Atolados na crise, EUA querem desovar seus produtos às custas de quebrar Brasil e emergentes
Não satisfeito com a derrama de mais de um trilhão de dólares, desde 2008, feita para manipular o câmbio e torná-lo mais favorável ao comércio exterior americano, o governo dos EUA quer aumentar a pressão sobre os países emergentes, entre eles o Brasil, para que estes escancarem ainda mais os seus mercados aos produtos e serviços norte-americanos. Documento divulgado na terça-feira pelo Departamento de Comércio dos EUA (USTR na sigla em inglês), cobra que Brasil, China e Índia parem de pensar em seus problemas internos e “contribuam mais para a liberalização do comércio global”.
No início deste ano o Federal Reserve intensificou a guerra cambial que já vinha em curso, através da compra de títulos do Tesouro de longo prazo em poder dos bancos, no valor de US$ 600 bilhões. A enxurrada de dólares dos EUA havia começado a partir de 2008 e prosseguiu em 2009 e 2010. Essa política que valoriza artificialmente as demais moedas possibilitou que os EUA invertessem a situação em sua relação comercial com o Brasil. Em 2010 as exportações brasileiras caíram para US$ 19,307 bilhões, situando-se abaixo de 2008 e as importações subiram para US$ 27,039 bilhões, fechando com déficit de US$ 7,732 bilhões. Em 2008 o saldo da balança comercial do Brasil com os Estados Unidos era positiva em US$ 1,795 bilhão, resultante de US$ 27,423 bilhões de exportações e US$ 25,628 bilhões de importações.
O chefe da assessoria econômica da Casa Branca, Austan Goolsbee, não deixou dúvida que a intenção dos EUA é sair da crise às custas do resto do mundo. “Nosso objetivo é aumentar as exportações dos atuais US$ 1,57 trilhão para US$ 3,14 trilhões em 2014. Será o maior aumento que um país já fez nas exportações”, disse. Resumindo: a política dos EUA é tentar sair da crise invadindo os outros países com suas mercadorias, exterminando a produção e a indústria locais.
Com um dumping cambial criminoso como este, eles ainda se acham no direito de criticar qualquer política industrial adotada pelos países emergentes. “Cada um desses países tem de olhar não apenas seus próprios interesses na hora de decidir por medidas de liberalização comercial, mas também promover crescimento econômico global”, diz o documento do USTR. Ou seja, os EUA só pensam em sua economia ao manipular o câmbio, mas dizem para os emergentes que eles devem “colaborar” para sacar os americanos da estagnação em que se meteram.
O diretor da USTR, Ronald Kirk, foi ainda mais enfático neste sentido. “Para que as negociações permaneçam relevantes”, disse ele, “[os emergentes] devem levar em consideração o mundo como ele é hoje e será nos próximos anos. Nossas demandas para os países emergentes-chaves continuarão a se basear na proposição razoável de que países com aumento rápido de seu grau de competitividade global e sucesso nas exportações precisam estar preparados para contribuir significativamente para a liberalização do comércio”. “Liberalização do comércio” neste caso nada mais é do que defender os interesses unilaterais americanos, que mantêm subsídios milionários e barreiras intransponíveis em seu comércio interno.
O diretor do órgão não escondeu que o que interessa é resolver o desemprego que graça no país. O documento da USTR chega a detalhar quantos empregos serão criados a cada dólar de exportação obtida pelo país. Segundo Ronald Rirk, “cada US$ 1 bilhão exportado em produtos industriais cria 6 mil empregos dentro do país. A mesma quantia em serviços geraria 4,5 mil empregos”. Se isso está deteriorando a balança comercial brasileira e de outros emergentes ou desmontando a indústria local, isso não é problema deles. Seu objetivo é cuidar de seu problemas mesmo que para isso tenham que quebrar o resto do mundo.
O Departamento de Comércio dos EUA se achou no direito de cobrar recentemente da diplomacia brasileira explicações sobre os incentivos oferecidos à indústria nacional pelo BNDES. Campeões de subsídios e barreiras, eles condenam sem a menor cerimônia os financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e uso de créditos tributários. Em suma, são adeptos da linha: “faça o que eu digo, não façam o que eu faço”.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e outras entidades vêm apontando para a gravidade da situação. Elas mostram que o coeficiente de importações, que mede a participação dos produtos estrangeiros no consumo interno (incluído o “consumo industrial”, isto é, os insumos para as indústrias), atingiu em 2010 o nível recorde de 21,8%, um crescimento de 3,5 pontos percentuais em relação a 2009. A principal causa do crescimento das importações foi atribuído ao câmbio adverso. E os produtos que mais sofrem com a guerra cambial são aqueles que utilizam mais mão de obra e mais componentes nacionais”, denuncia a Fiesp.
HP
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