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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Relatório retrata tortura da CIA como política de Estado nos EUA


 Relatório Feinstein confirma em 480 páginas tortura, que incluiu espancamentos, privação de sono e waterboarding. Obama continua acobertando mandantes e torturadores
Uma década depois das nauseantes fotos de Abu Graib, um relatório do Senado dos EUA sobre a tortura da CIA entre 2002 e 2008, o relatório Feinstein, ou mais exatamente, seu resumo de 480 páginas, retoma a exposição do sadismo, covardia e depravação que se tornaram parte inseparável da intervenção do império em sua decadência. Assim, entre as atrocidades cometidas contra os 119 sequestrados de seus países e levados para prisões secretas da CIA no mundo inteiro e, depois, os que ainda estavam vivos, desovados em Guantánamo, são citadas espancamentos repetidos; privação de sono por até 180 horas, geralmente em pé e em posições forçadas e dolorosas; afogamento (waterboarding) repetido 183 vezes, até provocar vômitos e convulsões; “hidratação retal” e “exames anais”, confinamento por dias em um caixão, ameaça de estupro com cabo de vassoura, simulação de execução, roleta russa, nudez forçada, exposição a frio extremo e outros tipos de barbárie.
A íntegra do relatório – 6.300 páginas – não tem data para sair da obscuridade, se é que algum dia o será; em boa parte a publicação do resumo se deve à obstinação da senadora democrata Dianne Feinstein. 35.000 notas de pé de página do resumo detalham a sordidez. Como o então diretor de contra-insurgência Michael Hayden, dizendo que depois que os torturadores “convenciam” o preso de que “Alá dera luz verde para ele falar”, as “informações” saíam em profusão. Segundo o resumo, a “reidratação retal era um meio de controle de comportamento”.
No calabouço identificado como instalação “Cobalt” – no Afeganistão -, identificado em outras descrições como “Salt Pit”, os presos eram mantidos na completa escuridão, com barulho ensurdecedor, nus, por dias seguidos e, conforme um torturador da CIA, “literalmente pareciam como um cachorro foi enfiado no canil”. “Quando as portas das celas eram abertas, eles se encolhiam nos cantos”.
Antes de o resumo ser liberado, a CIA durante mais de um ano verificou com lupa cada documento e censurou tudo – o resumo está todo coberto com tinta negra nos nomes do torturadores, locais e países - , ainda assim, a Casa Branca reteve 9.400 páginas alegando “privilégio executivo”. Após todo esse encobrimento garantido por Obama, o secretário de Estado John Kerry ainda tentou no último minuto impedir a divulgação, alegando que iria “colocar em risco” os operativos norte-americanos no mundo inteiro.
Em outros episódios, os torturadores ameaçaram fazer mal aos filhos de um preso e violentar sua mãe; noutro caso, ameaçaram cortar a garganta da mãe do preso. Pelo menos um preso é identificado como tendo sido pego simplesmente para pressionar um parente preso. Seqüestrados que estavam com ossos quebrados – o pé, em um caso, noutro, a perna –foram forçados a ficar em pé por dias. Presos eram encapuzados e espancados de um lado para o outro de um corredor. Apesar do resumo falar em “ameaças de violações sexuais”, surge uma declaração sobre torturadores “que reportadamente haviam admitido assaltos sexuais”. Os presos sob privação extrema de sono chegavam a ter alucinações.
Presos eram pendurados em barras por dias; um preso foi “esquecido” por 17 dias algemado a uma barra. O peso Abu Hudhaifa foi submetido a 66 horas de privação de sono e banhos de água gelada “antes de ser solto porque a CIA descobriu que possivelmente não era a pessoa que se acreditara que fosse”. Gul Rahman não teve a mesma sorte: teve as roupas arrancadas e lhe enfiaram um capuz na cabeça. Depois de repetidamente espancado, foi acorrentado ao chão do calabouço, sendo encontrado depois morto por hipotermia. De acordo com a nota de pé de página 32, entrara de gaiato no navio: “outro caso de identidade errada”. Quatro meses depois, o oficial que deu a ordem que levou Rahman à morte foi recomendado para uma premiação de US$ 2.500 “por seu trabalho consistentemente superior”. As atrocidades e o desespero levaram muitos prisioneiros, segundo o resumo, a tentar o suicídio e auto-mutilação, como no caso de Majihd Khan, que tentou cortar os pulsos duas vezes e, depois, tentou cortar uma veia do pé.
O resumo não esclarece o que levou a CIA, com todo o seu know-how em matéria de tortura, tão extensamente desenvolvido em Guerras como o Vietnã e nos golpes de estado na América Latina em que deu aula da especialidade, e tendo podido apreender o melhor que a Gestapo tinha para ensinar, a contratar dois psicólogos com passagem pela Força Aérea, mas que não tinham qualquer experiência em interrogatório ou sobre a Al Qaeda, para o “novo método” de desestruturar gente. Talvez se pensasse que a fé islâmica significava um obstáculo de novo tipo. Mas a CIA asseverou que os dois psicopatas – James Elmer Mitchell e Bruce Jessen, codinomes ‘Svwigert’ e ‘Dunbar’ - tinham “uma expertise única”, o que os fez merecedor de um contrato de US$ 81 milhões, com a Agência terceirizando “virtualmente todos os aspectos do programa”. Até 85% dos operativos da prisão e tortura, incluindo “interrogadores”, “psicólogos operacionais” e pessoal de segurança, eram mercenários.
Os dois prisioneiros que são considerados emblemáticos dessa fase da tortura da CIA são Abu Zubaydah e Khalid Sheikh Mohammed, o KSM, supostamente autores intelectuais do ataque às torres gêmeas. Zubaydah foi a cobaia de todo o experimento. Foi colocado em “completo isolamento por 47 dias” e depois torturado quase 24 horas por dia, apesar de ferido a bala. Sofreu waterboarding e, entre outros tormentos, ficou 266 horas em confinamento num caixão. No waterboarding, teve espasmos, vômito e convulsões. Já KSM foi o recordista absoluto de afogamento, com 183 vezes.
APENAS UM RESUMO
E o resumo é apenas uma parte da tortura e das atrocidades. Como lembrou o jornalista Glenn Greenwald, em 2009 sabia-se que em torno de 100 presos haviam sido mortos pelo Pentágono e pela CIA. Desde que tomou posse, Obama protegeu os torturadores da CIA e os mandantes do governo W. Bush, que oficializaram e institucionalizaram a tortura. Da CIA, o único preso até hoje é o ex-analista John Kiriakou, por ter denunciado o waterboarding, condenado a 30 meses. Em 2008, o general Antonio Taguba, que denunciou o escândalo de Abu Graib, afirmou que “não há mais qualquer dúvida se o atual governo cometeu crimes de guerra. A única questão que permanece para ser respondida é se aqueles que ordenaram o uso da tortura serão levados aos tribunais”.
Nos últimos anos, a CIA, o stablishment e a mídia fizeram enorme esforço em exaltar o “sucesso” da tortura, o que o relatório Feinstein demonstra ser uma completa falsidade. Mas como Edward Snowden denuncia, nem que houvesse tal “eficiência”, ela “não tem lugar numa debate sobre o certo e o errado. Os EUA estão em profunda crise moral”.

ANTONIO PIMENTA
http://www.horadopovo.com.br/

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