de demonizar um freio de arrumação necessário e urgente.  
 
Conter a escalada de gastos com importações de bens manufaturados, por exemplo, é crucial para impedir a sangria de empregos, renda e receita em direção aos clusters asiáticos.
 
Isso não se faz sem custos.
 
Enquadrá-los em uma negociação de prazos, compensações, salvaguardas e ganhos futuros é uma responsabilidade da agenda progressista.
 
Erguer pontes para pavimentar as condições de uma retomada do investimento privado, idem.
 
Supor fazê-lo ao largo de uma repactuação política que ordene os rumos dessa transição é mais que arriscado: pode ser o eclipse definitivo da alma, sem o benefício da ressurreição do corpo.
 
Esse risco de uma cavalgada em marcha ré projeta no governo recém reeleito a auréola de um poder crepuscular.
 
Faz mais que isso.
 
Joga o PT nas cordas de onde não consegue se erguer; quando o faz, não sabe para onde ir.
 
Torna o apelo às ruas um adereço ornamental; a falta de eco mais revela do que afronta a desorientação generalizada.
 
Dá à agenda progressista um rosto disforme no qual ninguém se enxerga, nem o próprio ministério  -- não há poder de iniciativa política sem identidade coesa.
 
Hoje o governo acorda para se informar sobre o revés do dia, não para fomentar a pauta da nação.
 
O conjunto elegeu Eduardo Cunha à presidência do Congresso e derrubou a aprovação à Presidenta de forma fulminante, depois de 54 milhões de votos e menos de 50 dias de governo.
 
Imaginar que a partir de agora poderá ser diferente, mantido tudo o mais constante, é assinar um contrato de novas e cada vez mais sérias derrotas.
 
A passividade desconcertante do Estado diante do cerco à Petrobras é um sinal de que esse tipo da doença, se não for atacado a tempo leva à catatonia e à inanição.
 
A orfandade a que estão sendo abandonados os trabalhadores nos canteiros de obras do pré-sal –esmagados entre o desemprego, a incerteza e atrasos salariais —  é um pequeno manual de como se constrói um ruptura entre um governo progressista e sua base histórica.
 
O risco agora é essa prostração se transformar em epidemia, desossando, em retribuição, os movimentos sociais.
 
Exagero?
 
Quem defenderia o governo hoje se o conservadorismo atravessar o sinal vermelho e vier para cima, a contrapelo do estado de direito?
 
As respostas devem ser enviadas ao Planalto, à Secom, ao PT, ao MTST, ao PSOL, ao MST , à CUT e demais protagonistas que ainda hesitam em sentar e conversar a sério sobre uma agenda comum para defender e ampliar os avanços e conquistas dos últimos anos.
 
Que fique claro: não se trata de convocar a retórica para calafetar buracos estratégicos.
 
Mas de cercar as circunstâncias com uma frente progressista capaz de liderar a repactuação do país com o crescimento e deste com um novo estirão de democracia social.
 
As recidivas da crise mundial desmentem que a resposta à Lava Jato seja a entrega do pré-sal e do país à proficiência dos livres mercados.
 
Nas mãos do livres mercados, na verdade, delega-se a economia e a sociedade ao planejamento dos cartéis e oligopólios, os mesmos que sugaram a Petrobras e planejaram o metrô de São Paulo no lugar dos governantes tucanos.
 
Sem afrontar os mitos conservadores, porém, fica difícil não sucumbir aos seus complementos.
 
O mais grave deles – consagrado no silêncio oficial —  é permitir que se instaure no imaginário brasileiro aquilo que o jogral conservador martela diuturnamente como verdade: a saúde dos mercados e a deriva da sociedade antes de serem contraditórios, constituem um requisito da estabilidade econômica em nosso tempo.
 
E para isso não há alternativa. Exceto o caos
 
Questionado em 1983, qual seria a diferença entre o seu governo e as mesmas medidas neoliberais tomadas por um governante da direita, consta que François Miterrand, líder socialista que dirigiu a França por 15 anos, teria respondido:
 
‘A diferença é que fazemos isso com dor no coração.’
 
O drama vivido pelo governo Dilma não é novo na história dos governos progressistas desafiados a administra o capitalismo ainda sem força para transformá-lo.
 
Mas ele prestaria inestimável serviço à democracia, ao país, ao desenvolvimento -- e  a si mesmo -- se compartilhasse esses limites com a sociedade. E, sobretudo, se a convocasse para a erguer as linhas de passagem capaz de superá-los.
 
Não é pouco.
 
Na verdade, pode ser muito.
 
Pode ser a diferença entre um governo ou o desgoverno.


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