Copom sobe juros a 11,75% e recebe o repúdio de empresários e trabalhadores
“Aumentar Selic é um crime contra o Brasil”, diz Abimaq
Objetivo é “claramente desacelerar a economia”, avaliza Paulo Passarinho, membro do Corecon-RJ
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou pela segunda vez consecutiva a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, passando de 11,25% para 11,75 % ao ano. A decisão foi criticada por entidades empresariais da indústria e do comércio e pelas Centrais Sindicais. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, disse que a alta dos juros vai sobrevalorizar ainda mais o real e “piorar o déficit comercial de vários setores da indústria de transformação”. “É um crime contra o Brasil”.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) alerta que cada meio ponto percentual a mais na taxa Selic representa despesa anual adicional de R$ 9 bilhões com gastos com juros. É superior a redução de R$ 5,1 bilhões do programa Minha Casa, Minha Vida previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2011.
Assim, O BC dá sua contribuição para derrubar a produção e o consumo das famílias, com o objetivo de derrubar o PIB, conforme disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dois dias antes, ao anunciar o detalhamento do corte de R$ 50,1 bilhões do Orçamento.
Para Paulo Passarinho, membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro (Corecon-RJ), o objetivo do governo é “claramente desacelerar a economia”.
A reunião do Copom foi antecedida sob forte pressão dos especuladores pelo aumento dos juros. Alguns economistas do setor financeiro chegaram a falar em alta de 1 ponto invocando uma suposta escalada inflacionária em função do aquecimento da economia. Na segunda-feira, na décima segunda semana consecutiva de aumento na previsão de inflação, a estimativa para o IPCA em 2011 foi de 5,8%, conforme o boletim Focus. Mas, como observou o presidente da Abimaq, não há inflação de demanda no Brasil. “Você não tem fila para comprar nada. Não há aumento nos preços dos automóveis e das geladeiras. Os eletroeletrônicos estão com preço em queda”, disse.
“Não é aumentando a taxa Selic em meio ponto que você vai segurar o preço de commodities. É um jogo de interesse muito forte do setor financeiro, que não gera nenhum emprego. Se taxa elevada de juros fosse sinal para segurar inflação, nós já devíamos estar com deflação”, afirmou o empresário.
O terrorismo inflacionário, na verdade, tem como objetivo o aumento da taxa de juros. Com o aumento da Selic para 11,75% ao ano, a taxa real de juros (descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses) do Brasil ficou em 5,9% ao ano, quase o triplo do segundo país colocado, a Austrália, com 2% ao ano. A média geral dos juros reais de 40 países com maior economia é de -0,9% ao ano. Nada menos que 28 estão com juros reais igual ou menor que zero.
A taxa real de juros da Inglaterra é de -3,4%; da Itália, -1,4%; dos EUA e do Canadá, -1,3%; Alemanha, -1,0%; França, -0,8%; Japão, 0,1%; e China 1,1%. Com isso, o diferencial de juros do Brasil com os EUA, por exemplo, é de 7,2 pontos. Ou seja, os juros siderais estabelecidos pelo BC são fortes atrativos à montanha de dólares sem lastro emitida pelos norte-americanos ao desencadearem a guerra cambial, a partir da crise. O resultado é de conhecimento geral: a depreciação da cotação do dólar e sobrevalorização do real, provocando estragos na indústria nacional e deteriorando a balança comercial.
Como frisou o presidente da Abimaq, “não há ganho de produtividade que compense um câmbio na casa de R$ 1,65”. Segundo ele, “nós, no Brasil, estamos dentro de um grande Titanic. O pessoal curte a festa dentro do navio com o dólar barato. Uma hora essa conta chega e a proa desse Titanic está apontada para o iceberg. Se a gente não mudar essa política financeira, esse navio vai bater e afundar”.
Por outro lado, o diferencial de juros transforma o Brasil em um grande maná para os especuladores, especialmente os estrangeiros. Adquirir títulos da dívida com os juros mais altos do mundo é um ganho fácil e seguro. Basta ver que ao anunciar o corte de R$ 50,1 bilhões, ressaltou que o aperto fiscal possibilitaria alcançar a meta de R$ 117,9 bilhões para o superávit primário (reserva para pagamento de juros) para este ano.
VALDO ALBUQUERQUE
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