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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Custos crescentes da desigualdade




Por Laura Tyson
Há muitas décadas a desigualdade de renda nos Estados Unidos vem aumentando de forma significativa - e as tendências não mostram sinais de reversão. A ocasião anterior em que o nível de desigualdade esteve tão alto foi logo antes da Grande Depressão. Um patamar tão alto de iniquidade como esse não é apenas incompatível com as normas de justiça social e de igualdade de oportunidades - representa uma séria ameaça à economia e à democracia dos EUA.













































Por trás do aumento da desigualdade no país está a estagnação de renda da maioria dos americanos. Enquanto uma parcela cada vez maior dos ganhos do crescimento econômico flui para uma diminuta fração de famílias de alta renda nos EUA, a renda da família média dos 90% na base da pirâmide está estagnada desde 1980. De acordo com recente relatório do Conselho de Assessores Econômicos da presidência dos EUA, se a parcela da renda dos 90% da base em 2013 fosse a mesma que em 1973, a renda média anual familiar (ajustada pelo tamanho da família) seria 18%, cerca de US$ 9 mil, maior do que é agora.
A renda disponível (depois de impostos e transferências) das famílias mais pobres nos EUA está atrás da verificada em outros países desenvolvidos há décadas. Agora, a classe média dos EUA também vem ficando para trás.
O sistema político dos Estados Unidos está cada vez mais dominado pelo dinheiro. Esse é um claro sinal de que a desigualdade de renda nos EUA chegou a patamares nos quais ameaça não apenas a expansão econômica, mas também a saúde de sua democracia
Neste ano, os EUA perderam a distinção de ter a classe média "mais afluente" para o Canadá. Quando se adiciona às estimativas da renda disponível familiar os generosos benefícios públicos desses países na educação, assistência médica e aposentadoria, a posição relativa da classe média dos EUA cai ainda mais.
O principal culpado por trás da sorte cada vez pior da classe média dos EUA é o baixo crescimento dos salários. Depois de chegar ao pico no início dos anos 70, a mediana da renda real (ajustada pela inflação) dos trabalhadores em tempo integral na faixa entre 25 e 64 anos ficou estagnada, em parte em consequência da desaceleração do crescimento da produtividade e em parte pela diferença gritante entre o crescimento dos salários e o da produtividade.
Além disso, a globalização e as mudanças tecnológicas reduziram a proporção dos empregos de capacitação média em relação ao total, enquanto a parcela dos empregos de baixa capacitação aumentou.
Para a maioria dos americanos, os salários são a fonte primária de renda disponível, renda esta que por sua vez sustenta o consumo pessoal - de longe, o maior componente da demanda agregada. Há várias décadas, com a desaceleração da renda disponível, as famílias de renda baixa e média vêm recorrendo a dívidas para sustentar o consumo. A poupança pessoal desabou e as dívidas com hipotecas e créditos decolaram, uma vez que as famílias tentaram acompanhar o padrão de consumo dos mais ricos.
O ajuste de contas chegou com a crise financeira de 2007 e 2008. Deste então, o crescimento do consumo agregado mostra-se fraco, com as famílias de baixa e média renda forçadas a reduzir a captação e pagar dívidas, muitas vezes com dolorosos calotes em suas residências - seu ativo primário (e, frequentemente, o único).
Enquanto essas famílias apertavam o cinto, o crescimento da economia tornou-se mais dependentes daqueles no topo da distribuição de renda. Desde o fim da recessão, em 2009, o consumo real dos 5% do topo da pirâmide aumentou 17%, em comparação com o 1% nos demais 95%.
O padrão da recuperação reforçou as tendências de longo prazo. Em 2012, os 5% do topo representaram 38% do consumo pessoal, em comparação aos 27% verificados em 1995. A parcela do consumo dos 80% da base da pirâmide caiu de 47% para 39%.
Olhando para o futuro, a crescente desigualdade e a estagnação dos salários da maioria dos americanos implicam uma demanda agregada mais fraca e um menor crescimento da economia. Ainda mais importante, a desigualdade de renda restringe a expansão econômica do lado da oferta, com efeitos adversos na oportunidade educacional e no desenvolvimento de capital humano.
As crianças nascidas em famílias de baixa e alta renda nascem com capacidade similar. As oportunidades educacionais, entretanto, são muito diferentes, com os filhos de famílias de baixa renda tendo menos chances de acesso a ensino na primeira infância; mais chances de frequentar escolas com menos recursos e qualidade inferior no ensino fundamental e médio; e menos chances de cursar ou completar a universidade.
A diferença resultante no nível de instrução entre crianças nascidas em famílias de baixa e alta renda emerge nos primeiros anos e vai crescendo com o tempo. Por algumas estimativas, a diferença hoje é duas vezes maior do que era há 20 anos. Portanto, os EUA viram-se pegos em um círculo vicioso: a crescente desigualdade de renda traz maior desigualdade de oportunidades educacionais, que por sua vez gera mais desigualdade no nível de instrução. Isso, por sua vez, se traduz em desperdício de talento humano, força de trabalho menos instruída, crescimento econômico mais baixo e desigualdade de renda ainda maior.
Embora os custos econômicos da desigualdade de renda sejam substanciais, os custos políticos podem acabar se revelando ainda mais prejudiciais e perigosos. Os mais ricos têm tanto os incentivos quanto a capacidade para promover políticas que mantenham ou melhorem sua posição.
Tendo em vista a remoção das restrições ao financiamento de campanhas pela Suprema Corte dos EUA, tornou-se mais fácil do que nunca para o poder econômico concentrado exercer um poder político concentrado. Embora doações de campanha não garantam vitórias, elas dão à elite econômica maior acesso a parlamentares, reguladores e outras autoridades, permitindo-lhes modelar o debate político a favor de seus interesses.
Como resultado, o sistema político dos EUA é cada vez mais dominado pelo dinheiro. Esse é um claro sinal de que a desigualdade de renda nos EUA chegou a patamares nos quais ameaça não apenas a expansão econômica, mas também a saúde de sua democracia. (Tradução de Sabino Ahumada).
Laura Tyson, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA, no governo de Bill Clinton, é professora de Gestão Global na Haas School of Business, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Copyright: Project Syndicate, 2014.


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