Mais fotos e revelações da ajuda humanitária dos EUA aos afegãos
“Os soldados tiraram fotos deles mesmos posando em cima de suas vítimas, como troféus de caça, e também reuniram lembranças horríveis, inclusive ossos e dedos”. Esses soldados, diz a revista “Der Spiegel”, estavam quase sempre drogados. Até agora, apenas um deles foi condenado, a 24 anos de cadeia
A mídia, no Brasil, optou por abafar a revelação dos crimes de guerra dos EUA no Afeganistão. Naturalmente, está comemorando aqueles que os EUA cometem na Líbia. A “Der Spiegel” desta semana diz que sua edição passada sobre os crimes no Afeganistão provocou “manchetes ao redor do mundo”. É verdade, menos no Brasil – onde a trupe de bajuladores publica ficções, ao invés de jornais e revistas (ou seu equivalente televisivo).
Não seja por isso – aqui estamos nós outra vez.
A edição online da “Der Spiegel” traz um vídeo sobre as operações dos norte-americanos no Afeganistão. Um pelotão está, supostamente, procurando guerrilheiros talebãs. No entanto, esconde-se à beira de um caminho, esperando sabe-se lá o quê. De repente, pelo caminho, aparece uma motocicleta com dois afegãos em cima. Os soldados, sem saber quem são os alvos, disparam as armas – houve batalhas na história com menos bala, fumaça e tiro. O vídeo mostra os afegãos mortos no chão, ao lado da motocicleta.
Os soldados procuram as armas dos supostos guerrilheiros – e não acham arma alguma. Para sintetizar a cena: os soldados atiraram nos primeiros civis que viram. No Vietnã dizia-se que todo vietnamita morto, para os americanos, era um vietcongue. No Afeganistão, pelo visto, todo afegão vivo é um inimigo.
A matéria da revista alemã, em sua edição impressa, é sobre um relatório do exército dos EUA: “O relatório foi compilado pelo general Stephen Twitty, que entrevistou 80 militares de várias patentes. As 532 páginas do relatório pintam um quadro incriminador da cultura militar na Stryker Brigade Combat Team (SBCT)”. Essa brigada era comandada pelo coronel Harry Tunnell – e a ela pertenciam os soldados do “kill team”, que perpetraram os massacres a que nos referimos na edição passada.
Os soldados tiraram fotos deles mesmos posando em cima de suas vítimas, como troféus de caça, e também reuniram lembranças horríveis, inclusive ossos e dedos”. Esses soldados, diz a revista, estavam quase sempre drogados – e quando um colega queixou-se a um superior, não conseguiu mais do que ser espancado pelos outros. Até agora, apenas um deles foi condenado, a 24 anos de cadeia. Foram cinco os acusados de assassinato “por pura sede de sangue”. E sete de profanação de cadáveres e outros crimes.
Em novembro de 2009, esses soldados foram encarregados de recuperar um corpo, supostamente de um guerrilheiro atingido por um míssil. Mas acharam pouco o que viram. Tiraram suas facas de caça e passaram a cortar o cadáver. Estavam se divertindo...
No relatório, é claro que os crimes iam muito além de um grupo de soldados. Pelo contrário, eram incentivados pelo comando – dos elos mais próximos da cadeia até os mais distantes.
Por exemplo, o relatório do general Twitty revela que em 15 de janeiro de 2010, quando o “kill team” assassinou o jovem Gul Mudin, eles não estavam sós na aldeia de La Mohammed Kalay. Além do pelotão, chefiado por um sargento, Gibbs, havia outras tropas: um capitão, Patrick Mitchell, ouviu os tiros e viu a vítima no chão. Deu, então, a seguinte ordem a outro sargento, Kris Sprague: “esteja seguro de que ele está morto antes de revistá-lo”. Sprague, então, disparou várias vezes contra o corpo do rapaz.
Segundo a revista, na brigada do coronel Tunnell, “criou-se uma atmosfera em que as atrocidades contra civis eram consideradas normais”.
Sem dúvida, sobretudo porque foi Tunnell que instituiu os “kill teams” na sua brigada. Ele mesmo, em seu depoimento ao general Twitty, sobre a suposta doutrina de “proteger civis” que o Pentágono diz que era a sua no Iraque e que queria “transplantá-la” para o Afeganistão, afirmou o seguinte: “as forças de Exército dos Estados Unidos não são organizadas, treinadas ou equipadas para implementar essa doutrina e os americanos não estão culturalmente adaptados para aceitar táticas coloniais e imperiais predominantemente europeias na prática operacional”.
Incrível é que a conduta dos soldados americanos em relação aos civis no Iraque fosse considerada modelo. Mais incrível é que tivesse de ser “transplantada” para o Afeganistão – e, mais ainda, que proteger civis fosse considerado algo tão extraordinário, a ponto de ter que ser “transplantado”. Pior ainda, que um oficial superior do exército dos EUA considerasse que não assassinar civis era coisa de colonialistas europeus, e que os americanos não estão “adaptados culturalmente” para não assassinar...
No entanto, Tunnell, diz a revista alemã, era considerado um “intelectual” no exército dos EUA, tendo sido anfitrião do próprio secretário de Defesa, Robert Gates, quando este visitara o Afeganistão. Não era um comandante secundário, nem no país invadido nem no exército. Tanto assim que, ainda coronel, tinha um comando que é prerrogativa de general.
“Segundo a declaração de uma testemunha, o próprio Tunnell tinha falado ‘de pequenos kill teams’ supostamente para acossar sem piedade o Talibã. Ele fez discursos onde delineou a sua estratégia ‘contra-insurgente’ preferencial, baseada na criação de ‘objetivos de oportunidade’ e missões ‘de busca e destruição’ de combatentes do Talibã. Um soldado, citado no relatório, declarou que se tivesse que resumir numa frase o discurso do coronel, esta seria: ‘vamos matar aqueles filhos da puta’”.
De acordo com outro depoimento, Tunnell “afirmou que estava atrás de vingança por ter sido alvejado na perna quando servia no Iraque”, acrescentando que o comandante mantinha o estilhaço de metal retirado de sua perna sobre sua escrivaninha “como uma ilustração”.
Devia se considerar a própria reencarnação do capitão Ahab, aquele que quer se vingar de Moby Dick. Só que em vez de uma baleia, o que requeria coragem, ele matava gente desarmada e indefesa.
Mas ele não nomeou a si próprio para o cargo que ocupava.
C.L.
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