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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Grécia, ditadura financeira e caos


Por Immanuel Wallerstein, no site Outras Palavras:




De onde quer que se olhe, o que ocorre hoje na Grécia, ou, antes, entre a Grécia e países e instituições estrangeiras, é um melodrama – um melodrama de proporções épicas. Com melodrama queremos dizer encontro dramático deliberadamente exagerado pelos participantes. Eles fazem ameaças, implícitas e às vezes explícitas. Definem publicamente linhas que não podem ser cruzadas nas negociações. Fazem previsões terríveis sobre o que acontecerá se suas recomendações não forem seguidas. Melodramas aumentam os fatos e insistem em dicotomias morais.

Num melodrama, os participantes fazem praticamente tudo o que podem para culpar os outros pelas consequências negativas do passado, do presente e do futuro. A única coisa que eles não fazem é confessar suas prioridades verdadeiras, e como essas prioridades são beneficiadas por sua participação no melodrama, ao invés de entrar em discussões sóbrias destinadas a alguma resolução das diferenças.

Quando e como começou esse encontro tão particular? A data inicial é, precisamente, o que está sob disputa. Há na verdade ao menos três questões envolvidas na discussão: o presente e o futuro da Grécia, o presente e o futuro da zona do euro, e o presente e o futuro da União Europeia. Nem todos os participantes estão interessados nos três assuntos. E aqueles que estão interessados têm visões diferentes entre si.

Comecemos pela Grécia. Nos anos que se seguiram a 1945, a economia grega parecia prosperar, assim como a de um grande número de países. O fenômeno foi denominado “milagre econômico grego”. Após os anos 1970, a Grécia teve um desempenho pior, assim como, de novo, a maioria dos países. Apesar disso, até a chamada “grande recessão” de 2008, havia aparentemente poucos problemas para o governo grego.

A Grécia foi admitida na zona do euro em 2000, supostamente por ter alcançado as exigências formais para isso. Quando, depois de 2008, a dívida do governo aumentou muito e o país passou a correr o risco de não poder pagá-la, foi-lhe oferecido um “pacote de resgate” por instituições estrangeiras, para que o governo fosse capaz de pagar suas dívidas. Houve, de fato, sete desses pacotes entre 2010 e 2013.

O preço desses empréstimos costuma ser chamado de “austeridade”. Na verdade isso significou que, exatamente quando o alto índice de desemprego se tornava ainda mais alto, a rede proteção social começou a desaparecer. O governo grego prometeu reduzir despesas de várias maneiras – o número de servidores públicos, o valor das aposentadorias, os benefícios de saúde e de desemprego. Além disso, exigiu-se que o governo privatizasse várias estruturas governamentais. Ao vender seus ativos, o governo obteve, assim, uma única entrada de recursos — mas isso levou as empresas e instituições privatizadas a praticar ainda mais “austeridade”. Todas essas medidas deveriam ser supervisionados de perto por uma tríade de instituições — Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu.

O resultado final foi que a grande maioria da população teve seu nível de vida drasticamente reduzido para que os bancos da Grécia não quebrassem. Dado que esses bancos eram, na maior parte dos casos, propriedade parcial de outros bancos europeus (especialmente da Alemanha e da Áustria), as medidas de “austeridade” serviram aos interesses desses bancos europeus.

Um movimento político anti-“austeridade” denominado Syriza emergiu na Grécia e finalmente, em 2014, chegou ao governo. O programa desse partido pretendia desfazer ou reverter as medidas de austeridade, rejeitar o papel da tríade na supervisão da vida política da Grécia, mas ainda manter-se como membro da zona do euro. Esse programa mostrou-se extremamente difícil de realizar, já o país necessita de mais um empréstimo (ou redução dos pagamentos da dívida) de modo a minimizar, no curtíssimo prazo, o sofrimento da população. Embora o primeiro ministro do Syriza, Alexis Tsipras, mostre-se confiante sobre a possibilidade de conseguir um acordo provisório antes do próximo vencimento, em meados de maio, a maioria dos analistas está cética.

Se não chegarem a um acordo, acontecerá a chamada Grexit (termo em inglês cunhado para significar uma saída da Grécia da zona do euro). A questão que o mundo discute é que significado teria isso. Há três visões: uma catástrofe para toda a economia mundial (especialmente a União Europeia); um evento relativamente menor (com exceção, é claro, da Grécia); e incerteza total sobre o que acontecerá (ou como o “mercado” irá responder).

Vários atores (e principalmente o ministro das finanças da Alemanha, Wolfgang Schaüble) insistem em que uma Grexit seria bastante tolerável para a zona do euro. Essas pessoas estão, antes de mais nada, preocupadas com uma coisa – que o princípio de pagamento de dívidas seja prioridade imperativa para a Grécia e todos os outros países do mundo. Outros atores, que priorizam a sobrevivência da eurozona, preocupam-se com uma Grexit. A personagem mais notável deste grupo é a chanceler alemã Angela Merkel. Ela teme que a saída da Grécia da zona do euro não leve apenas à desintegração da eurozona, mas também, em seguida, a um colapso da União Europeia. Por isso, Merkel está disposta considerar algumas formas de acomodação ao acordo oferecido pelo Syriza.

A terceira visão – a de incerteza total – é contudo a correta. É a única que leva em conta o fato de que o mundo está numa bifurcação caótica, em que não é possível prever como o “mercado” ou qualquer outra instituição irá reagir. Dado que a maioria dos investidores está consumida pela incerteza, suas reações levam a oscilações selvagens e frequentes congelamentos. Trata-se portanto de escolher prioridades. A do Syriza é minimizar a dor da grande maioria da população. Esta me parece uma prioridade muito mais admirável do que preservar a santidade do pagamento da dívida.

Claro, o Syriza está fazendo malabarismos com uma série de escolhas de curto prazo, a fim de realizar sua prioridade. Pode ser que venha a fazer julgamentos equivocados ou, pior ainda, sérias concessões que neguem suas promessas eleitorais. Os próximos dois meses irão dizer.

* Tradução de Inês Castilho.

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