sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
"O Valor Atual do Manifesto"
Alvaro Cunhal.
Há tanto a dizer do Manifesto Comunista que, no espaço disponível, apenas alguns limitados aspectos selecionados podem ser referidos num breve apontamento.
1. Comemorar 150 anos do Manifesto Comunista de Marx e Engels é falar de um documento que - pelas suas análises, o seu conteúdo ideológico, o objectivo e a possibilidade que aponta de construir uma sociedade nova — lançou e promoveu uma luta revolucionária de alcance universal: a luta dos comunistas, que marcou e determinou as principais realizações e conquistas de transformação social desde então até aos dias de hoje.
Como anotavam as primeiras palavras do Manifesto, "andava pela Europa o espectro do comunismo". Ao longo do século e meio decorrido, continuou a "andar", agora pelo mundo, o mesmo espectro, a que as forças do capital chamaram "o perigo comunista". E, ao findar o século XX, ao mesmo tempo que proclamam que "o comunismo morreu", as campanhas violentas, constantes, universais, que lançam contra ele, mostram que não morreu mas está vivo e para viver.
2. O Manifesto Comunista é um extraordinário libelo acusatório contra o capitalismo.
Não apenas indicando a situação da classe operária e das massas trabalhadoras: os salários injustos, o desemprego, o tempo e intensidade de trabalho, as discriminações e falta de direitos da mulher, o trabalho infantil, os problemas da habitação e da saúde, o alastramento da pobreza e da miséria. Não apenas apontando medidas necessárias de carácter imediato. Mas também desvendando a natureza e as leis do capitalismo e apontando a necessidade e possibilidade histórica de superá-lo.
Esta simultaneidade da luta com objetivos a curto e a médio prazo e a luta pelo socialismo, caracterizou desde então a luta dos comunistas.
À luta dos comunistas, sempre estreitamente ligados à classe operária e às massas populares e promovendo as suas organizações unitárias, nomeadamente o movimento sindical, se devem, mesmo no quadro do sistema capitalista, importantes conquistas. A ela também se deve, com a revolução de Outubro de 1917 e outras revoluções socialistas, a prova na vida da atualidade histórica de construir uma sociedade nova, uma sociedade socialista.
3. É um marco fundamental dessa luta, a revolução de Outubro de 1917 e suas repercussões em todo o mundo.
A revolução de Outubro significou que, pela primeira vez, em milénios de história da humanidade, o ser humano se lançou audaciosamente à construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.
Significou a realização de profundas reformas nos domínios político, econômico, social e cultural, com o melhoramento radical das condições de vida do povo e a eliminação de muitos dos flagelos sociais.
Significou, num curto período histórico, a transformação da velha, atrasada e tirânica Rússia dos czares, num país altamente desenvolvido, fazendo frente com êxito ao imperialismo.
Significou, pela sua influência e relações de solidariedade recíproca, uma nova e poderosa dinâmica do movimento operário internacional e suas conquistas.
Significou um papel determinante, pago com 20 milhões de vidas, para a derrota, na 2ª Guerra Mundial, da Alemanha hitleriana e da coligação fascista (Alemanha, Itália, Japão) que ameaçava impor ao mundo o seu domínio de terror.
Significou, em datas diversas, o estímulo a novas revoluções socialistas, - no leste da Europa, na China, em Cuba, no Vietname, na Coreia do Norte, no Laos - com características diferenciadas e contraditórias, mas inseridas durante décadas no mesmo sentido positivo da evolução mundial.
Significou, pelo exemplo e pela solidariedade, uma contribuição para a luta dos povos oprimidos, o desenvolvimento dos movimentos de libertação nacional, o ruir do sistema colonial e a conquista da independência por povos secularmente submetidos ao colonialismo.
A revolução de Outubro, pelo que foi e pelas suas repercussões mundiais, constitui o acontecimento histórico mais importante do século XX.
Não é por acaso que ataques, propaganda e campanhas anticomunistas têm tido sempre em todo o mundo dois alvos centrais: a revolução de Outubro de 1917 e a obra e papel de Lénine que, com o Partido Bolchevique, dirigiu a luta do proletariado russo e a revolução vitoriosa.
Ainda recentemente, quando do 80º aniversário da revolução, assistimos a uma furiosa, vil e orquestrada campanha, - com seminários, livros, programas nos grandes meios de comunicação social - apresentando a revolução de Outubro e a ação de Lénine, como histórias de odiosos crimes.
É natural que as forças do capital o façam. Sabem tudo quanto a Revolução de Outubro, Lénine, a URSS, e outras revoluções socialistas e nacional-libertadoras representaram na luta libertadora dos trabalhadores e dos povos.
Um partido comunista, para continuar a sê-lo, não pode, por atitude ou omissão, favorecer e ainda menos secundar tão reacionárias campanhas. Outubro e Lénine são referências fundamentais.
4. Se a União Soviética, tal como outros países, sofreu uma evolução negativa, que a conduziu ao desastre, não foi por que tenha fracassado o ideal e projeto comunista. Foi sim porque, num complexo processo, cuja análise está por aprofundar, acabou por se instaurar um "modelo" que deixou de corresponder a esse ideal e projeto e em alguns aspectos o perverteu.
Poder centralizado e burocratizado em vez de poder dos trabalhadores. Estatização completa da economia. Perda de ligação viva do governo e do partido com a classe operária e as populações. Ouvidos fechados à crítica. Não realização da prometida democracia "mil vezes mais democrática que a mais democrática das democracias burguesas". Intolerável abuso de métodos repressivos. Dogmatização da ideologia do partido e sua imposição como doutrina do Estado.
Já num processo avançado de degradação, a "perestroika" prometeu correção e viragem: com mais democracia "mais socialismo". Não cumpriu. Renegou a revolução. Renegou tudo quanto o povo havia realizado, alcançado e vitoriado. Renegou a luta heroica dos que deram a vida. Renegou democracia e renegou socialismo.
O desmoronamento da URSS e a evolução para o capitalismo - com o caos econômico, a liquidação de direitos sociais, as guerras internas, os "gangs" de súbitos milionários, o proliferar de poderosas mafias, a vaga da corrupção do crime e da prostituição - é uma terrível catástrofe e perda para os povos da ex-URSS. Perda terrível também para os povos do mundo, que deixa campo mais livre ao imperialismo para se lançar à ofensiva tentando liquidar à força todas as forças que se lhe oponham, e impor de novo o seu domínio mundial.
Explica-se que na ex-URSS e noutros países se observe o que já se chama "saudade do passado". Não no sentido de refazer um "modelo" condenado, mas para, rejeitando tudo quanto estava mal e muito era, recuperando direitos perdidos, valorizando realizações e experiência passadas, encontrando soluções novas, reempreender a construção do socialismo.
5. Nos últimos 150 anos, o capitalismo conheceu um desenvolvimento em ritmo acelerado. Novos passos na expansão mundial. Descobertas e conhecimentos das ciências. Tecnologias revolucionárias. Inesperado e vertiginoso desenvolvimento das forças produtivas nos países mais desenvolvidos.
Ganhou assim novo fôlego. Manteve porém a sua natureza exploradora, opressora e agressiva.
Estes 150 anos de capitalismo são assinalados por duas guerras mundiais que sacrificaram uma centena de milhão de vidas e destruíram países inteiros. Por outras guerras, agressões e intervenções militares. Pelo terrorismo de Estado. Pelos crimes e genocídios de ditaduras fascistas e de regimes autocráticos. Por rapinas devastadoras de recursos e violentas agressões ecológicas. Pela exploração colonial e neo-colonial e guerras coloniais.
É certo que, depois de sofrer grandes derrotas históricas que, com os comunistas, lhe infligiram os trabalhadores e os povos, o capitalismo conseguiu, na segunda metade do século XX, inverter de momento a tendência da evolução mundial que vinha a processar-se a favor do socialismo. E, ao mesmo tempo que agrava ainda mais a exploração e opressão de classe, as desigualdades, injustiças e flagelos sociais, proclama-se como um sistema final, um "capitalismo civilizado", no qual desaparece a luta de classes através de soluções de consenso, e no qual imperará o "pensamento único", ou seja, a ideologia do capitalismo, que se acoberta na proclamação do "fim das ideologias".
A verdade é porém que o capitalismo, passados 150 anos do Manifesto Comunista, nem sequer resolveu um único dos graves problemas da classe operária e das massas oprimidas apontados no Manifesto. E, ao findar o século, mostra-se incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade, está roído por crescentes contradições. O que tem por diante não é o fim da luta de classes mas um novo e inevitável fluxo da luta dos trabalhadores e dos povos e novas explosões revolucionárias na continuidade da luta anunciada e lançada há 150 anos pelo Manifesto Comunista.
Por muito difícil que seja o percurso, o socialismo, aprendendo com vitórias e derrotas, continua a ser a verdadeira alternativa.
6. As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX.
A sua expansão mundial foi possível por explicar o que até então não tinha explicação. Sobre a relação do ser humano com a natureza que o envolve. Sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis. Sobre a atualidade da construção revolucionária de uma nova sociedade. Porque científicas e dialécticas, teorias abertas à reflexão e contrárias à própria cristalização.
Significou a realização de profundas reformas nos domínios político, econômico, social e cultural, com o melhoramento radical das condições de vida do povo e a eliminação de muitos dos flagelos sociais.
Significou, num curto período histórico, a transformação da velha, atrasada e tirânica Rússia dos czares, num país altamente desenvolvido, fazendo frente com êxito ao imperialismo.
Significou, pela sua influência e relações de solidariedade recíproca, uma nova e poderosa dinâmica do movimento operário internacional e suas conquistas.
Significou um papel determinante, pago com 20 milhões de vidas, para a derrota, na 2ª Guerra Mundial, da Alemanha hitleriana e da coligação fascista (Alemanha, Itália, Japão) que ameaçava impor ao mundo o seu domínio de terror.
Significou, em datas diversas, o estímulo a novas revoluções socialistas, - no leste da Europa, na China, em Cuba, no Vietname, na Coreia do Norte, no Laos - com características diferenciadas e contraditórias, mas inseridas durante décadas no mesmo sentido positivo da evolução mundial.
Significou, pelo exemplo e pela solidariedade, uma contribuição para a luta dos povos oprimidos, o desenvolvimento dos movimentos de libertação nacional, o ruir do sistema colonial e a conquista da independência por povos secularmente submetidos ao colonialismo.
A revolução de Outubro, pelo que foi e pelas suas repercussões mundiais, constitui o acontecimento histórico mais importante do século XX.
Não é por acaso que ataques, propaganda e campanhas anticomunistas têm tido sempre em todo o mundo dois alvos centrais: a revolução de Outubro de 1917 e a obra e papel de Lénine que, com o Partido Bolchevique, dirigiu a luta do proletariado russo e a revolução vitoriosa.
Ainda recentemente, quando do 80º aniversário da revolução, assistimos a uma furiosa, vil e orquestrada campanha, - com seminários, livros, programas nos grandes meios de comunicação social - apresentando a revolução de Outubro e a ação de Lénine, como histórias de odiosos crimes.
É natural que as forças do capital o façam. Sabem tudo quanto a Revolução de Outubro, Lénine, a URSS, e outras revoluções socialistas e nacional-libertadoras representaram na luta libertadora dos trabalhadores e dos povos.
Um partido comunista, para continuar a sê-lo, não pode, por atitude ou omissão, favorecer e ainda menos secundar tão reacionárias campanhas. Outubro e Lénine são referências fundamentais.
4. Se a União Soviética, tal como outros países, sofreu uma evolução negativa, que a conduziu ao desastre, não foi por que tenha fracassado o ideal e projeto comunista. Foi sim porque, num complexo processo, cuja análise está por aprofundar, acabou por se instaurar um "modelo" que deixou de corresponder a esse ideal e projeto e em alguns aspectos o perverteu.
Poder centralizado e burocratizado em vez de poder dos trabalhadores. Estatização completa da economia. Perda de ligação viva do governo e do partido com a classe operária e as populações. Ouvidos fechados à crítica. Não realização da prometida democracia "mil vezes mais democrática que a mais democrática das democracias burguesas". Intolerável abuso de métodos repressivos. Dogmatização da ideologia do partido e sua imposição como doutrina do Estado.
Já num processo avançado de degradação, a "perestroika" prometeu correção e viragem: com mais democracia "mais socialismo". Não cumpriu. Renegou a revolução. Renegou tudo quanto o povo havia realizado, alcançado e vitoriado. Renegou a luta heroica dos que deram a vida. Renegou democracia e renegou socialismo.
O desmoronamento da URSS e a evolução para o capitalismo - com o caos econômico, a liquidação de direitos sociais, as guerras internas, os "gangs" de súbitos milionários, o proliferar de poderosas mafias, a vaga da corrupção do crime e da prostituição - é uma terrível catástrofe e perda para os povos da ex-URSS. Perda terrível também para os povos do mundo, que deixa campo mais livre ao imperialismo para se lançar à ofensiva tentando liquidar à força todas as forças que se lhe oponham, e impor de novo o seu domínio mundial.
Explica-se que na ex-URSS e noutros países se observe o que já se chama "saudade do passado". Não no sentido de refazer um "modelo" condenado, mas para, rejeitando tudo quanto estava mal e muito era, recuperando direitos perdidos, valorizando realizações e experiência passadas, encontrando soluções novas, reempreender a construção do socialismo.
5. Nos últimos 150 anos, o capitalismo conheceu um desenvolvimento em ritmo acelerado. Novos passos na expansão mundial. Descobertas e conhecimentos das ciências. Tecnologias revolucionárias. Inesperado e vertiginoso desenvolvimento das forças produtivas nos países mais desenvolvidos.
Ganhou assim novo fôlego. Manteve porém a sua natureza exploradora, opressora e agressiva.
Estes 150 anos de capitalismo são assinalados por duas guerras mundiais que sacrificaram uma centena de milhão de vidas e destruíram países inteiros. Por outras guerras, agressões e intervenções militares. Pelo terrorismo de Estado. Pelos crimes e genocídios de ditaduras fascistas e de regimes autocráticos. Por rapinas devastadoras de recursos e violentas agressões ecológicas. Pela exploração colonial e neo-colonial e guerras coloniais.
É certo que, depois de sofrer grandes derrotas históricas que, com os comunistas, lhe infligiram os trabalhadores e os povos, o capitalismo conseguiu, na segunda metade do século XX, inverter de momento a tendência da evolução mundial que vinha a processar-se a favor do socialismo. E, ao mesmo tempo que agrava ainda mais a exploração e opressão de classe, as desigualdades, injustiças e flagelos sociais, proclama-se como um sistema final, um "capitalismo civilizado", no qual desaparece a luta de classes através de soluções de consenso, e no qual imperará o "pensamento único", ou seja, a ideologia do capitalismo, que se acoberta na proclamação do "fim das ideologias".
A verdade é porém que o capitalismo, passados 150 anos do Manifesto Comunista, nem sequer resolveu um único dos graves problemas da classe operária e das massas oprimidas apontados no Manifesto. E, ao findar o século, mostra-se incapaz de resolver os grandes problemas da humanidade, está roído por crescentes contradições. O que tem por diante não é o fim da luta de classes mas um novo e inevitável fluxo da luta dos trabalhadores e dos povos e novas explosões revolucionárias na continuidade da luta anunciada e lançada há 150 anos pelo Manifesto Comunista.
Por muito difícil que seja o percurso, o socialismo, aprendendo com vitórias e derrotas, continua a ser a verdadeira alternativa.
6. As teorias de Marx e Engels, das quais o Manifesto Comunista faz uma primeira síntese, revolucionaram o pensamento e as sociedades no século XX.
A sua expansão mundial foi possível por explicar o que até então não tinha explicação. Sobre a relação do ser humano com a natureza que o envolve. Sobre as contradições e história das sociedades. Sobre a economia capitalista e suas leis. Sobre a atualidade da construção revolucionária de uma nova sociedade. Porque científicas e dialécticas, teorias abertas à reflexão e contrárias à própria cristalização.
As conquistas das ciências, as transformações provocadas pelas novas tecnologias, a internacionalização a nível mundial dos processos produtivos, as alterações na composição social das sociedades, incluindo na composição do proletariado, obrigaram e obrigam a novas respostas e a um novo rigor dos princípios teóricos.
Curioso que certos estudiosos, quando falam do marxismo, investigam o pensamento de Marx antes de este ter formulado as grandes conclusões teóricas. Ou seja: de quando Marx ainda não era marxista. O marxismo há que considerá-lo em movimento, acompanhando a vida.
Lembre-se que, apenas passados 50 anos do Manifesto Comunista, já o desenvolvimento do capitalismo exigia novos acertos teóricos. Lembre-se que coube a Lénine definir o capitalismo monopolista, "o imperialismo etapa suprema do capitalismo", como indica o título da sua obra célebre. Neste e noutros aspectos, negar ou recusar o pensamento de Lénine é negar o marxismo ao longo do século XX. Não foram infelizmente poucos os que, começando por negar Lénine acabaram por negar Marx.
A ideologia que inspirou as transformações e conquistas revolucionárias do século XX é corretamente designada por marxismo-leninismo.
Além do mais, porque a teoria adquiriu na sociedade força material quando amplas massas a tomaram como sua e, mesmo que conhecendo e assimilando apenas aspectos essenciais, sentem nela inspiração para lutarem com convicção, coragem e confiança. O marxismo-leninismo foi a grande ideologia revolucionária que inspirou e encaminhou as grandes lutas, realizações e experiências libertadoras de transformação social que marcam para sempre o século XX, na história da humanidade.
Não sem um percurso acidentado. Tanto tendências revisionistas como dogmáticas têm com frequência incapacitado de responder criativamente às transformações da realidade. Se muitas respostas têm sido dadas, muitas mais estão por dar.
Entretanto, princípios fundamentais continuam válidos e continuam não só a explicar o mundo, mas também a indicar como transformá-lo.
7. Uma breve referência:
Válidos os princípios fundamentais do materialismo dialéctico que, rejeitando verdades absolutas e eternas, confia no conhecimento científico.
Válida a confiança no conhecimento das realidades exteriores ao ser humano dispensando a imaginativa crença em forças sobrenaturais que testemunha a insuficiência do saber.
Válida a descoberta do modo de produção, das relações de produção, como determinante "em última instância" da vida social.
Válido, como o Manifesto Comunista proclama, que "a história de todas as sociedades até agora existentes é a história da luta de classes".
Válido que uma política de classe, de exploração e opressão de classe, é característica da política dos governos dos estados capitalistas.
Válidos os princípios fundamentais da teoria econômica, nomeadamente da teoria da mais-valia "pedra angular da teoria econômica de Marx".
Válido que o capitalismo, tal como sistemas anteriores, contêm contradições que, em determinado momento histórico, conduzem à sua substituição e que, como indica o Manifesto Comunista, entramos num tal momento histórico.
Válido o objectivo, a necessidade e a possibilidade de construir uma sociedade nova, que liquide a exploração do homem pelo homem, que erradique as grandes desigualdades, injustiças e flagelos sociais.
Não é por insistência dogmática, mas porque a vida o comprovou nos 150 anos decorridos desde o Manifesto Comunista, que se afirma a validade e atualidade de princípios essenciais.
8. Não foi apenas a escolha de um nome, mas uma declaração programática, ter sido editado o Manifesto Comunista com o título de Manifesto do Partido Comunista.
O projeto, não só de luta com objetivos a curto e médio prazo, mas de superação do capitalismo e de construção do socialismo continha, como um elemento central, a existência e acção não só de um novo partido, mas de um partido novo.
Um partido independente dos interesses, dos objetivos, da ideologia das forças do capital. Um partido da classe operária, como sublinhou Engels, "constituído, não como a cauda de qualquer partido burguês, mas sim como partido independente, que tem o seu próprio objectivo, a sua própria política".
Grandes e pequenas vitórias da causa comunista, a capacidade de resistência às mais violentas perseguições, pressões e tentativas de liquidação, devem-se à existência de partidos assim concebidos, embora com diferenças resultantes de lutarem em diferentes condições e terem diferentes percursos e história.
Inversamente muitas derrotas resultaram do facto de partidos se terem afastado dos ideais comunistas. Da ligação viva com a classe operária e as massas populares. Da sua natureza e independência política e ideológica de classe. Dos seus objetivos revolucionários. Do patrimônio histórico da luta. Da sua identidade que diferencia um partido comunista dos outros partidos. Seguindo tais caminhos, alguns partidos acabaram por dissolver-se ou converter-se noutra "coisa". Outros, evoluindo nesse sentido, absorvem-se em conflitualidades internas susceptíveis de conduzir a rupturas.
Neste findar do século XX, tal como quando foi proclamado o Manifesto Comunista, tanto a luta por objetivos a curto e a médio prazo, como a luta pelo socialismo, continuam a não poder dispensar partidos comunistas, com este ou outro nome, mas convictos e confiantes nos traços essenciais da sua identidade.
Concretamente: A natureza e política de classe. A ligação à classe operária e às vastas massas populares. A defesa dos seus interesses e direitos. O objectivo da construção da sociedade socialista. A firmeza ideológica. A solidariedade internacionalista tendo como raiz o internacionalismo proletário. E também respeito pela verdade, convicção, confiança e coragem.
Leia-se ou releia-se o Manifesto Comunista. Passe-se em revista, sem ideias feitas nem preconceitos, a história dos 150 anos decorridos. Não se apresente como novo o que já é velho e revelho nem se diga ser velho o que é historicamente novo. Não se insista em proclamar que morreu o que está vivo e que viverá para sempre um sistema social já historicamente condenado. A história indica e a vida mostrará que o futuro não pertence ao capitalismo mas ao socialismo e ao comunismo.
Não é por insistência dogmática, mas porque a vida o comprovou nos 150 anos decorridos desde o Manifesto Comunista, que se afirma a validade e atualidade de princípios essenciais.
8. Não foi apenas a escolha de um nome, mas uma declaração programática, ter sido editado o Manifesto Comunista com o título de Manifesto do Partido Comunista.
O projeto, não só de luta com objetivos a curto e médio prazo, mas de superação do capitalismo e de construção do socialismo continha, como um elemento central, a existência e acção não só de um novo partido, mas de um partido novo.
Um partido independente dos interesses, dos objetivos, da ideologia das forças do capital. Um partido da classe operária, como sublinhou Engels, "constituído, não como a cauda de qualquer partido burguês, mas sim como partido independente, que tem o seu próprio objectivo, a sua própria política".
Grandes e pequenas vitórias da causa comunista, a capacidade de resistência às mais violentas perseguições, pressões e tentativas de liquidação, devem-se à existência de partidos assim concebidos, embora com diferenças resultantes de lutarem em diferentes condições e terem diferentes percursos e história.
Inversamente muitas derrotas resultaram do facto de partidos se terem afastado dos ideais comunistas. Da ligação viva com a classe operária e as massas populares. Da sua natureza e independência política e ideológica de classe. Dos seus objetivos revolucionários. Do patrimônio histórico da luta. Da sua identidade que diferencia um partido comunista dos outros partidos. Seguindo tais caminhos, alguns partidos acabaram por dissolver-se ou converter-se noutra "coisa". Outros, evoluindo nesse sentido, absorvem-se em conflitualidades internas susceptíveis de conduzir a rupturas.
Neste findar do século XX, tal como quando foi proclamado o Manifesto Comunista, tanto a luta por objetivos a curto e a médio prazo, como a luta pelo socialismo, continuam a não poder dispensar partidos comunistas, com este ou outro nome, mas convictos e confiantes nos traços essenciais da sua identidade.
Concretamente: A natureza e política de classe. A ligação à classe operária e às vastas massas populares. A defesa dos seus interesses e direitos. O objectivo da construção da sociedade socialista. A firmeza ideológica. A solidariedade internacionalista tendo como raiz o internacionalismo proletário. E também respeito pela verdade, convicção, confiança e coragem.
Leia-se ou releia-se o Manifesto Comunista. Passe-se em revista, sem ideias feitas nem preconceitos, a história dos 150 anos decorridos. Não se apresente como novo o que já é velho e revelho nem se diga ser velho o que é historicamente novo. Não se insista em proclamar que morreu o que está vivo e que viverá para sempre um sistema social já historicamente condenado. A história indica e a vida mostrará que o futuro não pertence ao capitalismo mas ao socialismo e ao comunismo.
http://www.novacultura.info/
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Samuel Wainer escancara as relações entre a “grande” imprensa no Brasil e as empreiteiras
(Samuel Wainer diante das rotativas de seu jornal)
O jornalista Samuel Wainer (1910-1980) foi, para quem não conhece a sua trajetória, um dos maiores jornalistas do país. Judeu do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, de origem humilde, conseguiu construir seu próprio jornal, o Última Hora, um diário de perfil popular que logo conquistaria tiragens gigantescas, ameaçando o poderio da meia dúzia de famílias que detém o controle da imprensa em nosso país. Claro que os coronéis midiáticos não iriam permitir que um joão-ninguém roubasse seu público, e patrocinaram a destruição do império jornalístico fundado por Wainer com o apoio de Getúlio Vargas.
Compara-se muito atualmente a caçada a Lula à perseguição a Getúlio e a Juscelino Kubitschek. Pois eu encontro mais paralelos entre a história da Última Hora/Samuel Wainer e a do PT/Lula: o jornal de um outsider que tenta, para sobreviver, fazer o mesmo que os outros meios de comunicação fazem, ou seja, conseguir dinheiro junto às grandes fortunas brasileiras, ao governo e às empreiteiras. Os demais jornais podiam (e podem) fazer isso. A Última Hora e Wainer, não. O mesmo aconteceu com o PT e Lula: tentaram fazer parte de um clube que não os aceitava como sócios. Obviamente estão sendo expulsos agora. Samuel Wainer e a Última Hora foram investigados, assim como Lula e o PT, enquanto os outros jornais/partidos seguem inimputáveis.
Mas quando foi que começou essa promiscuidade entre as empreiteiras e os políticos? Não é verdade que foi a partir da ditadura militar. Segundo conta Samuel Wainer em sua autobiografia, Minha Razão de Viver, estas relações remontam à década de 1950, e contaram com a cumplicidade explícita dos meios de comunicação. A coisa funcionava assim: os donos de jornais atuavam como representantes das empreiteiras, a garantia de que o serviço prestado seria pago. Chantageavam o governo para que utilizasse tal empreiteira em determinada obra; se não o fizesse, passaria a ser atacado pelo veículo em questão. Se cedesse, o dono do jornal ganhava da empreiteira 10% sobre o valor orçado para a obra. Ora, ora, e nós pensando que foram os políticos que inventaram a propina…
O empreiteiro era, segundo Wainer, “uma figura essencial aos interessados em decifrar os segredos do jogo do poder no Brasil”. E continua sendo… A única diferença é que, em vez da relação direta que tinham com os donos dos jornais, o dinheiro foi providencialmente “limpo”: passaram a ser anunciantes. Ainda hoje as grandes construtoras figuram entre os que mais publicam anúncios na imprensa –só perdem para o governo, que tragédia. Será que se a Lava-Jato fosse uma operação séria estes elos poderiam ser melhor revelados? Difícil acreditar, quando a operação Zelotes, que originalmente foi criada para investigar um escândalo de sonegação de impostos que envolvia meios de comunicação, acabou tendo como único foco o ex-presidente Lula e seus familiares…
Samuel Wainer também fala das benesses que os empresários de comunicação obtinham do governo federal, como a isenção fiscal e a facilidade para a importação de papel-jornal e maquinários –sem contar os anúncios. Quando o PSDB ocupava a presidência não era muito diferente. Em 1999, o BNDES, um banco público, se tornou SÓCIO da Globo Cabo (4,8% de participação). Em 2002, ainda no governo FHC, o BNDES injetou 284 milhões de reais, em valores da época, na emissora. Obviamente o presidente FHC não iria faltar à inauguração do reluzente novo parque gráfico dos Marinho.
Em 2003, já no governo Lula, os jornais tentaram conseguir junto ao BNDES um novo empréstimo, desta vez em conjunto, para salvar sua situação financeira. O empréstimo não foi concedido. Quando eu vejo a pressão da imprensa pela volta dos tucanos ao poder, fico pensando: não haveria aí algum interesse financeiro? Se o PSDB voltar ao poder, haverá um Proer da mídia? Me parece meio óbvio.
Fiquem com Samuel Wainer e o trecho de Minha Razão de Viver em que fala sobre as relações promíscuas dos donos da imprensa com as empreiteiras.
***
A imprensa e as empreiteiras
Por Samuel Wainer*
Ainda nos anos 50, a imprensa brasileira tinha como anunciantes, basicamente, pequenos comerciantes –a indústria nacional não alcançara sua maioridade, e tampouco havia grupos financeiros de grande porte. Como os recursos obtidos com as vendas em bancas e assinaturas eram insuficientes, os meios de comunicação precisavam valer-se de outras fontes de renda, utilizando como moeda de troca seu peso junto à opinião pública. Graças a esse trunfo, os barões da imprensa sempre mantiveram relações especiais com o governo, que tanto lhes prestava favores diretos como beneficiava seus amigos –amigos que sabiam retribuir a ajuda recebida.
Para assegurar o apoio dos meios de comunicação, ou ao menos evitar que lhe fizessem oposição frontal, o governo contemplava jornais e revistas com isenções fiscais, dólar subsidiado, facilidades para a importação de papel, eventualmente anúncios. Poucos ministros ousavam rechaçar reivindicações formuladas por homens como Assis Chateaubriand (dos Diários Associados) ou Paulo Bittencourt(do extinto Correio da Manhã) e destinadas a favorecer terceiros. Na Primeira República, muitos jornais prosperaram como agentes dos interesses dos exportadores de café. Nos anos 50, os barões do café foram substituídos pelos grandes empreiteiros. Especialmente nos anos JK, quando começou a era das obras portentosas, os empresários do ramo compreenderam que valia a pena contar com jornais amigos. Com a cumplicidade da imprensa, seria sempre mais fácil, também, receber do governo –um mau pagador crônico– o dinheiro a que tinham direito pelas obras executadas. Feitas tais constatações, logo se forjaram sociedades semiclandestinas bastante rentáveis.
Assis Chateaubriand, por exemplo, costumava procurar pessoalmente ministros de Estado, ou mesmo o presidente da República, para solicitar que um trecho de determinada obra –uma rodovia, uma hidrelétrica– fosse entregue a esta ou àquela construtora. Ficava claro que, se o pleito não fosse atendido, a ira do jornal desabaria sobre o autor da recusa. Era melhor, portanto, atender ao pedido. Feito o acerto, as empreiteiras premiadas presenteavam o emissário com 10% do total da quantia orçada para a obra. Geralmente, essa porcentagem resultava em cifras milionárias. Gorjetas adicionais pagavam outros favores prestados pelos donos de jornais e revistas, um dos quais era impedir atrasos no pagamento. Ministros mais prestativos, dispostos a liberar com agilidade as verbas devidas, mereciam rasgados elogios em editoriais e reportagens. Já os que protelavam pagamentos caíam em desgraça e recebiam ataques duríssimos. De quebra, os meios de comunicação faziam vista grossa para a irresponsabilidade das empreiteiras, que utilizavam material de segunda ordem, fraudavam cálculos e montavam orçamentos fictícios.
Esse tráfico de influências tornou-se particularmente intenso no governo de Juscelino Kubitschek, durante o qual se consolidaram fortunas imensas. Um dos principais beneficiários desse período foi Marco Paulo Rabello, de quem se dizia, sem provas concretas, que era sócio de JK. O presidente entregou a tarefa de construir Brasília a Rabello, que pôde distribuir entre outras empresas as obras de cuja execução não poderia encarregar-se –era muita coisa para um único empreiteiro. Só a construção de Brasília já bastaria para assegurar a alegria de dezenas de homens do ramo, mas houve mais. A rodovia Belém-Brasília, por exemplo. Também os governos estaduais incharam os cofres de algumas empreiteiras, às quais devotavam franca e suspeita simpatia, com a encomenda de projetos de âmbito regional mas também milionários.
A presença dos empreiteiros na cena política brasileira é ainda fortíssima. Eles seguem interferindo na nomeação de ministros que agirão nas áreas incluídas em seu universo de interesses, financiando partidos e candidatos, elegendo deputados e senadores, influenciando a linha editorial de jornais e revistas. Negócios desse tipo não costumam deixar rastros, mas é fácil deduzir que nestes últimos anos foram captados dessa forma alguns bilhões, repartidos entre empreiteiros e seus sócios na imprensa. Sempre que algum negócio me beneficiava, o dinheiro era integralmente aplicado na Última Hora –nunca quis nada para mim. Meus colegas pensavam de modo diferente: eles colocavam nos próprios bolsos as verbas recebidas, jamais cogitaram de aplicá-las nas empresas que dirigiam. Assim enriqueceram muitos barões da imprensa brasileira.
*Trecho do livro Minha Razão de Viver, de Samuel Wainer. Organização e edição de textos Augusto Nunes. Editora Planeta, 2010, 370 págs. O livro pode ser encontrado em edição digital na Amazon ou no sebo Estante Virtual.
Samuel Wainer e a imprensa corrupta
Por Cynara Menezes, no blog Socialista Morena:
O jornalista Samuel Wainer (1910-1980) foi, para quem não conhece a sua trajetória, um dos maiores jornalistas do país. Judeu do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, de origem humilde, conseguiu construir seu próprio jornal, o Última Hora, um diário de perfil popular que logo conquistaria tiragens gigantescas, ameaçando o poderio da meia dúzia de famílias que detém o controle da imprensa em nosso país. Claro que os coronéis midiáticos não iriam permitir que um joão-ninguém roubasse seu público, e patrocinaram a destruição do império jornalístico fundado por Wainer com o apoio de Getúlio Vargas.
Compara-se muito atualmente a caçada a Lula à perseguição a Getúlio e a Juscelino Kubitschek. Pois eu encontro mais paralelos entre a história da Última Hora/Samuel Wainer e a do PT/Lula: o jornal de um outsider que tenta, para sobreviver, fazer o mesmo que os outros meios de comunicação fazem, ou seja, conseguir dinheiro junto às grandes fortunas brasileiras, ao governo e às empreiteiras. Os demais jornais podiam (e podem) fazer isso. A Última Hora e Wainer, não. O mesmo aconteceu com o PT e Lula: tentaram fazer parte de um clube que não os aceitava como sócios. Obviamente estão sendo expulsos agora. Samuel Wainer e a Última Hora foram investigados, assim como Lula e o PT, enquanto os outros jornais/partidos seguem inimputáveis.
Mas quando foi que começou essa promiscuidade entre as empreiteiras e os políticos? Não é verdade que foi a partir da ditadura militar. Segundo conta Samuel Wainer em sua autobiografia, Minha Razão de Viver, estas relações remontam à década de 1950, e contaram com a cumplicidade explícita dos meios de comunicação. A coisa funcionava assim: os donos de jornais atuavam como representantes das empreiteiras, a garantia de que o serviço prestado seria pago. Chantageavam o governo para que utilizasse tal empreiteira em determinada obra; se não o fizesse, passaria a ser atacado pelo veículo em questão. Se cedesse, o dono do jornal ganhava da empreiteira 10% sobre o valor orçado para a obra. Ora, ora, e nós pensando que foram os políticos que inventaram a propina…
O empreiteiro era, segundo Wainer, “uma figura essencial aos interessados em decifrar os segredos do jogo do poder no Brasil”. E continua sendo… A única diferença é que, em vez da relação direta que tinham com os donos dos jornais, o dinheiro foi providencialmente “limpo”: passaram a ser anunciantes. Ainda hoje as grandes construtoras figuram entre os que mais publicam anúncios na imprensa –só perdem para o governo, que tragédia. Será que se a Lava-Jato fosse uma operação séria estes elos poderiam ser melhor revelados? Difícil acreditar, quando a operação Zelotes, que originalmente foi criada para investigar um escândalo de sonegação de impostos que envolvia meios de comunicação, acabou tendo como único foco o ex-presidente Lula e seus familiares…
Samuel Wainer também fala das benesses que os empresários de comunicação obtinham do governo federal, como a isenção fiscal e a facilidade para a importação de papel-jornal e maquinários – sem contar os anúncios. Quando o PSDB ocupava a presidência não era muito diferente. Em 1999, o BNDES, um banco público, se tornou SÓCIO da Globo Cabo (4,8% de participação). Em 2002, ainda no governo FHC, o BNDES injetou 284 milhões de reais, em valores da época, na emissora. Obviamente o presidente FHC não iria faltar à inauguração do reluzente novo parque gráfico dos Marinho.
Em 2003, já no governo Lula, os jornais tentaram conseguir junto ao BNDES um novo empréstimo, desta vez em conjunto, para salvar sua situação financeira. O empréstimo não foi concedido. Quando eu vejo a pressão da imprensa pela volta dos tucanos ao poder, fico pensando: não haveria aí algum interesse financeiro? Se o PSDB voltar ao poder, haverá um Proer da mídia? Me parece meio óbvio.
Fiquem com Samuel Wainer e o trecho de Minha Razão de Viver em que fala sobre as relações promíscuas dos donos da imprensa com as empreiteiras.
*****
A imprensa e as empreiteiras
Por Samuel Wainer*
Ainda nos anos 50, a imprensa brasileira tinha como anunciantes, basicamente, pequenos comerciantes –a indústria nacional não alcançara sua maioridade, e tampouco havia grupos financeiros de grande porte. Como os recursos obtidos com as vendas em bancas e assinaturas eram insuficientes, os meios de comunicação precisavam valer-se de outras fontes de renda, utilizando como moeda de troca seu peso junto à opinião pública. Graças a esse trunfo, os barões da imprensa sempre mantiveram relações especiais com o governo, que tanto lhes prestava favores diretos como beneficiava seus amigos –amigos que sabiam retribuir a ajuda recebida.
Para assegurar o apoio dos meios de comunicação, ou ao menos evitar que lhe fizessem oposição frontal, o governo contemplava jornais e revistas com isenções fiscais, dólar subsidiado, facilidades para a importação de papel, eventualmente anúncios. Poucos ministros ousavam rechaçar reivindicações formuladas por homens como Assis Chateaubriand (dos Diários Associados) ou Paulo Bittencourt(do extinto Correio da Manhã) e destinadas a favorecer terceiros. Na Primeira República, muitos jornais prosperaram como agentes dos interesses dos exportadores de café. Nos anos 50, os barões do café foram substituídos pelos grandes empreiteiros. Especialmente nos anos JK, quando começou a era das obras portentosas, os empresários do ramo compreenderam que valia a pena contar com jornais amigos. Com a cumplicidade da imprensa, seria sempre mais fácil, também, receber do governo –um mau pagador crônico– o dinheiro a que tinham direito pelas obras executadas. Feitas tais constatações, logo se forjaram sociedades semiclandestinas bastante rentáveis.
Assis Chateaubriand, por exemplo, costumava procurar pessoalmente ministros de Estado, ou mesmo o presidente da República, para solicitar que um trecho de determinada obra –uma rodovia, uma hidrelétrica– fosse entregue a esta ou àquela construtora. Ficava claro que, se o pleito não fosse atendido, a ira do jornal desabaria sobre o autor da recusa. Era melhor, portanto, atender ao pedido. Feito o acerto, as empreiteiras premiadas presenteavam o emissário com 10% do total da quantia orçada para a obra. Geralmente, essa porcentagem resultava em cifras milionárias. Gorjetas adicionais pagavam outros favores prestados pelos donos de jornais e revistas, um dos quais era impedir atrasos no pagamento. Ministros mais prestativos, dispostos a liberar com agilidade as verbas devidas, mereciam rasgados elogios em editoriais e reportagens. Já os que protelavam pagamentos caíam em desgraça e recebiam ataques duríssimos. De quebra, os meios de comunicação faziam vista grossa para a irresponsabilidade das empreiteiras, que utilizavam material de segunda ordem, fraudavam cálculos e montavam orçamentos fictícios.
Esse tráfico de influências tornou-se particularmente intenso no governo de Juscelino Kubitschek, durante o qual se consolidaram fortunas imensas. Um dos principais beneficiários desse período foi Marco Paulo Rabello, de quem se dizia, sem provas concretas, que era sócio de JK. O presidente entregou a tarefa de construir Brasília a Rabello, que pôde distribuir entre outras empresas as obras de cuja execução não poderia encarregar-se –era muita coisa para um único empreiteiro. Só a construção de Brasília já bastaria para assegurar a alegria de dezenas de homens do ramo, mas houve mais. A rodovia Belém-Brasília, por exemplo. Também os governos estaduais incharam os cofres de algumas empreiteiras, às quais devotavam franca e suspeita simpatia, com a encomenda de projetos de âmbito regional mas também milionários.
A presença dos empreiteiros na cena política brasileira é ainda fortíssima. Eles seguem interferindo na nomeação de ministros que agirão nas áreas incluídas em seu universo de interesses, financiando partidos e candidatos, elegendo deputados e senadores, influenciando a linha editorial de jornais e revistas. Negócios desse tipo não costumam deixar rastros, mas é fácil deduzir que nestes últimos anos foram captados dessa forma alguns bilhões, repartidos entre empreiteiros e seus sócios na imprensa. Sempre que algum negócio me beneficiava, o dinheiro era integralmente aplicado na Última Hora –nunca quis nada para mim. Meus colegas pensavam de modo diferente: eles colocavam nos próprios bolsos as verbas recebidas, jamais cogitaram de aplicá-las nas empresas que dirigiam. Assim enriqueceram muitos barões da imprensa brasileira.
* Trecho do livro Minha Razão de Viver, de Samuel Wainer. Organização e edição de textos Augusto Nunes. Editora Planeta, 2010, 370 págs. O livro pode ser encontrado em edição digital na Amazon ou no sebo Estante Virtual.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
MULTINACIONAIS SEMPRE COBIÇARAM NOSSO PETRÓLEO. AGORA ATACAM A PETROBRÁS, PARA DESTRUÍ-LA
General do Exercito do Brasil Estilac Leal, dizia na década de 50 do seculo passado, quanto as pretensões da Standard Oil (EUA) dos Rockefeller. São suas palavras: “Já disse e repito solenemente que quem entrega o seu petróleo aliena a sua própria independência. O petróleo não pode escapar ao controle econômico do Estado, para que não se comprometa a nossa soberania política”
O que Sanders tem a dizer ao PT e à classe média brasileira?
Nada é mais central na luta política brasileira nesse momento do que posicionar-se em relação ao massacre do qual Lula é o alvo explícito.
Está longe de ser o único, porém.
Enganam-se tragicamente os que pensarem assim.
Lula é uma ponte simbólica -- e estratégica.
Está longe de ser o único, porém.
Enganam-se tragicamente os que pensarem assim.
Lula é uma ponte simbólica -- e estratégica.
Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas médias no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme os jovens nas periferias
Sua densidade histórica deriva do último grande ciclo de ascensão de massas no Brasil, iniciado com os levantes operários do ABC paulista, no final dos anos 70, seguido da campanha das Diretas, da Constituinte Cidadã e de quatro vitórias presidenciais progressistas na sétima maior economia do mundo.
Nas quatro letras que formam o seu nome junta-se o denso caudal da esperança na construção de um Brasil socialmente convergente e libertário, a erigir uma democracia social no coração da América Latina, em pleno século 21.
Desnecessário sublinhar a irradiação contagiante que um marco bem sucedido dessa natureza traria à luta pelo desenvolvimento nos quatro cantos do planeta.
Desnecessário reiterar a ferocidade dos interesses contrariados por essa possibilidade.
A singularidade da trajetória do ex-metalúrgico, o alcance de sua palavra, a credibilidade que carrega condensam, assim, um potencial transformador inestimável, e ao mesmo tempo, temido.
No momento em que a mais longa crise mundial do capitalismo desde 1929 impõe a repactuação das bases do desenvolvimento, a exigir um novo degrau de democratização da economia e da sociedade, é preciso lixiviar a possibilidade de que esse potencial, (na verdade nunca inteiramente exercido), estabeleça um novo estirão progressista na história brasileira.
Tudo isso que Lula traz grudado na pele, a irradiar perigosa mistura de precedente, otimismo e encorajamento social é o alvo efetivo da mira conservadora que o picota diuturnamente.
Vive-se uma contagem regressiva golpista.
O que se espera agora é que um personagem do rodapé da história se apresente ao desfrute conservador, de avental e machado na mão, a fremir nas ventas a disposição de desfechar o gesto final.
São esses burros de carga das encomendas superiores que cuidam também das manchetes sulfurosas nesse momento.
Suspeitos canteiros de acelga, canoas e pedalinhos de cisne em pesqueiro frequentado por Lula, em Atibaia, compõem o cerne de sua passagem pela história.
Que um jornalista como Clóvis Rossi, da Folha, tenha dado ao ‘complexo de Atibaia’ o epíteto de ‘um luxo’, evidencia a cooptação feroz dos espíritos pelo cuore conservador.
Com suas contradições de carne e osso, Lula é a costela de pirarucu atravessada na garganta conservadora brasileira. Trata-se da ponte mais extensa a conectar o rico e diversificado campo progressista às camadas mais amplas e sofridas da população.
Não é preciso endossar cada passo e ato do ciclo que elevou em 70% o poder de compra do salário mínimo e retirou 40 milhões de brasileiros da miséria para entender o porquê da convergência que agora avança inescrupulosamente para desloca-lo do imaginário social para um prontuário policial.
Consumada a operação, a restauração neoliberal está contratada para 2018, não importa quem seja o seu portador. Até um material político da qualidade de um José Serra torna-se competitivo nessas condições.
Exatamente por estar em disputa uma nova hegemonia e não uma simples dança das cadeiras dentro de uma mesma época histórica, a defesa daquilo que Lula representa não pode mais ser apenas retrospectiva.
É preciso dizer o que o seu potencial político tem a propor ao passo seguinte do país.
Dize-lo, sobretudo, à base social que o sustenta.
Mas não só.
Entre outras lacunas políticas na trajetória recente da esquerda brasileira, há uma que cobra cada vez mais alto uma resposta desassombrada, que de certa forma condicionará a eficácia das demais.
O que o campo progressista tem a dizer ao segmento mais numeroso da classe média, hoje, como sempre, o principal substrato do preconceito, da desinformação e da incerteza, manipulados para servir de base à agenda do golpismo neoliberal?
O sucesso ou o fracasso dessa resposta condicionará em grande medida o desfecho do braço de ferro que, inicialmente, o conservadorismo tentou resolver com o impeachment; e agora admite decidir nas urnas de 2018, desde que consiga trancar Lula fora da cédula.
Não existe ‘uma classe média única’.
Sob esse guarda-chuva sociológico reúne-se uma vasta gama de renda intermediária, da qual faz parte também uma elite integralmente identificada com os interesses dominantes da sociedade.
Não é desse pedaço do Brasil que se trata aqui.
Mas dos anseios de um amplo contingente de assalariados, profissionais liberais e funcionários públicos, cevados com doses maciças de medo e incerteza pela cooptação conservadora.
Inclui-se aí um pedaço significativo da juventude que vivencia na rua e no bolso o estreitamento do espaço de ascensão que seus pais desfrutaram --ou imaginaram desfrutar um dia, mas que o capitalismo rentista não mais propiciará.
Não é um gargalo criado pelo ‘lulopetismo’, como diz a propaganda das falanges dentro e fora da mídia.
É um estreitamento estrutural dos canais de mobilidade no capitalismo globalizado.
Nele, o emprego estável, de qualidade e bem remunerado sucumbiu, desde a base industrial minguante, até o setor de serviços expandido, configurando-se um novo normal de vagas abastardadas pela provisoriedade, a supressão de direitos e o achatamento real dos salários.
Um dado resume todos os demais: a modalidade atual de emprego que mais cresce na Inglaterra sob o domínio conservador é a que reduz o trabalhador a um insumo igual a qualquer matéria-prima. Só requisitada do ‘depósito’ (o mercado) quando a demanda assim o exige, ela receberá apenas e somente o equivalente ao tempo durante o qual seu cérebro e músculos forem diretamente consumidos pela engrenagem produtiva.
Isso não impede, na verdade guarda estreita funcionalidade com o fastígio da riqueza na ponta financeira do sistema.
Quase 2,5 milhões de crianças vivendo na antessala da pobreza absoluta na terceira maior economia europeia, compõe a síntese desse paradoxo semeado por Pinochet e Thatcher desde os anos 70/80, cuja essência consiste em libertar o capitalismo de seus contrapesos regulatórios de natureza econômica, política e social.
Deu-se o que se traduz nesse momento em um desconcertante avanço da desigualdade em escala global.
Um de seus vórtices foi exaustivamente documentado por Thomas Piketty: a riqueza financeira não apenas cresce sempre à frente, mas em contraposição à expansão real da renda per capita.
Em sua cristalização mais recente, a gosma inutilizou o sonho sistêmico do way of life na qual a classe média saboreou waffles com creme de mobilidade social, do pós-guerra até meados dos anos 70.
O protocolo da meritocracia perdeu sentido.
Nenhum critério uniforme de avaliação é justo quando a igualdade de oportunidades inexiste.
Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas de renda média no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme a existência dos jovens nas periferias conflagradas.
Questões básicas como o atendimento à saúde, a qualidade do ensino, a segurança e a moradia, o emprego, o custo de criar um filho sem sistemas públicos eficientes, o amparo à velhice dos pais mas também o anseio por dignidade, reconhecimento e convivência pública, assumem o peso crescente de uma centralidade política carente de respostas.
Nenhum agrupamento progressista logrou de fato traduzir esse mal-estar social do capitalismo financeiro em um projeto capaz de transformar os desfavorecidos de toda a sociedade em um novo sujeito histórico.
A extrema direita navega com razoável sucesso e competência nesse vácuo, como mostra os Le Pen, na França, o Tea Party, nos EUA, e uma ampla gama de fascistas em ascensão nos países nórdicos e do leste europeu.
A radicalização conservadora da classe média brasileira –localmente temperada pelo fermento golpista— reflete em certa medida esse mesmo caldo de cultura.
O fantasma da espiral descendente é o seu leme.
Escola pública de qualidade, transporte barato e eficiente, moradias sociais, saúde pública de reconhecida competência formaram no pós-guerra europeu um substrato de estabilidade, capaz de afastar assalariados e classe média das tentações totalitárias que a incerteza atual enseja.
O ganho de produtividade subtraído aos salários em nome da eficiência industrial era compensado pela rede de proteção coletiva, ancorada em uma tributação mais justa de todo espectro da riqueza.
A inexistência desse horizonte empurra o subconsciente da classe média a uma disjuntiva: aderir ao apartheid explícito ou regredir.
Sem falar a essa encruzilhada dos setores de renda média, será cada vez mais difícil a uma sigla progressista romper o cerco ideológico que a impede de ser ouvida pelo conjunto da sociedade.
O crescimento contagiante da candidatura do social democrata Bernie Sanders, nos EUA, que disputa com Hillary Clinton a indicação dos democratas à corrida presidencial, traz um sopro de esperança a essa equação.
O fenômeno Sanders consiste em falar aos ‘desiguais’ com uma mesma proposta: uma sociedade de serviços públicos dignos e eficientes para todos.
Os mais pobres, naturalmente.
Cerca de 47 milhões de pessoas encontram-se nessa categoria nos EUA -- uma em cada cinco crianças, no país mais rico da terra.
Mas não só a eles.
A classe média espremida pela hipoteca, o desemprego, a descrença no futuro, o desamparo diante da velhice, a humilhação familiar e individual passou também a prestar atenção as suas palavras.
Sobretudo, os seus filhos.
Nas prévias dos democratas em Iowa, Sanders teve nada menos que 84% dos votos na faixa dos eleitores entre 17 e 29 anos.
Um ponto fora da curva?
Tudo indica que não.
A juventude ‘apática’, ‘apolítica’, ‘desligada dos partidos’, ‘indiferente aos velhos paradigmas de direita e esquerda’, como diz a sociologia conveniente de Marina Silva & FHC, que se atirou agora de corpo e alma na campanha de Sanders, é irmã histórica daquela que no ano passado, com igual entusiasmo, deu o comando do trabalhismo britânico a um velho socialista, Jeremy Corbyn
Todo o planeta pulsa a saturação da mais lenta, errática e incerta recuperação de todas as crises vividas pelo capitalismo do século XX até agora.
Desafios econômicos, sociais, ambientais e sanitários – a exemplo do aquecimento global e do zika vírus agora no Brasil— cobrarão cada vez mais respostas cuja eficácia técnica terá que repousar na repactuação política das formas de viver e de produzir, e contar com indispensável mobilização da sociedade.
Nada mais distante disso do que o fermento de preconceito, ódio de classe e desmonte do aparato público com o qual a restauração neoliberal pretende pavimentar a sua volta ao poder no Brasil.
O medo egoísta da classe média é o seu veículo.
Quem acha que não há nada a fazer sob o domínio do capitalismo desregulado do século 21, e pretende insistir no celofane da indiferenciação programática, abraçando reformas que o mercado exige, deveria atentar para o discurso simples e ao mesmo tempo empolgante de um sexagenário social-democrata norte-americano.
http://cartamaior.com.br/
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