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domingo, 4 de outubro de 2015

EUA e a militarização de América Latina


Por Eric Draitser, na revista Diálogos do Sul:









































Durante mais de dois séculos, Estados Unidos tem olhado para América Latina como seu “pátio traseiro” (seu quintal), uma esfera de influência geopolítica em que atua como potência hegemônica indiscutível.

A história do hemisfério ocidental, em termos gerais, reflete esta realidade de como os EUA têm influído, dominado e controlado o desenvolvimento político e econômico da maioria dos países da América Central e do Sul e também do Caribe.

Não obstante, os últimos anos tem sido testemunha de uma crescente indecência e assertividade de muitas nações da região, devido em maior medida a chegada de Hugo Chávez na Venezuela. De fato, com Venezuela como exemplo e Chávez como o iniciador do processo de integração regional e segurança coletiva, América Latina tem crescido cada vez mais independente de seu vizinho imperial do norte.

E é precisamente essa independência política, econômica e cultural que tem motivado os EUA a procurar a forma de se contrapor da maneira mais eficaz possível: militarmente. O uso de pretextos que vão da “Guerra contra as Drogas” à assistência humanitária, e a “Guerra contra o Terrorismo”, os EUA buscam recuperar seu ponto de apoio militar na região e deste modo manter e ampliar sua hegemonia.

A invasão silenciosa

O deslocamento de forças militares estadunidenses por todo Centro e Sul da América traz à memória os dias obscuros do imperialismo estadunidense na região, quando Washington instalava regimes clientelistas e ditaduras fascistas com o propósito de controlar o desenvolvimento político e econômico das nações que de outro modo teriam seguido o caminho do socialismo e da independência. E é a lembrança daqueles anos o que evoca de imediato quando se examina criticamente o que EUA está fazendo militarmente.

Na América Central, as forças militares penetraram em países chave com o pretexto das operações de luta contra o narcotráfico. Em Honduras, por exemplo, EUA desempenharam um papel chave no apoio, assessoramento e direção das forças armados do governo de direito que tomou o controle do país depois do golpe de Estado de 2009, apoiado pela então secretaria de Estado Hillary Clinton e o governo de Obama. Como o congresso norte-americano sobre América Latina (Nacla, da Universidade da Califórnia) informou.

O constante aumento da assistência dos EUA a Honduras, suas forças armadas é um indicador do apoio tácito de Estados Unidos. Porém o papel de Estados Unidos na militarização das forças nacionais de polícia tem sido direto também. A DEA o a Equipe Assessora de Suporte no Estrangeiro (FAST)… chegaram a Honduras para treinar a uma unidade e ajudar no plano anti-drogas da polícia local e executar operações de apreensão de drogas…. tais operações foram quase indistinguíveis das missões militares… Segundo o New York Times, cinco “esquadrões tipo comando” de equipes da FAST se deslocaram por toda América Central para capacitar e apoiar as unidades antinarcóticos locais …. Em julho de 2013, o governo hondurenho criou uma nova unidade policial de “elite”, chamado Tropa de Inteligência e Grupo Especial de Segurança ou (Tigres). Esta unidade que os grupos de direitos humanos afirmam ser de natureza militar, foi mobilizada em conjunto com a nova força da polícia militar e recebeu treinamento em táticas de combate militares dos EUA e de unidades das forças especiais colombianas.

O deslocamento desse tipo de combinação de militares, paramilitares e polícia militarizada comprova a estratégia de Estados Unidos para a remilitarização da região. Em lugar da ocupação militar, simplesmente manifesta, Washington “provê assistência” na forma de ajuda militar. Isto fica evidente também pelo recente anuncio de um contingente de marines estadunidenses desembarcados em Honduras, aparentemente para ajudar durante a temporada de furacões.

Esses deslocamentos mantêm a iniciativa de Estados Unidos de penetrar ainda mais este país militarmente com pequenos contingentes de tropas e forças especiais. Em 2013, informou-se que na Colômbia, o ex comandante do Comando de Operações Especiais dos EUA, Willian Mc Raven, “tomou a decisão de deslocar Forças de Operações Especiais a diferentes países sem consultar os embaixadores em tais países ou inculpe o Comando Sur (Southcom)… Mc RAven inclusive tratou de conseguir um acordo com Colômbia para estabelecer um centro de operações especial de coordenação regional, sem consultar o Southcom ou a embaixada. “De fato, no deslocamento de tropa das forças especiais, Mc Raven moveu mais de 65 mil, espalhados pela América Latina.

Colômbia tem sido um elemento central na estratégia militar de Estados Unidos. Tal vez o programa regional mais conhecido de EUA seja o Plano Colômbia, colocado em marcha pelo governo de Clinton e ampliado sob George W. Bush. Como o Foreign Affairs documentou em 2012, “A administração Clinton mudou sua ênfase de um programa antidrogas integra… por uma política que se centrou na prestação de assistência militar e helicópteros”.

Sem lugar à dúvidas, o Plano Colômbia se tratou sempre da militarização e a proteção de interesses econômicos. De fato, o total das forças armadas, a polícia e a ajuda econômica a Colombia para o período 2010-2015, EUA deram quase três bilhões de dólares em forma de “Ajuda” para lutar contra a chamada “guerra contra as drogas”.

Já com Obama, o exército estadunidense expandiu os programas das administrações Clinton-Bush, especialmente a Iniciativa Mérida (lançada em 2008 por Bush) e a Iniciativa de Segurança Regional Centro-americana (Carsi) criada por Obama em, 2011. Segundo o Instituto Igarapé, somente Carsi e Mérida receberam mais de 2.5 bilhões de dólares (2008-2013). É um segredo à vozes que o financiamento massivo foi canalizado principalmente através de programas militares e paramilitares. Ainda que os EUA promovam esses programas como exitosos, sua expansão coincide com um aumento da militarização em todos os países em corre dinheiro propiciado pelos fundos estadunidenses.

Em El Salvador, o governo de Funes consolidou o controle militar com a aplicação da lei de acordo com os interesses de seus patrocinadores estadunidenses. Tais mudanças ocorreram simultaneamente à aplicação do Carsi, e devem ser vista como uma consequência da militarização estadunidense. Em Guatemala, o governo de Otto Pérez Molina, um ex líder militar com um histórico de atrocidades e genocídio, assumindo a presidência, militarizou ainda mais o país.

Do mesmo modo Honduras e converteu num ponto de apoio principal para o exército de Estados Unidos na América Central. A Coordenadora da Frente de Resistência Popular Nacional (FNRP) e Partido de Refundação (Libre), Lucy Pagoada, explica em uma entrevista de 2015 que “Honduras se converteu em uma grande base militar, treinada e financiada por EUA. Inclusive têm forças da Escola das América… Tem havido altos níveis de violência e tortura desde o golpe de Estado de 2009””.

Claro que tais exemplos simplesmente raspam a superfície do compromisso militar dos EUA. Além de sua associação de longa data com Colômbia, o Exército de EUA afiançou ainda mais sua posição ao estabelecer cooperação entre a OTAN e Colômbia. Naturalmente, este tipo de anuncia tem sido recebidos com consternação por líderes independentes como Daniel Ortega, da Nicarágua, que descreveu o acordo OTAN-Colômbia como “um punhal cravado nas costas dos povos da América Latina”.

A agenda de EUA

Em última instância, a militarização estadunidense na América Latina é uma tentativa de comprovar militarmente o nível de cooperação e a independência regional. O desenvolvimento da Alba, Unasul, Petrocaribe e outras instituições multilaterais não controladas por EUA alarmou a muitos em Washington que vêem como seu antigo “pátio traseiro” desliza para fora de seu alcance. Por esse motivo EUA tem se movimentado para bloquear a situação através da força militar.

O componente regional também é fundamental para a agenda da militarização estadunidense. Washington quer bloquear qualquer tipo de integração, enquanto se dá conta da crescente influência da China e outros atores não ocidentais que cada vez mais tem seus interesses na região e seus investimentos. Em assentia, EUA esta fazendo nas Américas o mesmo que está fazendo na África, no Oriente médio e nas regiões da Ásia e do Pacífico: utilizar suas forças armadas para bloquear o desenvolvimento independente.

Talvez essa seja uma questão inevitável do imperialismo. Talvez seja indicativo da minguante influência de um império e seu desesperado intento de recuperar os espaços perdidos. Qualquer que seja seus motivos, EUA esta consolidando inequivocamente seu poder militar na América Latina. Se isso servirá para o império reafirmar seu controle ou simplesmente uma tentativa condenada ao fracasso só o tempo dirá.

* Eric Draitser é analista geopolítico independente com sede na cidade de Nova York. É editor de StopImperialism.org e anfitrião de Couter Punch Radio.

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