sexta-feira, 4 de março de 2011

Especulação externa elevou os preços de alimentos em até 80%


Temos nos referido à especulação financeira com os alimentos – evidentemente externa, o que até o Banco Central reconheceu, elaborando um índice para separar, no índice oficial de inflação, o resultado dessa especulação (o que, aliás, não inibiu o BC de aumentar outra vez os juros).

Mas o que é, exatamente, essa especulação? Um quiproquó quase cômico acontecido em Londres, no ano passado, é bastante elucidativo.

Os especuladores dos fundos de hedge estavam apostando que o preço do cacau – um mercado relativamente pequeno - iria cair, portanto, estavam puxando o preço para baixo com seus contratos de derivativos no mercado futuro.

Uma trading, uma empresa de exportação/importação que esperava receber um estoque físico de cacau, começou, ocultamente, a comprar os contratos desses especuladores – isto é, a apostar que o preço subiria. Naturalmente, com os estoques que receberia, esperava manipular o preço do cacau e ganhar a aposta, passando a perna nos especuladores dos fundos de hedge, ganhando nas duas pontas, no preço do cacau e nos derivativos.

Porém, os fundos de hedge souberam que a trading estava sustentando posições elevadas em contratos no mercado futuro – e que, portanto, estavam arriscados a perder dinheiro. Então, começaram a comprar desesperadamente os próprios contratos que tinham vendido. Mas isso não era suficiente – começaram, então, a comprar estoques de cacau e atravessaram a trading, comprando também o estoque de cacau que ela esperava receber. Um fundo de hedge de Londres, o Armajaro, chegou a comprar 240 mil e 100 toneladas, o que era mais de 7% de todo o cacau à venda no mercado mundial. O resultado é que o chocolate atingiu o mais alto preço em 33 anos (ver Tim Jones, “The great hunger lottery: How banking speculation causes food crises”, WDM, Julho/2010 e Katie Allen, “Hedge funds accused of gambling with lives of the poorest as food prices soar”, The Guardian, 19/07/2010).

Michael Masters, administrador e dono de um fundo de hedge em Wall Street, o Masters Capital Management, declarou que “a maior parte do negócio [com alimentos] é agora especulação [com derivativos] – eu diria que uns 70% a 80%” (ver John Vidal, “Food speculation: ‘People die from hunger while banks make a killing on food’ ”, The Observer, 23/01/2011).

Em julho de 2008, ao depor no Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA, Masters deixou alguns senadores perplexos, porque não apenas disse isso, mas provou o que dizia. Alguns trechos de seu depoimento:

“Perguntaram-me se os ‘investidores institucionais’ estão contribuindo para a inflação dos preços dos alimentos e da energia. Minha inequívoca resposta é sim. Os preços das commodities aumentaram mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outra época da história dos EUA. Hoje, diferente de outros episódios anteriores, o suprimento é amplo. Se o suprimento é adequado e os preços estão ainda aumentando, então a demanda deve estar crescendo. Mas como explicar que a demanda continue aumentando, quando os preços das commodities dobraram ou triplicaram nos últimos cinco anos? O que nós estamos vivendo é um choque de demanda proveniente de uma nova categoria de participantes dos mercados futuros de commodities: os ‘investidores institucionais’, especificamente, os fundos de pensão corporativos e governamentais, os fundos soberanos, os fundos de doação das universidades e outros ‘investidores institucionais’. Conjuntamente, esses investidores têm agora mais contratos futuros de commodities do que qualquer outro participante do mercado.

“Eles”, continuou Masters, “a quem chamo de ‘especuladores de índices’, comportam-se de forma muito diferente dos tradicionais especuladores que sempre existiram nesse mercado. Eu me refiro a eles como ‘especuladores de índices’ por causa de sua estratégia de investimento: eles distribuem seus dólares nos mercados de futuros em 25 commodities-chave, que são as que compõem os mais conhecidos índices de preço – o Standard & Poors-Goldman Sachs Commodity Index e o Dow Jones-AIG Commodity Index.

“Hoje, os ‘especuladores de índices’ estão despejando bilhões de dólares nos mercados futuros de commodities, especulando que os preços das commodities aumentarão. Os recursos alocados em estratégias de apostas de índices aumentaram de US$ 13 bilhões no final de 2003 para US$ 260 bilhões em março de 2008 e os preços das 25 commodities que compõem esses índices aumentaram, na média, 183% nesse período”.

Há, no depoimento de Masters, uma descrição detalhada de como funciona esse “mercado” de papéis – nenhum dos “investidores” citados por ele tem algum interesse econômico nas commodities reais, sejam elas o trigo, o milho, o petróleo, a carne suína ou qualquer outra – e de suas tremendas consequências. A íntegra desse depoimento poderá ser encontrada em http://hsgac.senate.gov/public/_files/052008Masters.pdf.

Em seu artigo no “The Observer”, John Vidal, editor de meio ambiente do “The Guardian”, relata, sobre o período posterior ao depoimento de Masters no Senado dos EUA: “O mercado especulativo é verdadeiramente vasto, concorda Hilda Ochoa-Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group em Nova Iorque. Ela estima que a demanda especulativa para o mercado futuro de commodities aumentou, desde 2008, em 40 a 80%”.

C.L.
 

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