Farsa do “mensalão”: “Época” faz Dantas de vítima
A matéria publicada no último fim de semana pela revista “Época” sobre o “valerioduto” foi acertadamente caracterizada pelo jornalista Luiz Nassif como um “cozidão”. Ou seja, nada de novo foi trazido pelo documento que a revista disse ter obtido junto à Polícia Federal. Os “dados novos” bombasticamente apresentados como “provas” do “mensalão” foram o aparecimento de um filho de Marco Maciel na história, a inclusão da filha de Joaquim Roriz e a de Aécio Neves, em algo que não tem nenhum desdobramento maior: uma cota de patrocínio de um evento que existiu, aconteceu e foi pago.
A reportagem não passa de mais uma tentativa (entre tantas) de atingir o governo Lula com a surrada tese da compra de votos pelo ex-presidente. Só que nenhuma prova de compra de parlamentares aparece no documento. É tudo repetição do que foi dito e repetido em 2005 e na campanha eleitoral de 2006. E é aí que a matéria se denuncia. O último parágrafo revela o verdadeiro objetivo da revista: tentar mudar uma tendência amplamente majoritária do STF de absolver a maioria dos acusados. É que está difícil, com o que se revelou até agora, convencer o STF de que o governo Lula comprou parlamentares para aprovar suas propostas. Vejam o que aparece sorrateiramente no finalzinho da reportagem:
“As provas reunidas pela PF constituem a última esperança do ministro Joaquim Barbosa e da Procuradoria-Geral para que o Supremo condene os réus do mensalão. Nos últimos anos, as opiniões dos ministros do STF sobre o processo modularam-se ao ambiente político – que, sob a liderança simbólica e moral do ex-presidente Lula, fizeram o caso entrar num período de hibernação. Alguns ministros, que em 2007 votaram por acatar a denúncia do Ministério Público, agora comentam reservadamente que as condenações dependem de “mais provas”. Hoje, ministros dizem que vários pontos do inquérito “seriam derrubados facilmente se o julgamento tivesse transcorrido em clima de normalidade”.
Em suma, a intenção da revista é criar novo constrangimento entre os ministros do STF. E o que ela traz na reportagem é o que todo mundo já sabia. Que Marcos Valério, depois de prover recursos para Eduardo Azeredo (PSDB), contribuiu irregularmente com a campanha eleitoral de políticos do PT. Nada mais. E esses fatos, para o STF, não têm nada a ver com a fantasia do “mensalão”. Em 2005 foi revelado que empresas controladas por Daniel Dantas - entre elas a Telemig - pagaram mais de R$ 150 milhões desde 2000 às agências de Valério.
Os outros fatos novos, anunciados bombasticamente pela “Época”, também são antigos e já constam do inquérito inicial, que serviu de base para instruir o relatório de Joaquim Barbosa. A saber: O caso do segurança de Lula. Dos assessores de Pimentel, demitidos por ele na época e o financiamento da festa de posse de Lula e outras despesas de campanhas, admitidas publicamente por Delúbio Soares. Nenhuma novidade. Nem o caso da Visanet que, segundo a revista, “provaria” que houve dinheiro público no esquema se sustenta. Não é verdade. A “Visanet”, agora “Cielo”, ao contrário do que eles insinuam, era, e continua sendo, uma empresa privada.
Escândalo mesmo foi que na reportagem, feita sob medida para pressionar os ministros do STF, a revista exagerou em livrar a cara de Daniel Dantas. Transformou o responsável pelo abastecimento criminoso do “valerioduto” em vítima e deu a ele o privilégio de ser o único ouvido em toda a reportagem. Só que a única prova inconteste que aparece na matéria são exatamente os crimes de Dantas. O relatório mostra que ele foi o abastecedor do “valerioduto”. E o mais irônico em tudo isso é que, mesmo com todas essas provas, Dantas, apesar de já ter sido condenado por tentativa de suborno a um delegado da Polícia Federal, não está entre os acusados do “valerioduto”. Quem sabe o ministro Joaquim Barbosa não o inclui?
SÉRGIO CRUZ
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