domingo, 20 de janeiro de 2013

Amigos dos EUA matam 83 na Universidade de Alepo



A Federação Nacional dos Estudantes Sírios qualificou o atentado de “ato bárbaro que expõe a natureza agressora e obscurantista do terrorismo que EUA apoia e tenta fazer prevalecer na pátria Síria”
No dia 15, um dos prédios de dormitórios da Universidade de Alepo foi atingido por disparos de mísseis. A morte de 83 pessoas, com ainda 160 feridos, foi o resultado da agressão. Uma parte do prédio ficou destruída.
O governo sírio pediu que o Conselho de Segurança da ONU condene o atentado e os terroristas que o praticaram.
Alepo é a mais importante cidade síria nas proximidades da fronteira turca. A cidade tem sido palco de combates entre os bandos armados pela CIA e financiados por governos satélites dos EUA no Oriente Médio e o exército sírio.
Após o avanço das tropas governamentais, foi decidida a reabertura da Universidade que já funciona desde outubro.
O momento do ataque foi no primeiro dia de aulas do corrente ano letivo. Os estudantes que ocupam os prédios dormitórios, entraram em acordo com a administração da universidade e parte dos apartamentos foi cedida para desabrigados que perderam moradias por conta de outros atentados terroristas.
Os bandos armados, através do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, porta-voz dos mesmos, com sede em Londres, declarou que o bombardeio proveio da aviação síria. Já não é a primeira vez que os terroristas a serviço da CIA usam este expediente para tentar incompatibilizar o governo com o povo sírio.
Desta vez passaram dos limites, a mentira não tem como colar. Como podem sustentar que o governo que ousou desafiar os mesmos bandos, reabrindo a universidade, que usou o espaço para abrigar sírios atingidos pela agressão, atacassem um prédio em território liberado dos agressores, teria atirado contra prédio localizado no setor da cidade que ocupam após um esforço grande para liberar este mesmo setor?
Como seria possível ao governo assumir um desgaste interno desta monta em um momento em que o presidente acaba de reiterar o chamado a todas as correntes políticas a avançar no debate para uma solução política para a crise e tem divulgado a iniciativa até a exaustão para demonstrar seu real intento de governar com todo o povo sírio?
Como destacou o ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov, "declarações tentando imputar às forças governamentais sírias a responsabilidade pelas mortes na Universidade de Alepo é repulsiva e inescrupulosa".
"Eu vi na CNN que estão dizendo isso do governo sírio. Não consigo imaginar conversa mais sem nexo e repulsiva que esta", enfatizou Lavrov.
Para a chancelaria russa "o atentado é uma sangrenta provocação e um ato de retaliação com grandes perdas inflingidas a estudantes devido a grandes perdas inflingidas aos bandos armados nos seus enfrentamentos com o Exército Sírio".
A Federação Nacional dos Estudantes Sírios (FNES) denunciou "o ato bárbaro".
"Os crimes do terrorismo que os EUA buscam introduzir em nossa Pátria Síria não nos intimidam os estudantes sírios e sim lhes darão mais força frentes aos inaceitáveis projetos estadunidenses e sionistas para continuar em seus estudos com vistas a edificar o futuro da Síria".
A FNES qualificou o atentado de barbárie que "expõe a natureza agressora e obscurantista dos que o praticaram".
O Sindicato dos Professores condenou o atentado destacando também que "este ato criminoso reflete as tendências desumanas dos terroristas".
"Os autores mostraram que querem eliminar a civilização e a ciência sírias, porem esta luz não se apagará e os nossos jovens a manterão acesa nas universidades do país", ressaltou o departamento estudantil do Partido Nacionalista Social Sírio na Universidade de Damasco.
O Sindicato dos Engenheiros da Síria fez uma emocionada proclamação destacando que "os inimigos da Síria não poderão extinguir a chama de luz com a qual os jovens iluminam a nossa terra até os céus".
"Não vão comprometer nosso futuro nem conseguirão afogar a Síria no pântano da ignorância ao atentarem contra os destemidos estudantes ".
NATHANIEL BRAIA
http://www.horadopovo.com.br/

Não houve um tostão de dinheiro público no suposto mensalão


Data venia, o STF errou de fio a pavio

Fundo Visanet sempre foi privado, os serviços pagos foram todos feitos e possuem comprovantes de realização
A acusação principal que norteou o julgamento da Ação Penal 470, de que houve desvio de recursos públicos para a compra de votos por parte de uma suposta “quadrilha” chefiada por José Dirceu, é totalmente falsa. Estudo detalhado do jornalista Raimundo Pereira, publicado na revista “Retratos do Brasil”, mostrou que juízes do STF sabiam disso e decidiram seguir com a farsa do “mensalão”. Documentos, frutos de auditorias feitas pelo BB, constantes nos autos, provam cabalmente que os recursos usados pela Visanet não eram dinheiro público e nem foram desviados. Em seu volume 25, parte1, item 7 da auditoria, está registrado de forma clara que “o Fundo de Incentivo Visanet (FIV) foi criado em 2001 com recursos disponibilizados pela CBMP para promover, no Brasil, a marca Visa”.

Farsa do mensalão: Estudo prova que não houve 

desvio algum no BB 

Roberto Gurgel e Joaquim Barbosa desprezaram provas mostrando que recursos eram da multinacional Visanet   
A acusação principal que norteou o julgamento da Ação Penal 470 - de que houve desvio de recursos públicos para a compra de votos por parte de uma suposta "quadrilha" chefiada por José Dirceu - é totalmente falsa. Estudo detalhado do jornalista Raimundo Pereira, publicado na revista "Retratos do Brasil", mostrou que os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) sabiam disso e decidiram seguir com a farsa do "mensalão".
Documentos, frutos de auditorias feitas pelo Banco do Brasil, constantes nos autos, provavam que os recursos usados pela Visanet - multinacional com sede nos EUA - para incentivar o uso de cartões de crédito no Brasil, e que teriam sido desviados, não eram dinheiro público e nem foram desviados. Não é sem razão que os advogados dos réus da AP 470 argumentaram incisivamente que os juízes não estavam atentando para os autos do processo. Eles foram enrolados pela estória da carochinha contra o PT, montada por Roberto Gurgel, procurador-geral da República, e Joaquim Barbosa, atual presidente do STF e relator da AP 470, para atender aos planos golpistas da mídia e da oposição.
Mas, justiça seja feita, o primeiro a preparar o roteiro para a farsa foi Gilmar Mendes. Foi dele a encenação principal, na sessão de 29 de agosto, defendendo a "tese central" do desvio do dinheiro público. É só lembrar o dramalhão montado por ele neste dia: "Este julgamento tratará da transferência de recursos públicos por meio da Companhia Brasileira de Meios de Pagamento (CBMP)", disse. "(…) Todos nós tivemos alguma relação com esta notável instituição que é o Banco do Brasil. Certamente ficamos perplexos. Quando nós vemos que, em curtíssimas operações, em operações singelas, se tiram desta instituição R$ 73 milhões, sabendo que não era para fazer serviço algum...", prosseguiu Gilmar Mendes, olhando fixamente para as câmaras de TV num ar de estupefação teatral. Expressão que faltou a ele quando expediu dois habeas corpus na calada da noite, e em menos de 48 horas, para libertar o notório Daniel Dantas.
O centro da argumentação de Mendes, abraçada e desenvolvida por Joaquim Barbosa, era de que os empréstimos do PT junto ao Banco Rural e o BMG não existiram. Foram operações falsas. Os recursos que teriam sido usados para a suposta compra de votos no Congresso Nacional, na verdade, originaram-se, não nos empréstimos - que segundo eles não existiram -, mas do desvio dos recursos do Banco do Brasil. Os procuradores Antônio Fernando de Souza e, depois, Roberto Gurgel, sabiam que essa tese era falsa, mas ocultaram as informações, que estavam nas auditorias do BB, constantes dos autos, e que desmentiam esta versão.
O delegado da Polícia Federal, Luiz Flávio Zampronha, acionado à época da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios, para investigar as possíveis fontes dos recursos movimentados por Marcos Valério, tinha chegado à conclusão de que os empréstimos do PT foram verdadeiros e foram usados para despesas de caixa dois de campanha. Concluiu também que os recursos do Visanet não eram recursos públicos. Estranhamente, depois de uma entrevista, onde ele informou as conclusões de suas investigações, seu relatório não foi incluído nos autos da AP 470.
Um outro relatório, produzido por uma auditoria interna do Banco do Brasil, que faz parte dos autos, é claríssimo sobre a origem privada dos recursos movimentados por Marcos Valério. Em seu volume 25, parte1, item 7 da dita auditoria, está registrado de forma cristalina que "o Fundo de Incentivo Visanet (FIV) foi criado em 2001 com recursos disponibilizados pela Companhia Brasileira de Meios de Pagamento (CBMP) para promover, no Brasil, a marca Visa, o uso de cartões com a bandeira Visa e maior faturamento da Visanet".
Ou seja, documentos contidos nos autos revelam que mesmo o capital inicial do fundo pertencia à CBMP-Visanet e não ao Banco do Brasil. O item citado do relatório diz ainda que esse fundo "é administrado por um comitê gestor - composto pelo diretor-presidente, diretor-financeiro e diretor de marketing da Visanet". A conclusão é obvia: se as despesas "são pagas diretamente pela Visanet", após "aprovações técnicas e financeiras" do "comitê gestor da Visanet", os recursos para a promoção dos cartões da Visanet não saíram e nem poderiam sair dos cofres do Banco do Brasil.
Até mesmo o Tribunal de Contas da União (TCU) já havia se posicionado, em janeiro de 2012, de que o dinheiro da Visanet não era público e que as operações do BB eram legais. A partir de relatório preparado pela ministra Ana Arraes, cujo voto foi acompanhado pelos demais ministros, o órgão concluiu pela legalidade da atuação do Banco do Brasil. De acordo com o plenário do TCU, os contratos seguiram o padrão de normalidade do Banco do Brasil e não diferiam dos que foram fechados com outras agências de publicidade. A decisão, suspensa a pedido do Ministério Público, não foi alterada em nenhum momento pelo colegiado do TCU. Mas o STF não levou isso em conta.
Aliás, a reportagem de Raimundo Pereira mostra que o STF não levou em conta também vários outros fatos. Como, por exemplo, o de que os recursos da Visanet (R$ 73 milhões) foram totalmente usados para pagamento de serviços de propaganda da empresa. As provas, desprezadas por Barbosa, desmentem a outra parte de sua versão: a de que os serviços da DNA Propaganda não foram realizados.
SÉRGIO CRUZ
http://www.horadopovo.com.br/



Pobreza e desigualdade caem no Brasil


Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

No início do ano, a mídia e os partidos de oposição ao governo Dilma pareceram tentar apelar a uma segunda estratégia no âmbito da guerra que desencadearam a partir, vá lá, do segundo ano do governo Lula (2004).

O desempenho modesto do PIB no ano passado e uma suposta “crise de abastecimento de energia elétrica” que culminaria em “racionamento” se associaram a outros factóides menores, induzindo estrangeiros que não conhecem o Brasil a imaginarem que o país está em ruínas.

Para tanto, matérias recentes de veículos da imprensa escrita britânica como The Economist e Financial Times, baseadas no noticiário da grande mídia tupiniquim sobre a nossa economia – e à revelia dos problemas sociais e econômicos ingleses, que aumentam sem parar –, colaboraram para essa visão absurdamente equivocada sobre o Brasil.

Supostos “especialistas” em economia dos quais Globo, Folha de São Paulo, Estadão e Veja lançam mão toda vez em que tentam convencer o Brasil e o mundo de que nossa economia está sendo mal gerida parecem ter apostado em que teriam sucesso simplesmente descrevendo uma realidade que o povo brasileiro não enxerga e não sente.

O fato é que o Brasil, do ponto de vista de seu povo, vai muito bem, obrigado, como disse o insuspeito colunista de Folha e O Globo Elio Gaspari, que, recentemente, espantou-se com o fato de que o sistema bancário brasileiro absorveu “uma Argentina” em número de novos correntistas.

Esse, porém, é apenas um dos sintomas – talvez o mais tênue – do espantoso êxito de nossas políticas econômica e social. O aumento exponencial dos negócios dos bancos é uma medida oriunda de uma ótica mercantilista da qual a grande imprensa oposicionista brasileira padece.

Os melhores indicadores para o sucesso que os governos do Brasil obtiveram de 2004 para cá no sentido de melhorar as condições de vida no país está expresso justamente em dois indicadores para os quais a direita midiática não dá a menor bola: pobreza e desigualdade.

E, para terminarmos de mensurar esse sucesso, basta comparar a situação social brasileira com a dos países ricos no âmbito de uma crise econômica internacional que vem sendo considerada por dez entre dez analistas econômicos como a maior da história.

Entre janeiro de 2011 e janeiro de 2012, a pobreza no Brasil caiu 7,9% e a desigualdade de renda continua caindo, conforme constatação da pesquisa De Volta ao País do Futuro, da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada em meados do ano passado.

Segundo o coordenador da pesquisa, Marcelo Neri, a queda dessas chagas sociais ocorre em ritmo três vezes maior do que o sugerido pelas metas do Milênio das Nações Unidas (ONU). “O Brasil está na contramão de sua história pregressa e da de outros países emergentes e desenvolvidos”, asseverou o pesquisador.

De 2003 para cá, já são cerca de 40 milhões de pessoas (como diz Elio Gaspari, “Uma Argentina”) que subiram acima da linha da pobreza, passando a integrar o conjunto da sociedade com acesso ao sistema bancário, ao consumo e à educação.

Em 2012, o Brasil deve ter um dos seus mais baixos índices de desemprego da história, cerca de 5%, o que pode ser considerado, praticamente, como pleno emprego, se levarmos em consideração que a pesquisa do IBGE sobre emprego e renda desconsidera o trabalho informal.

Mas para mensurarmos o quanto o Brasil “Vai muito bem, obrigado”, basta olharmos para o que acontece no coração e pátria do capitalismo, os Estados Unidos, onde a pobreza não para de aumentar, ou mesmo na Europa, onde as condições de vida superam largamente a dos americanos.

A pobreza e a desigualdade de renda vêm crescendo assustadoramente nos Estados Unidos. 47 milhões de americanos, ou 15% da população do país, mergulharam abaixo da linha da pobreza.

Uma das evidências mais impressionantes desse processo é a versão americana das nossas favelas, comunidades formadas por barracas de camping que estão se espalhando como fogo pelos Estados Unidos, sendo vistas em mais de 50 cidades por todo o país.

No século XXI, o número de pobres nos Estados Unidos subiu 47%. Nos últimos quatro anos, aumentou em 60% o número de cidadãos daquele país que recorreram a programas sociais, um dos quais o tão criticado (pela mídia brasileira) Bolsa Família, que passou a ser adotado pelo governo Barack Obama, ainda que de forma meio cosmética…

Na Europa central, o quadro não é tão melhor. A taxa de desemprego na região é de 10,4%, ou 24 milhões de cidadãos da zona do euro. Os jovens são os mais atingidos, respondendo por 22,1% do total de desempregados.

As dívidas dos governos europeus também não param de subir. Na zona do euro, chegam a 87,4% do PIB, enquanto que, no Brasil, os débitos do governo passam um pouco de 30%. E cerca de um quarto dos europeus mergulhou em risco de pobreza, que só faz crescer ano a ano na região.

Um dado impressionante: pesquisa realizada pelo pesquisador britânico Danny Dorlling, da Universidade de Sheffield, mostrou que a desigualdade de renda na Inglaterra voltou ao que era em 1918.

Enquanto isso, entre 2011 e 2012, no Brasil, a distância entre os mais ricos e os mais pobres continuou caindo. O índice de Gini, no período, caiu de 0,53 para 0,51. No início do governo Lula, era de 0,589, após ter ficado praticamente igual ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso.

Nesse contexto, os esforços da oposição formal e da informal (mídia) ao governo Dilma para tentarem convencer os brasileiros de que “o país vai muito mal, obrigado”, só podiam dar nisso: tanto o governo quanto sua titular batem seguidos recordes de popularidade.

Merval, o exterminador do passado


Por Gilson Caroni Filho

É difícil dizer o que mais impressiona: se a grande imprensa ter perdido a importância que detinha até os anos 1990 - quando ainda tinha relativa influência no cenário político -, ou a desfaçatez com que seus jornalistas, amadurecidos no tapa na arte de reescrever a história, sonegam dados e fatos, Rei dos instrumentos, por sua extraordinária capacidade de reproduzir os sons orquestrais do reacionarismo brasileiro, realizando recitais a pedidos do Instituto Millenium, Merval Pereira personifica a figura paradigmática do teclado da grande mídia corporativa.

Em 9/1/2013, declarou ele em sua coluna de O Globo que "a imprevidência dos governos petistas no setor energético acabou por neutralizar as críticas feitas à época do apagão de FHC."O PT tanto politizou o racionamento de energia ocorrido no Brasil em 2001 que passou a não ter direito de adotá-lo em caso de necessidade, como pode vir a ser o caso proximamente. O problema é que a presidente Dilma, quando ministra, garantiu que o que não ocorrerá mais no Brasil é racionamento de energia, chamando o episódio de “barbeiragem”. 

O que Merval, aquele que tanto preza a tese do "domínio do fato" quando se trata de legitimar simulacros de julgamento no STF, faz em sua coluna é submeter, por ação e omissão, os fatos aos desígnios dos que promoveram o festim neoliberal no país durante oito anos. Se até o início dos anos 1990, o Brasil dispunha de um sistema energético limpo, renovável, barato, capaz de estocar combustível para cinco anos, apto a transferir grandes blocos de energia do Sul para o Norte, do Nordeste para o Sudeste, gerenciando de forma integrada bacias hidrográficas fisicamente distantes milhares de quilômetros, a partir da fronda tucana, tudo isso se desfez. 

Ao contrário do que afirma o imortal por encomenda da família Marinho, não só o PT tem plenas condições de continuar criticando a estratégia político-econômica que tanto fragilizou o estado e a economia brasileira, como podemos atribuir o termo "barbeiragem" a uma incompreensível benevolência da presidente aos que se deixaram levar pelo canto das sereias que habitam os mercados financeiros.

Desde o consórcio demotucano, bloquearam-se os investimentos em expansão do setor de geração de energia. Primeiro em nome do combate à inflação, depois apostando numa chuva de dinheiro decorrente das privatizações e na elasticidade (real) do sistema hidrelétrico. O descaso, é sempre bom lembrar, andou de braços dados no governo incensado pelo prolixo colunista de O Globo.

Adílson de Oliveira e Edmar de Almeida, professores da UFRJ, em artigo publicado no boletim Petróleo de Gás(abril de 2001) lembravam que a capacidade instalada tinha aumentado apenas 25,3% nos últimos seis anos, enquanto o consumo de energia elétrica cresceu 31,3%, no mesmo período. A defasagem, decorrente de investimentos aquém da necessidade foi, por algum tempo, suprida com o uso da água acumulada nos reservatórios.

Ambos alertavam para a situação especialmente grave no Sudeste e Nordeste, onde os níveis estavam abaixo de 35% da capacidade total. O racionamento anunciado era resultado de uma política deliberada: entregar a infraestrutura aos "agentes privados" que nunca ganharam tanto, tão fácil e tão rápido em tão pouco tempo. Como não politizar essa ida ao pote com tanta sede de lucro?

Como ignorar a gravidade da situação? Os reservatórios foram imprudentemente baixados a um nível tão crítico que, como alertou à época o professor Antônio Dias Leite, ex-ministro das Minas e Energia, "não seria possível seu reenchimento em um ano, mesmo que chovesse muito".

Cortar em 20% o consumo como o governo havia decidido, além de deteriorar a qualidade de vida da população, acarretaria a redução do crescimento, desorganização da cadeia produtiva e desemprego. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) projetava que um racionamento de energia para residências em 15% por seis meses e 22% para as empresas provocaria uma perda de R$ 15 bilhões na produção de bens e serviços além da perda de 17 mil postos de trabalho.

Onde estavam Merval, Cantanhede, Noblat, Miriam Leitão e Ricardo Noblat, entre tantos outros milicianos das redações partidarizadas? Por que nunca questionaram o que viam? Diante da imprevidência dos banqueiros, o governo de FHC criou o Proer, pagando a conta dessa imprevidência. Com relação à questão energética, por que os consumidores teriam que pagar pela incúria da gestão tucana? E, pior, pagariam duas vezes para que as concessionárias, tal como estava nos contratos, não tivessem prejuízos.

Por que os jornalões não contam a história toda? O motivo é simples. A partir do momento em que optou por fazer as vezes da direita – ou até assumir papéis e funções que caberiam aos seus partidos - a grande imprensa passou a ter que blindar o passado. Assim como faz com Serra, Aécio, Álvaro Dias e outros aliados/colaboradores. Frustradas, até agora, as tentativas de ressuscitar eleitoralmente o tucanato esfacelado, cabe às antigas oficinas de consenso exterminar o passado.

Parafraseando Shakespeare, com a pobreza típica das paráfrases, só resta dizer: "ambivalência, teu nome é redação partidarizada".

Os EUA e o direito de matar


Por Mauro Santayana, em seu blog:

O Presidente Barack Obama se nega a informar em que dispositivo da Constituição se ampara para ordenar o assassinato de cidadãos norte-americanos. Seu concidadão, Vicki Divoll, ex-assessor do Senado para as questões de segurança e ex-consultor jurídico da CIA, em título de artigo publicado ontem pela edição online do New York Times, faz-lhe a pergunta direta: Presidente, quem lhe disse que o Senhor pode matar americanos?

O autor cita três casos conhecidos de cidadãos americanos assassinados no Exterior, sob a ordem direta de Obama: Anwar al-Awlaki, um clérigo muçulmano, nascido no Novo México; Samir Khan, naturalizado norte-americano e Abdulrahman al-Awlaki, de 16 anos, natural do Colorado, sobrinho do clérigo Anwar. Podem argumentar que todos têm nomes árabes. Árabes são o nome e o sobrenome também do Presidente. Esses são os casos conhecidos, mas há outros, certamente.

Há dias, Obama sancionou lei do Congresso, autorizando o monitoramento de todos os cidadãos estrangeiros que se tornem suspeitos de atividades contra o seu país. Como se sabe, pelo que ocorreu a bin-Laden e a outros, os norte-americanos se arrogam o direito de não só vigiar, mas de matar, fora das operações de guerra declarada, qualquer cidadão estrangeiro, em qualquer lugar do mundo, em nome de sua segurança. O lema do governo dos Estados Unidos passa a ser, assim, o de Vigiar e Matar.

Essa arrogante postura de juiz universal, com o poder de vida e de morte, tem acompanhado os Estados Unidos desde os seus primeiros anos, embora haja, ali, os que a combatam. Sem ir muito longe, no passado, é de se lembrar o assassinato de Augusto César Sandino, o grande herói do povo da Nicarágua, por ordem de Washington. O crime foi cometido por Anastásio Somoza, que se tornou ditador e legou o país aos dois filhos. A dinastia acabou com o movimento revolucionário que tem o nome do próprio Sandino.

Divolli, em seu texto, argumenta que essas ordens de Obama, se levadas ao exame dos tribunais, serão declaradas inconstitucionais. O Presidente pode declarar a guerra, ad-referendum do Congresso, mas não pode mandar matar ninguém em particular – e em nenhum lugar, dentro ou fora dos Estados Unidos. O poder executivo não é um órgão da Justiça.

O assassinato de Bin-Laden, assistido – e aplaudido – ao vivo, da Casa Branca, pelo Presidente e sua equipe mais restrita, foi, além de um crime, pela execução em si mesma, de um homem não condenado por tribunal competente, manifestação insolente de arrogância imperial, na violação da soberania do Paquistão. Se os norte-americanos se debruçarem no exame da História, irão descobrir que os ventos da desforra custam a se organizar no horizonte, mas, uma vez reunidos, são mais devastadores do que os tornados e tsunamis.

No Mali, não há uma guerra do bem contra o mal



Não aceitem a narrativa frequentemente empurrada pela mídia ocidental sobre o Mali, que estereotipa aquilo que se considera o mal assim como faz com a brutal guerra civil imposta na Síria. No Mali, até há pouco o governo nacional perseguia e matava os islâmicos que agora se voltam contra ele. Além disso, muitos dos revoltosos são os tuaregues expulsos da Líbia pós-Kaddafi. A análise é de Owen Jones, do jornal ‘The Independent’




Sem qualquer controle, sem debate, sem votação parlamentar, sem nenhuma sutileza. A Grã-Bretanha está agora envolvida em mais um conflito militar em um país muçulmano, fiquem sabendo. Aeronaves britânicas estão voando rumo ao Mali, enquanto a França bombardeia o país, argumentando que a milícia islâmica malinesa poderia criar um “estado terrorista” que ameaçaria a Europa. A Anistia Internacional e especialistas da África Ocidental alertam para o potencial desastre da intervenção militar estrangeira, mas as bombas “chovendo” nas cidades malinesas de Konna, Léré e Douentza sugerem que eles foram definitivamente ignorados.

A agonia no Mali surgiu apenas atualmente em nossas manchetes, mas as raízes são antigas. Como as outras potências coloniais ocidentais que invadiram e conquistaram a África a partir do século 19, a França usou táticas de dividir para reinar no Mali, levando a amargura entrincheirada entre os povos nômades Tuaregues – a base da revolta atual – e outras comunidades do Mali.

Para alguns ocidentais, este é um passado distante que deve ser ignorado, não remexido, e certamente não será usado para impedir nobres intervenções, mas as consequências ainda são sentidas diariamente. Inicialmente, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, sugeriu que o legado colonial descartaria uma intervenção liderada pela França, mas pode se dizer que o envolvimento direto francês ocorreu de forma muito mais rápida do que o esperado.

É que esta intervenção é, na verdade, consequência de outra. A guerra da Líbia é frequentemente apontada como uma história de sucesso para o intervencionismo liberal. No entanto, a queda da ditadura de Muammar Kaddafi teve consequências que os serviços de inteligência ocidentais provavelmente nunca sequer se preocuparam em imaginar. Tuaregues – que tradicionalmente vieram do norte do Mali – compunham grande parte do exército de Kaddafi. Quando o ditador foi expulso do poder, eles voltaram para sua terra natal: às vezes à força. Do mesmo modo, negros africanos foram atacados no pós-Kaddafi na Líbia, um fato incômodo amplamente ignorado pela mídia ocidental.

Inundados com armas da Líbia em tumulto, tuaregues viram uma abertura para seu sonho de longa data rumo à autodeterminação nacional. Com a propagação de uma rebelião, o democraticamente eleito presidente malinês Amadou Toumani Touré foi deposto em um golpe militar e o exército manteve a sua dominação – apesar de permitir que um governo civil lidere a transição para tomar o poder.

Pode não haver certamente simpatia pela milícia agora em luta contra o governo do Mali. Originalmente, eram os nacionalistas seculares do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad que lideravam a revolta, mas eles já foram deixados de lado por jihadistas islâmicos com uma velocidade que chocou os analistas estrangeiros. Em vez de alcançar a independência tuaregue, eles têm ambições muito mais amplas, ligando-se a grupos semelhantes do norte do Nigéria. A Anistia Internacional relata atrocidades horrendas: amputações, violência sexual, o uso de crianças-soldado, e desenfreadas execuções extrajudiciais.

Mas não caiam em uma narrativa tão frequentemente empurrada pela mídia ocidental, que estereotipa aquilo que se considera o mal, assim como temos visto a brutal guerra civil imposta na Síria. A Anistia relata brutalidades por parte das forças do governo de Mali, também. Quando o conflito originalmente explodiu, tuaregues foram presos, torturados, bombardeados e mortos pelas forças de segurança, “aparentemente, apenas por motivos étnicos", diz a Anistia. Em julho passado, 80 presos detidos pelo exército foram despojados de suas roupas íntimas, encarcerados em uma cela de 5m², cigarros foram queimados em seus corpos, e eles foram obrigados a sodomizar um ao outro. Já em setembro de 2012, 16 pregadores muçulmanos pertencentes ao grupo Dawa foram presos em um posto de controle e sumariamente executados pelo exército. Estes são atos cometidos por aqueles que agora são nossos aliados.

Quando o Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade, abriu o caminho para a força militar ser usada, especialistas fizeram avisos claros e que ainda devem ser ouvidos. O International Crisis Group pediu foco em uma solução diplomática para restaurar a estabilidade, argumentando que a intervenção poderia exacerbar um conflito étnico crescente. A Anistia advertiu que "uma intervenção armada internacional pode aumentar a escala de violações dos direitos humanos que já estamos vendo neste conflito". Paul Rogers, professor de estudos de paz na Bradford University argumentou que as guerras passadas mostram que "uma vez iniciadas, elas podem tomar direções alarmantes, ter resultados muito destrutivos, e muitas vezes aumentar os próprios movimentos que se destinam a combater".

É concebível que esta intervenção pode – por um tempo – atingir seus objetivos de empurrar as milícias islâmicas e reforçar o governo do Mali. Mas a guerra da Líbia foi vista como um sucesso, também, e aqui estamos agora, envolvidos com a seu efeito bumerangue catastrófico. No Afeganistão, as forças ocidentais permanecem engajadas em uma guerra sem fim, que já ajudaram a desestabilizar o Paquistão, levando a ataques que mataram centenas de civis e desencadeando mais caos. O preço das intervenções ocidentais pode muitas vezes ser ignorado pelos nossos meios de comunicação, mas ainda é pago.

A intervenção ocidental liderada pela França, apoiada pela Grã-Bretanha e com possíveis ataques dos norte-americanos, sem dúvida, estimula a narrativa promovida pelos grupos radicais islâmicos. Como aponta o professor Rogers, a ação no Mali vai ser retratada como "mais um exemplo de um ataque contra o Islã". Com o alcance rápido e moderno da comunicação, grupos radicais na África Ocidental usarão esta escalada de guerra como prova de outra frente aberta contra os muçulmanos.

É preocupante – para dizer o mínimo – como o primeiro-ministro britânico, David Cameron, conduziu a Grã-Bretanha no conflito do Mali, sem sequer uma pretensão de consulta. As tropas não serão enviadas, nos é dito, mas o termo "planejamento deficiente" existe por uma razão: é uma escalada que certamente poderia provocar maior envolvimento britânico. O Ocidente tem um histórico terrível de alinhar-se com o mais duvidoso dos aliados: o lado que escolheram está longe dos direitos humanos que democratas os democratas amam.

Mas as consequências podem ser mais profundas. Além de espalhar caos pela região, a França já mapeou seus alvos que podem ser atingidos por terroristas, e o mesmo podem acontecer com seus aliados. É uma responsabilidade de todos nós questionar o que nossos governos estão fazendo em nossos nomes. Se não aprendermos com o que ocorreu no Iraque, Afeganistão e Líbia, então não haverá esperança.

* Owen Jones é colunista do jornal britânico The Independent. Siga-o em twitter.com/@owenjones84
http://www.cartamaior.com.br

sábado, 19 de janeiro de 2013

A herança da casa-grande


Por Mino Carta, na revista CartaCapital:

Não quero que os ricos chorem, dizia o líder do PSD sueco, Olof Palme, quero é que os pobres riam. Palme, social-democrata autêntico, foi primeiro-ministro e crente denodado da igualdade social. Sublinho autêntico para que não seja confundido com nossos social-democratas de fancaria.

Palme, assassinado por um demente, é um herói de outro tempo, quando a religião do deus mercado ainda não vingara, dois impérios dividiam a terra e as esquerdas da Europa Ocidental contribuíam de forma determinante para o progresso dos seus povos. Não existiam oligarquias financeiras para mandar mais que os governos nacionais e anátemas eram lançados contra o chamado “capitalismo selvagem”.

É do conhecimento até do mundo mineral que a crise dos dias de hoje foi deflagrada pela aplicação dos mandamentos neoliberais, que ela não poupa o Brasil e que os remédios aviados até agora pelos governos do ex-Primeiro Mundo mostram-se incapazes de combater a origem do mal. Quando não cuidam, abertamente, de proteger quem provocou o desastre, e mesmo de fortalecer-lhe o poder.

Vivemos o tempo dos super-ricos e dos superpobres. A diferença entre uns e outros tornou-se voragem infinda, abismo sem fundo. O Brasil também conta com seus super-ricos, arrolados nas listas anualmente propostas ao espanto global. Esta privilegiadíssima tigrada dispõe de fortunas calculáveis em bilhões e não é fácil entender como se deu esta frenética, desenfreada multiplicação de dinheiro, enquanto bilhões de seres humanos morrem de fome.

Sem pretender parafrasear Olof Palme, eu diria que os super-ricos me incomodam muito menos do que os aspirantes a super-ricos. Medram no Brasil, em diversos patamares da escada social, burgueses e burguesotes de diversos calibres. Classes A e B1, digamos, sem excluir de pronto os anseios recônditos de inúmeros remediados. Pergunto: que ricões, ricos, riquinhos e sonhadores de riqueza são estes?

Algo é certo: não se trata dos burgueses que fizeram a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Do meu modesto ponto de vista, anoto que classe média tem um significado no Brasil e outro em diversos cantos do globo. Claro, existem parâmetros econômicos para medições precisas, embora pareça dilatada demais a separação entre limites mínimo e máximo fixados no Brasil para figurar na categoria.

Coube à burguesia acabar com as monarquias por direito divino e selar de certa forma, e de vez, o fim da antiguidade medieval. A classe média europeia é uma larga maioria que incorporou e alargou os horizontes burgueses, em termos de cultura no sentido mais amplo. Nada disso se aplica ao Brasil, onde a casa-grande e a senzala, ou se quiserem, os sobrados e os mocambos, continuam de pé, ao sabor de uma aparente contemporaneidade que não lhes abranda os efeitos.

A ostentação do luxo é típica de uma herança resistente na ausência de saber e verdadeiro refinamento, dramaticamente compensados por atitudes toscas e mesmo vulgares. Há exceções, mas não passam disto. Não é por acaso que o Brasil conta com um exército de mais de 7 milhões de empregados domésticos. Recorde mundial estabelecido quando há décadas este gênero de serviçal é cada vez mais raro nos países democraticamente evoluídos. E nem se fale de manobristas, passeadores de cachorros, babás. E assim por diante.

E que dizer da segurança privada, dos soturnos senhores de terno escuro e gravata, escalados para a proteção de patrões em trajes esporte fino, eventualmente de bermudas? Há, mundo afora, senhores graúdos que não dispensam guarda-costas, capangas, jagunços. Não é simples distinguir, porém, quem manda de quem obedece, e este não se perfila à porta de prédios e mansões, de lojas de comércio retumbante ou de restaurantes hoje habilitados a figurar entre os mais caros do planeta.

Sim, o país do futuro é estranhamente obsoleto e continua a pagar caro por três séculos e meio de escravidão.

As prioridades dos donos do mundo


Por Frei Betto, no jornal Brasil de Fato:


Parem o mundo que eu quero descer! Os donos do planeta enlouqueceram ou não entendo bem o que propõem?

De 22 a 27 de janeiro, o Fórum Econômico Mundial de Davos, na bucólica Suíça, reunirá empresários, banqueiros e outros donos do dinheiro que parecem não dar a mínima para a crise econômica na Europa (18 milhões de desempregados!). É compreensível, hoje recursos públicos salvam bancos privados!
Os donos do mundo centram suas atenções no que qualificam de Fatores X – questões que os respeitáveis senhores e senhoras consideram prioritárias e que, se não forem encaradas com seriedade, podem desestabilizar a atual “ordem” mundial. 

O relatório anual sobre os riscos globais, publicado duas semanas antes do encontro de Davos, teve colaboração da revista científica Nature na análise dos Fatores X:

Vamos a eles. 
O primeiro, a possível descoberta de que há vida inteligente fora desse nosso planetinha desgraçadamente afetado pelas ambições do capital. 
Com o ritmo da exploração do espaço nas últimas décadas - diz o documento preparatório de Davos -, é possível considerar que a humanidade pode descobrir vida em outros planetas. A maior preocupação seria sobre os efeitos nos investimentos em ciência, e a própria imagem do ser humano. 
Supondo que seja encontrado um novo lar em potencial para a humanidade ou a existência de vida em nosso sistema solar, a pesquisa científica teria que deslocar grandes investimentos para a robótica e missões espaciais. Além disso, as implicações filosóficas e psicológicas da descoberta de vida extraterrestre seriam profundas, desafiando crenças das religiões e da filosofia humana. Por meio de educação e campanhas de alerta, o público poderia se preparar melhor para as consequências desse processo, sugere o fórum.
No início de 2013, dados coletados pelo observatório espacial Kepler, monitorado pela Nasa, indicam que só a nossa galáxia, a Via Láctea - com pelo menos 100 bilhões de estrelas ou sóis -, teria 17 bilhões de planetas rochosos, com tamanho entre 0,8 a 1,2 o da Terra. Pode ser que um ou mais estejam orbitando suas estrelas à distância adequada para o surgimento de vida. 
Atrás dessa retórica “humanista” se esconde o projeto de loteamento do Cosmo. Haja fome de lucros! Eu, que sou crédulo, acredito em vida extraterrestre. Creio mesmo que nossos vizinhos já se aproximaram, mas ao captar nossas emissões televisivas concluíram que na Terra não há vida inteligente.
O segundo Fator X é o avanço cognitivo do cérebro humano pelo uso de estimulantes. 
Segundo o documento de Davos, há o temor de que no futuro as pessoas abusem da tecnociência, que permite turbinar o desempenho no trabalho e nos estudos. A química fará de nós robôs ultraeficientes.
O esforço dos cientistas para tratar doenças como Alzheimer ou esquizofrenia leva a crer que, no futuro não muito distante, pesquisadores identificarão substâncias que permitam melhorar os estimulantes de hoje, como a Ritalina. Apesar de prescritos a pessoas com doenças neurológicas, esses remédios seriam usados no dia a dia.

O avanço poderia também vir de hardwares, diz o relatório. Estudos mostram que a estimulação elétrica pode favorecer a memória. Diante disso, seria ético aceitar o mundo dividido entre os que tiveram oportunidade de ter a parte cognitiva reforçada e os que não tiveram?, indaga o documento. Haveria, ainda, o risco de esse avanço dar errado. 
O terceiro Fator X, o uso descontrolado de tecnologias para conter as mudanças climáticas, que acabariam afetando ainda mais o equilíbrio ecológico. Apesar de as ameaças de mudanças climáticas serem conhecidas, o relatório também indaga se já passamos de um ponto dramático de não retorno. Dados indicam que nosso planeta já perdeu ao menos 30% de sua capacidade de autorregeneração. 
O quarto, os custos dos seres humanos viverem muito mais tempo, após a idade laboral. Os países não têm se preparado para os altos custos que a velhice, hoje qualificada de terceira idade, implica, e com a massa de pessoas que sofrerão de doenças como artrite e demências. A medicina do século XX avançou muito nas descobertas relativas às doenças genéticas, decifrando o genoma humano. São esperados ainda mais avanços no tratamento de doenças do coração e do câncer. 
O documento preocupa-se com o impacto na sociedade de uma camada da população que conseguirá prever e, portanto, evitar as causas mais comuns de morte hoje, mas com deterioração da qualidade de vida. Velhos longevos, ociosos e dependentes. Mais pesquisas seriam necessárias para encontrar soluções para essas condições, hoje consideradas crônicas.
Por trás de tudo isso, um objetivo prioritário desses senhores e senhoras: onde investir nosso dinheiro, de modo a multiplicá-lo tanto quanto as estrelas do céu e as areias das praias e do mar...

Brizola desmascarou a grande mídia



    ]

Carlos Alberto Kolecza

Em sua última grande batalha, Brizola desvendou a cumplicidade da grande mídia no boicote ao desenvolvimento com justiça social e soberania nacional – Ele não pôde levar adiante os objetivos do trabalhismo mas legou um ensinamento de valor insuperável na compreensão do papel dos meios de comunicação na consumação do apartheid social e na submissão do país aos grupos transnacionais – A grande mídia empregou contra Brizola a mesma discriminação com que as elites tentam perpetuar a exclusão social – Ele será reconhecido como patrono da luta pela democratização da informação, pela clarividência das lições e coragem com que enfrentou a máquina da mentira.

“O poder econômico consegue envolver os meios de comunicação, que são livres apenas em algumas faixas e agem como empresários dos homens de negócios. A imprensa atua claramente como um rolo compressor e transforma-se num partido único, como no caso do apoio à leiloagem do patrimônio público. Não querem discutir nada, sempre de cabeça feita, e são muito hábeis em desenvolver a intriga. Precisamos libertar a imprensa brasileira do domínio econômico”.
Leonel Brizola

Nenhum político ou pensador foi tão fundo quanto Leonel Brizola no desvendamento do papel da grande mídia na perpetuação da desigualdade social e da dependência do Brasil. Publicamente, ninguém antes apontou os conglomerados do jornal, rádio e TV, as revistas semanais e grandes jornais isolados, como uma corporação que ilegitimamente condiciona o jogo político e a ação dos governos. Ensinou com exemplos irrefutáveis que a grande mídia optou por exercer o controle social em vez de informar. Percebeu a estranha coincidência das movimentações unilaterais e monolíticas dos órgãos de imprensa ocorrerem em momentos cruciais para a distribuição de renda e o interesse nacional. Denunciou a chantagem das campanhas de desestabilização dos governos e a irresponsabilidade dos barões da mídia com a democracia e a coesão social.

A grande mídia renunciou à sua função específica de serviço de interesse público – acusou Brizola – para ser a ponta de lança de um centro oculto de poder de produção de exclusão social. Nesse consórcio de poder à margem das instituições – deduziu – a cota da grande mídia corresponde à produção de exclusão da informação. Brizola repetiu a denúncia de deturpação da finalidade essencial dos meios de comunicação por anos a fio, ante inúmeras platéias, sem ser contestado uma única vez. Em revide truculento e obscurantista, característica peculiar de quem mutila a informação, a grande mídia partiu maciçamente para o enxovalhamento político e pessoal, com o objetivo de expurgar Brizola da vida pública. De perigoso à ordem pública antes de 64, Brizola virou inimigo da ordem econômica. Os espasmos de desordem social já esguichavam sangue, na década de 80, e fazia falta um vilão de plantão. 

O difícil era enfiar alguém de integridade inatacável e lucidez esplendorosa na moldura de inimigo público. Inabalável nas convicções e consciente de suas responsabilidades, Brizola atribuiu o desinteresse da grande mídia pelo desenvolvimento do país à vinculação das elites econômicas tradicionais a grupos de fora, em relação típica dos tempos de Brasil Colônia. Suas advertências foram proféticas: a grande mídia arrombou por dentro os portões dos setores estratégicos da economia, como sócia privilegiada das privatizações.
Um caso de crime,
assassinato moral.

Brizola sabia que pagaria caro por desnudar a verdadeira função da grande mídia, de sentinela dos privilégios causadores da desigualdade. A abominação de sua imagem, antes e depois de 64, figura entre os capítulos mais sórdidos da imprensa brasileira.

Rotular de equívoco pueril o enfrentamento com as Organizações Globo é afronta à história de Brizola, indício de escapismo ou de cumplicidade com seus detratores. Brizola focalizava na Rede Globo, hegemônica em audiência e por extensão na intromissão em assuntos da política e do governo, o paradigma de distorção de uma atividade comprometida exclusivamente com o bem comum. Não livrava outras redes nem poupava emissora, jornal ou revista não pertencentes aos conglomerados multimídia. Costumava comparar rádios e TVs às empresas de ônibus – igualmente uma concessão pública – que são proibidas de recusar passageiros por suas crenças políticas ou religiosas. Exatamente o contrário da seleção de assuntos e pessoas (censura, na verdade) pela grande mídia.

Nenhuma lei outorga a uma empresa de comunicação ou a um jornalista individualmente o direito de destruir a imagem pública de alguém. Os tratadistas contemporâneos tipificam esse crime como assassinato moral.

O confronto com Roberto Marinho, então o homem mais poderoso do Brasil, diante de quem presidentes e ministros se prostravam reverentes, não foi episódio isolado ou temporão na carreira de Brizola. Inconformado com a discriminação dos jornais tradicionais ao trabalhismo, na década de 50, ele funda em Porto Alegre um vespertino (Clarim) afinado com sua visão modernizadora das relações sociais. Aprendera já nessa época que os grandes jornais não se importam com a estagnação econômica de um estado ou do país desde que elejam os candidatos conservadores. 

Descobre também que a resistência à industrialização enruste uma tara social, a fobia ao trabalhador. Às voltas com a oposição da Igreja e do latifúndio, inclui a mentalidade conservadora do Correio do Povo, o mais influente jornal gaúcho da época, entre os
fatores do marasmo econômico do estado. Responde às críticas falando por duas horas, ao estilo pé de ouvido, em programa semanal de rádio de grande audiência.

Cooptadora-mor de políticos para o campo conservador em troca de visibilidade midiática, não seria a Globo que docilizaria o pensamento de Brizola. Esperar que se resignasse seria o mesmo que aconselhá-lo a acatar o veto dos generais a João Goulart, após a renúncia de Jânio, sob a alegação de que não dispunha de tanques e aviões.

O erro de Brizola foi acreditar na solidariedade das forças progressistas e da intelectualidade. Não se deu conta que há muito poucos se atrevem, em público, a dizer não à Rede Globo. Ele foi supliciado midiaticamente como líder, governante e chefe de família, sem que uma voz se levantasse em sua defesa.

Políticos, intelectuais e empresários haviam aprendido, desde o regime militar, a não questionar as posições do centro obscuro de poder que se expressa por meio da Rede Globo. Brizola não foi a única vítima do jogo sujo da grande mídia nem será a última, mas com ele não havia complacência.

A redemocratização da informação “esqueceu-se” de acontecer no retorno dos civis ao poder e quase 30 anos depois a grande mídia opera a censura por conta própria nos mesmos moldes do regime militar.

Brizola não cutucou a onça com vara curta, ela foi rugir nos portões do Palácio Guanabara na versão mais sofisticada da elite boçal originada do tráfico de escravos, que ainda proíbe empregados no elevador social. A mesma elite que ainda responsabiliza Brizola pela explosão de violência no Rio aprovou silenciosamente a gratificação genocida a policiais a cada morte de “suspeito”. A vingança da fina flor da burguesia carioca à proibição de Brizola de arrombamento de casas e detenção de moradores da favela não mereceu uma linha de reprovação no Jornal Nacional...

Navalha afiada da
intolerância das elites

A implacável estigmatização de Brizola ao longo de sua trajetória atesta a incapacidade das elites dirigentes de considerarem uma proposta de revisão do pacto social, ainda mais vinda de alguém com representatividade política. Nada em Brizola sugeria o perfil de um político de idéias extremadas ou demagógicas. Caiu na lista negra da vanguarda nacional do atraso que não prevê a incorporação de contingentes crescentes à classe média, um mercado interno amplo e economia baseada em recursos próprios, os objetivos do trabalhismo.

Um risco em potencial à coesão das elites, caso conseguisse atrair uma facção delas ao diálogo, antes de 64 Brizola já figurava em primeiro lugar na galeria dos inimigos do establishment. Atenta ao menor sinal de fissura na ponta da pirâmide do poder – uma de suas tarefas encobertas - a grande mídia atracou-se com volúpia ao torneio de tiro ao alvo na imagem de Brizola. Alpinistas do jornalismo, com histórico de livre acesso às ante-salas do regime militar, em posições de topo nas grandes redações, candidataram-se aos prêmios. Acertaria na mosca quem “vendesse” Brizola como político superado, de linguagem defasada e práticas personalistas caudilhescas, distributivista, enfim, um fóssil vivo da pré-história política.

O clube fechado das finanças já armava o esquema das privatizações e da desregulamentação da economia, com a assistência de consultorias de ex-ministros da Fazenda e ex-diretores do Banco Central. Sob a garantia de servir-se à vontade na farra da leiloagem das teles, a grande mídia se encarrega de convencer a classe média a pressionar a classe política a reformar a Constituição. O bombardeio das vantagens fictícias da adesão incondicional ao receituário neoliberal se intensifica. Única resistência de peso a superar, Brizola é caricaturado como protótipo da mentalidade arcaica incapaz de adaptar-se aos novos tempos.

Curioso, os defeitos dele que povoam as colunas de grife da grande imprensa correspondem simetricamente às suas qualidades. O personalismo equivale a fidelidade inegociável a princípios, impermeável às concessões e conchavos da política tradicional; caudilhismo, a coragem no enfrentamento de desafios e capacidade de mobilização, como no episódio da Legalidade; populismo, o carisma na liderança popular; distributivismo, a determinação de quebrar o tabu do salário indigno; estatismo, a disposição inabalável de estadista de preservar os setores estratégicos da economia.

Cabeça feita pela colonizada e cada vez mais ativa legião dos formadores de opinião e obcecada em imitar o padrão de vida glamouroso dos filmes, a classe média vira as costas à gente feia e sem modos que insiste em morar por perto.
Não é a Brizola que, afinal, a grande mídia vence ao toque do plim-plim unificador da linguagem, uniformizador do olhar e padronizador de um modo de vida de uma sociedade fraturada, disforme e inviável. A ele resta continuar lutando até o fim, cada vez mais desamparado, carregando sozinho o projeto rejeitado de desenvolvimento com justiça social.

Levou com ele a frustração de um sonho mas legou uma certeza em relação aos meios de comunicação social. A corporação da grande mídia não apenas intervém indevidamente na superfície da vida política mas calculadamente busca interferir na delicada teia de subjetividades da sociedade, de modo a influir na luta social.

O enigma
da inércia
social, a faísca

Brizola parte para o exílio inconformado com a ferocidade da grande imprensa nos momentos decisivos da luta política, sempre ao lado das forças antidemocráticas. Foi assim com Getúlio, Jango e ele próprio. O fracasso das conspirações contra o regime militar introduz Brizola no enigma da inércia social, a incapacidade do conjunto da sociedade de mobilizar-se em torno de objetivos comuns. Nenhuma elite fora do Brasil parece tão hábil em desatender as necessidades das camadas humildes e tão eficiente em neutralizar os movimentos populares no nascedouro. É a razão nebulosa de os brasileiros não conseguirem se coesionar em torno de uma causa de interesse geral.

Chama-lhe atenção a desinibição com que a grande imprensa, a cabeça pensante da grande mídia, se refere à "sociedade brasileira", como se ela fosse una, simétrica, culturalmente homogênea e igual no modo de vida. Explica que essa sociedade abstrata só existe nos editoriais verbosos para justificar a imposição de uma visão única da realidade. Casualmente, a visão da minoria bem de vida, do Brasil de chapéu na mão atrás de vultosos investimentos externos à custa de sua soberania. "Costuma-se falar em sociedade brasileira. Há várias sociedades no Brasil", corrigem os que, em nome da minoria, fingem falar por todos.

Não será Brizola que vai ensinar o padre a rezar missa. Se reconhecer a existência de vários Brasis, obrigatoriamente a grande mídia terá que pôr os interesses de todos na mesa, caso insistir em representar a "sociedade brasileira". Ocultar a realidade é a saída esperta para continuar bancando os privilégios que travam o crescimento, boicotam o desenvolvimento e atolam o país na crise social.

A ocultação da realidade não se limita às duras condições e de falta de perspectiva de vida da maioria da população. Inclui sua música, suas crenças, seus anseios, as múltiplas manifestações de uma imensa diversidade cultural. A rejeição do valioso patrimônio de subjetividade das entranhas dos vários Brasis significa cassação de identidade cultural e equivale a um aviso prévio de exclusão social. 

Ao aviltar os signos e dicções de raiz da originalidade brasileira, a grande mídia corta o oxigênio do imaginário social. Brizola apostou obstinadamente no investimento essencial da acumulação de capital social - a educação. Acreditava que a escola geraria a inteligência social imprescindível a um pacto de convivência entre as várias sociedades.

O código estético colonizado (o famoso padrão Globo de qualidade) da grande mídia joga pesado na desidentificação de uma sociedade da outra. Ela cobra uma fatura de falsa integração para esconder que subliminarmente investe na desintegração. Do meio da névoa emerge a muralha fatídica do iceberg do apartheid social.

Nas meditações da solidão no exílio, Brizola detecta o nó da grande mídia no centro de poderes extralegais encobertos por outras atribuições. Capta a troca da função socializadora da informação pelo controle social com prerrogativas autoritárias. Conclui que a grande mídia substitui com vantagens as organizações que, no passado ou mais recentemente, ligavam-se obrigatoriamente às forças reacionárias para neutralizar movimentos por mudanças.

De reflexão em reflexão, Brizola desencava o verdadeiro motivo da condenação unânime às realizações de Vargas e de sustentação a aventuras golpistas: a decisão de frear o projeto trabalhista em visível ascensão eleitoral.

Mais, convence-se que a grande mídia investe na obstrução às tentativas de acordo entre as várias sociedades, apelando inclusive a pistoleiros de aluguel especialistas em homicídios políticos.

Comprometido com a reconciliação política dos brasileiros, arquiva suas descobertas, sem abrir mão da contribuição que espera dar à quebra da inércia social: a organização da vontade dos excluídos.

Surpresa
desagradável
na volta

Brizola retornou do exílio subestimando o quanto as concepções rígidas de hierarquia social, ressoadas pela grande mídia durante o regime militar, haviam impregnado a classe média. Imaginou a redemocratização multiplicando as oportunidades de expressão dos setores sociais silenciados e um país fervilhando de idéias até então sufocadas. 

Igualmente dimensionara mal a contrariedade de partidos de oposição ao regime à ocupação do espaço que lhe cabia no cenário político. 

Logo sentiu as estocadas, amplificadas pelos meios de comunicação. Expoentes de esquerda disfarçavam o mal-estar recitando a cantilena dos perigos do populismo, a alergia ao povo dos sociólogos colonizados.

O estoque de má vontade da grande mídia extravasa a cada dia a menor movimentação de Brizola (..."são muito hábeis em desenvolver a intriga"...). Percorre o país na pacienciosa tarefa de fundar e definir a prioridade de seu partido: ajudar na organização dos excluídos. Então tromba com uma descoberta inimaginável: a informação jornalística continua controlada tal e qual nos tempos da ditadura. 

Na restauração da liberdade de imprensa, a censura apenas havia passado das mãos dos generais às dos empresários da comunicação. Agora entende a hostilidade dos comentadores políticos, e dos intelectuais midiáticos que falam sobre tudo por encomenda e sob medida.

De repente, "doutrinas arrebatadoras" desembarcam nas telinhas, nas colunas dos jornais e nos estúdios de rádio, pregando uma era fantástica de progresso. Palavras mágicas - globalização e privatização - pegam carona na linguagem cotidiana. Brizola repara que a ladainha uníssona dos formadores de opinião coincide com a toada dos consultores econômicos e banqueiros de primeira viagem com passagem por cargos públicos de primeiro escalão. Admira-se com a intimidade entre jornalistas e banqueiros. Escandaliza-se com a ensurdecedora gritaria pela desestatização seguida de histérica onda de privatização. Revoltado, ouve FHC proclamar "o fim da Era Vargas".

Tudo se encadeia em sincronia matemática nas vitrinas feéricas de notícia e opinião na pilotagem da captura do patrimônio suado de gerações pelos predadores disfarçados de investidores. Uma cortina de silêncio recobre a mobilização das ruas contra as privatizações. Brizola testemunha em Porto Alegre a censura da rádio de uma organização jornalística a um ato público contra a privatização das telecomunicações. A transmissão, paga antecipadamente, é cancelada à última hora sem justificativa. Concorda plenamente com o protesto de um líder sindical: "Nem pagando se tem democracia na mídia"(1). Já testemunhou e foi vítima da truculência da grande mídia e ainda tem pela frente inúmeras outras.

A sinistra fabricação de medo

A serviço exclusivamente das elites do atraso, a grande mídia empenha-se em sabotar as propostas de diálogo entre as diferentes sociedades brasileiras, por implicarem na desconcentração de renda. Sem diálogo, evapora a possibilidade de coesionamento em torno de objetivos comuns. Zerado o capital social, vale tudo. Dinamismo, criatividade, eloqüência, carisma, honestidade, coragem, as qualidades pessoais de Brizola talhavam o perfil ideal de mediador de um pacto social. Aplicado com êxito por Vargas a ele mesmo, o projeto trabalhista fermentava nas urnas.

Contra ele, foram disparados os ardis maquiavélicos de desqualificação de lideranças populares consideradas perigosas. O principal foi particularmente eficaz: o medo. Antes e depois de 64, os sentimentos de insegurança da classe média foram atiçados, na construção da imagem de um político radical que age sem medir as conseqüências.

Não importou salvar uma geração da ignorância com escolas à vontade; não valeu uma reforma agrária sem turbulência; não contou um estado voltando a ter energia e comunicações para crescer. A classe média desempatou o jogo a favor do latifúndio e das transnacionais e os militares entrarem em cena. Ao voltar do exílio 15 anos depois, Brizola encontrou a vaga de bicho-papão à sua espera. Parceira favorecida do autoritarismo, a grande mídia aproveitou a ausência de Brizola para trocar de pele mas não de veneno. Assim que os militares repassaram o poder, a grande mídia escalou-se para arbitrar o jogo político entre os Brasis. Aguardada ansiosamente por longos anos, a informação limpa da democracia perdeu o lugar para a opinião de cartas marcadas do mercado (..."agem como empresários dos homens de negócios"...)

Com o fantasma do medo sempre a postos, a grande mídia impôs o condicionamento das perspectivas sociais e políticas ao faturamento dos negócios. Dia a dia, o fundamentalismo econômico foi estendendo meticulosamente o tapete vermelho ao séqüito de prepostos do Consenso de Washington.

As notícias euforizantes de um investimento externo atrás do outro contrastam com as opiniões acabrunhantes intimidando para mais um sacrifício interno. Umas naturalizam, outras legitimam a periferização econômica e social do Brasil. "É preciso piorar para depois melhorar"(2) receitam “os eunucos que voltam do exterior com a mente lavada, com a garantia de empregos generosos, para administrar verdadeiros escritórios de contabilidade das perdas internacionais". Enquanto houver uma casca de capital nacional os leiloeiros continuarão batendo o martelo com a concordância monomaníaca da grande mídia de olho na percentagem da comissão. Não tem fundo o saco por onde escoa de mão beijada a poupança compulsória de longos anos de milhões de brasileiros.

Quê ninguém se atreva a arranhar a boa imagem do Brasil junto à comunidade econômica internacional, rosnam os comentadores, inoculando medo na classe média.

Overdoses de baixaria e violência na TV completam o terrorismo político dos jornalões e revistonas na fabricação de passividade, o princípio ativo da inércia social. A cumplicidade da grande mídia na privatização inviabiliza a articulação da resistência à ofensiva neoliberal. Única liderança nacional a opor-se à leiloagem, Brizola constata que poucos se atrevem a juntar-se a ele por temerem o escárnio da grande mídia. Com a franqueza de sua genialidade, Darcy Ribeiro, um dos grandes pensadores do Brasil, reconhece: "De 54 para cá perdemos todas as batalhas". Fiel a seu temperamento estóico, Brizola segue rijo na luta.

Sozinho em meio à recepção pirotécnica da grande mídia ao desembarque do neoliberalismo, Brizola clama em vão em nome do futuro do Brasil. Não lhe podem cassar essa honra, nem ele tem o direito de se render. Guiado pelos fios da História, adverte para as conseqüências sociais da quebra da espinha dorsal da economia: "O que vão fazer os nossos adolescentes? Amanhã, os jovens se levantarão porque são tratados com a violência do desemprego." Seu desabafo pungente bem que poderia ser incorporado à Carta Testamento: "Quem trair o povo brasileiro está sujeito à maldição!"

Exemplo de
intolerância
da grande mídia

Quando se dissiparem as trevas da era obscurantista, os historiadores ficarão perplexos ao revolverem as injustiças torpes cometidas contra Brizola. Será fácil entender então porque disse “não posso terminar minha vida pública como se fosse um vilão”. Sem nenhuma acusação à sua integridade moral e livre da suspeita de perseguição a adversários, ele foi vilanizado exclusivamente pelas idéias que levou à prática e por outras que certamente realizaria se fosse presidente. Eram perigosas demais “às elites que preferem se aliar aos interesses de fora do país do que a seu próprio povo”.

A obsessão na desmoralização de Brizola comprova a truculência e a insensibilidade da grande mídia em relação às questões sociais e ao desenvolvimento do país. Truculência como meio de impedir o debate de alternativas econômicas e insensibilidade com o drama de sobrevivência dos excluídos. Era preciso abafar a voz e desvalorizar as iniciativas que levantavam esperanças de uma vida digna e avivavam o orgulho de ser brasileiro. Povo e patriotismo, palavras proibidas nos textos jornalísticos – são consideradas sinônimos de breguice e jequice.

Contra a mistificação incessante da História, agora sem ele, os trabalhistas autênticos precisam ser heróicos na defesa de sua memória. É um compromisso com as futuras gerações, privadas de ouvir dele mesmo a verdade sobre os acontecimentos de 64. “Podem dizer e fazer o que quiserem contra nós, mas gente de vergonha na cara nunca fica quieta quando é questionada”.

Um manifesto de coronéis apeara Jango do ministério do Trabalho, por haver dobrado o salário mínimo congelado nos cinco anos do governo Dutra. Coronéis zelam muito por contracheque folgado mas acham um escândalo o trabalhador levar um quilo a mais de feijão para casa. E o que coronéis têm a ver com o salário mínimo? Crime de insubordinação, quebra da sacrossanta disciplina.

Com a própria vida, Vargas consegue brecar o golpe, mas não o golpismo pregado diariamente pelos jornalões. Na Legalidade, na coragem e no gogó, Brizola nocauteia os golpistas mas fica marcado para sempre. Queriam que Brizola recepcionasse os generais na rampa do Palácio do Planalto? Tentou, como era de seu direito, contrapor-se de todas as formas ao radicalismo golpista. Na revanche dos vencedores, a grande imprensa tatuou-lhe a imagem com o estigma infame. Alvo permanente do radicalismo social contra os pobres, nele foi fulanizada por gerações a discriminação dos que acreditam no Brasil e confiam nos brasileiros.

Radicalismo é o encobrimento premeditado do apartheid simultaneamente à execração de quem luta contra as causas da desigualdade, a tática pérfida da mídia.

Rebeldia
imperdoável

O menino pobre do grotão gaúcho, órfão de pai, engraxate e carregador de malas, que aos 37 anos chega ao governo do estado bem que poderia ser o exemplo, cantado em prosa e verso, de mobilidade social. Era a prova viçosa de como é possível construir um destino glorioso sobre as agruras da penúria. Ele tinha, porém, a consciência de que milhares de outros garotos iguais a ele não contariam com a mesma sorte. O garoto solitário que diariamente se empoleirava no muro para espiar o recreio teve a sorte de ser acolhido pelo diretor do colégio, o pastor metodista Isidoro Pereira. O gesto de caridade desvenda um destino incomparável. Aos 29 anos, trabalhando e estudando em Porto Alegre, já é o deputado da escola para todos.

Logo percebe a necessidade de outras molas sociais indispensáveis a uma vida melhor aos deserdados, ciceroneado pelo pensamento de Alberto Pasqualini e encara as críticas como reação natural dos que nunca precisaram se preocupar com o futuro.

Assombra-se, no entanto, na morte de Getúlio, com a estranha identidade de linguagem dos grandes jornais e os grupos internacionais contrariados pelo presidente. Na crise de 64, a diabolização de Jango veste batina importada enquanto o fogo do golpismo incendeia os editoriais. No exílio, Brizola rumina a origem das aberrações que infestam o noticiário e tem o estalo clarividente: a grande mídia se engajou de corpo e alma na luta social. Não se trata apenas de má vontade em relação a um protagonismo político de desamortecimento das massas (sempre temidas) para com seus direitos de cidadania. É guerra, surda, ardilosa, fingida, mas é guerra.

Em 64, a grande mídia ingressou para não mais sair do campo da luta social, com prerrogativas autoconcedidas de policiamento do pensamento e de criminalização dos movimentos populares. Desde então, não recua dessa posição extremada, mirando no horizonte de consumação do apartheid social. É essa grande mídia, equipada com censura própria em substituição à dos militares e detentora do monopólio da palavra que, na volta do exílio, tenta perpetuar a tatuagem maldita de radicalismo.

Nunca, em nenhum momento, Brizola manifestou simpatia pelo comunismo. Era detestado, preconceituosamente, pela cúpula gaúcha do partidão. Nos debates acadêmicos, impressiona-se com o dogmatismo dos comunistas e a arrogância dos filhotes da elite. Conscientemente, ruma na trilha do trabalhismo, para ele o caminho mais realista para o desenvolvimento com justiça social. Em dificuldade para “fichar” Brizola, a grande mídia recorre aos pistoleiros de aluguel de grife. A habilidade em encontrar defeitos em Brizola torna-se quesito de ascensão nas editorias políticas. Famosos nomes do jornalismo devem sua carreira ao modo esperto com que camuflaram o direitismo nos ataques a Brizola. Malhavam Brizola inclusive sem citá-lo, em artigos que desancavam as “fantasias” nacionalistas. Brizola era a única liderança nacional assumidamente nacionalista.

Enrijecido pelas provações do exílio, Brizola retorna sabendo do combate desigual à sua espera. Graças às inovações tecnológicas, a grande imprensa havia se transformado em grande mídia, um complexo poderosíssimo de amestramento de vontades e desejos e de viabilização de negócios. E a grande mídia, habilitada de mil e uma maneiras, brutas ou sutis, a atingir seus desígnios, se preparara para executar o veto das elites ao sonho de Brizola. O exílio era temporário, a cassação perpétua. A capacidade de Brizola de sobreviver à sistemática execração pública é exemplo ímpar na história política.

A grande mídia por trás
da recepção hostil

Na sua volta, a oposição consentida ao regime autoritário, que excluíra Brizola do projeto original de anistia, refuga as suas concepções sobre um projeto de governo para o país. O colunismo político se encarrega de promover o antibrizolismo.

No acordo de Tancredo Neves com os militares, de passagem de poder, há um capítulo secreto, guardado a sete chaves pela grande mídia, a data das eleições diretas à presidência. Elas demoraram cinco anos para dar tempo de “trabalhar” a cabeça da classe média, em traição aos milhões de brasileiros que clamaram por “Diretas Já” nas ruas.

A perda da sigla PTB na Justiça Eleitoral nega-lhe o direito de usar o distintivo icônico do trabalhismo. “Não esperávamos, ao voltar do exílio, tanta gente de estilete contra nós”. Ganha o governo do Rio pulverizando uma conspiração eletrônica (Proconsult). Mal assume, o Corcovado treme com a reação à descoberta de uma arapuca milionária, o monta-desmonta anual das arquibancadas do Carnaval. Sem querer e sem saber, havia tocado num dos feudos de corrupção da elite carioca, dos tantos que depois viriam à tona.

Até a noite de inauguração, o Sambódromo esteve sob suspeita de desabamento no noticiário de O Globo. Os CIEPs foram criticados pelo custo e ignorados na sua função principal. Afora Paulo Freire, outro maldito, nenhum educador de renome pergunta em público quanto custa deixar as crianças ao desamparo. Os morros lata d’água na cabeça ganharam encanamento, reservatório, luz e creche, mas isso não era notícia. O critério de notícia é um dos estratagemas da grande mídia para expurgar as informações indesejáveis

Por onde passa, Brizola pisa em ninho de escorpiões. Há sempre uma ferroada dolorida de plantão, caso da apresentadora de TV mato-grossense, na campanha de 89. Ele não esperava a baixeza da pergunta se havia fugido do Brasil vestido de mulher. Responde com uma grosseria e no dia seguinte pede desculpas. A velhacaria da grande mídia não tem limite na hora de picar.

Brizola lança mão dos recursos do partido para publicar o que os jornalistas ouvem e os jornais censuram. No espaço comprado a preço de anúncio – o tijolão – denuncia os equívocos de sucessivos governos e os interesses por trás. Um jornal gaúcho excluído da publicação por medida de economia proíbe qualquer notícia sobre ele. Outro jornal gaúcho, em série de perfis dos candidatos a presidente em 94, distorce o diálogo de um encontro com Roberto Marinho e nem se refere às suas realizações.

A TV Globo banaliza a violência na programação de entretenimento e O Globo responsabiliza o governador pela expansão da criminalidade. O ovo da serpente da violência choca longe dos lugares batidos pela polícia. Brizola recorre a pesquisas internacionais sobre a influência da TV no comportamento social. A intelectualidade desperdiça a oportunidade de debater, sinal de que trocou a liberdade de pensamento por 15 minutos de fama.

Vale tudo. A TV Globo invade vergonhosamente seu espaço familiar para desonrá-lo como pai. A justiça concede a Brizola direito de resposta no Jornal Nacional. Na capa, O Globo exibe foto de uma boca de fumo tapada de cartazes de Brizola pouco antes de iniciar a campanha de 89. Ele protesta contra o jornal. Na noite do mesmo dia, apresentador paulista de TV, famoso por seu bordão, solidariza-se com seus colegas cariocas. No dia seguinte, fica provado que o cenário da foto não passava de uma armação da polícia.

Em 2001, conhecido rosto de TV de São Paulo vai a Brasília promover livro recém-lançado sobre a rebelião cívica da Legalidade que completava 40 anos. Em horário quente da TV Globo local, apresentado por outro afamado comunicador, voz que ecoa diariamente também nas rádios, ninguém menciona o líder do movimento. A quem viu e ouviu o programa, a Legalidade foi um fenômeno político misterioso, tipo fogo fátuo, acendido por uma mula sem cabeça. No apagamento vil dos feitos de Brizola não há limites na truculência para com o telespectador, ouvinte e leitor. Não só com ele. É a sina dos patriotas. Ao morrer, o centenário jornalista Barbosa Lima Sobrinho foi ligeiramente lembrado como democrata na Globo News, sem nenhuma referência à pregação nacionalista de toda sua vida.

No anátema ao nacionalismo, a grande mídia disfarça sua condenação visceral ao patriotismo, sentimento capaz de acender energias insuperáveis em um povo. Disfarça mas não tem como esconder o ofício de correia de transmissão de pensamento colonizado.

Cumplicidade da
grande mídia
na fratura social

Nunca antes disparadas de modo tão escancarado e aberto a quem quisesse ouvir e entender, as acusações de Brizola ricochetearam na muralha da desinformação da grande mídia. A academia, que legitima o jornalismo excludente, silenciou. A classe política comemorou furtivamente o “quixotismo” que privaria Brizola dos poucos espaços que lhe restavam.

Abismado com a indiferença geral ante uma questão essencial à democracia – só a informação plena gera cidadania – Brizola chegou a cair em devaneio. No programa Câmera 2 (TV Guaíba) imaginou um grande jornal rompendo com o pacto de controle de informação. (“talvez a Folha de São Paulo”). Não se conformava em falar apenas à sociedade favorecida pela desinformação e por isso nenhum pouco interessada em esmiuçar a caixa preta da grande mídia.

A fratura social que o trabalhismo nacionalista se empenhava em evitar, cavando canais de ascensão aos setores excluídos, já estava em franco andamento, rumo ao apartheid.

A serviço da exclusão, o obscurantismo da grande mídia inviabiliza a integração entre as várias sociedades e força espaço político “às reformas para trás, que buscam manter o retrocesso e a acumulação de riquezas, em vez de democratização”. Brizola não exagerou no libelo em que decifra a cumplicidade da grande mídia na trama de “transferência do patrimônio nacional a grupos privados”. Da aterradora conclusão – “no fundo o que querem é uma ata decretando o fim da existência da nação” – aprende-se que ela não tem como livrar-se da sinistra compulsão antipovo e antipátria. Os negócios patrocinados pela grande mídia exigem a dissolução dos testemunhos perenes da vontade nacional, que ela substitui por uma opinião pública fajuta.

“Observem os meios
de comunicação e no
que eles se transformaram”

Longe ou perto, contra Brizola a grande mídia recorreu, uma após outra, ao sortimento de maldades reservado a quem tenta organizar a vontade dos excluídos. Às vésperas de voltar, as manchetes lhe atribuíram provocações aos militares. Encurralado ao longo de 25 anos, aos poucos acabou isolado no tabuleiro político. Com lucidez e bravura, no entanto, arrancou de seus perseguidores uma vitória insuperável, que em dia bem próximo será plenamente reconhecida.

Às custas de seu sacrifício, a falta de ética da grande mídia foi flagrada publicamente. Não há corporação tão poderosa e desprovida de autoridade moral para ditar o certo ou o errado. Grupo de pressão inigualável de interesses políticos tenebrosos, subliminarmente ela se move no sentido da desintegração social. Cada grau de descoesionamento, o ponteiro da crise social, exibe as digitais da grande mídia como co-responsável.

Os números atestam que a força da grande mídia resulta da sua desimportância social, do seu descomprometimento com o Brasil plural, heterogêneo e desigual. Os 7 milhões de exemplares/dia dos grandes e médios jornais revelam o diminuto público a que atende e serve. A tiragem de Veja – mais de um milhão de exemplares semanais – dimensiona com precisão a faixa de empresários, executivos e profissionais, sócios do seleto clube dos formadores de opinião de direita.

Em poucas e contundentes frases, Brizola identificou o aparelho ideológico de dominação enrustido na parafernália onipresente e despótica. Entregou aos pesquisadores da comunicação social a tarefa de devassar os propósitos nefastos e as técnicas espúrias de racismo social.

A salvo de qualquer controle e com o poder de pulverizar questionamentos, o monopólio da informação interdita o debate para hierarquizar o pensamento de acordo com a estratificação social em castas. Simultaneamente, tenta impor um padrão colonizado de subjetividade íntimo de um modelo econômico subalterno. Moldado para gerar inferioridade abaixo da linha da classe média, o padrão estético da grande mídia opera em sintonia com a mentalidade subserviente em economia. Brizola ensinou a pensar grande o Brasil e a grande mídia condiciona a pensar pequeno. Sob o controle autoritário da informação, o brasileiro não conhece seu país e não reconhece a si mesmo, inconsciente de sua dignidade de cidadão.

O resultado trágico do seqüestro e corrupção da informação essencial estoura no inconsciente coletivo, com a quebra do interesse pelo conhecimento. Pesquisa nos bairros mais infestados de dengue em Recife, revelou grande número de moradores que sequer sabiam o nome da doença que haviam tido. Na dúvida, a legítima defesa instintiva contra a mentira arrasta consigo a rejeição da verdade. Intocável e infame, o sofisticado aparato de desinformação tritura à vontade os retalhos de consciência da nacionalidade, na premeditada produção de alheamento e dessensibilização do sentimento de pertencimento a um mesmo destino.

“Dente de jacaré,
couro de jacaré,
olhos de jacaré...”

Do pavilhão de rebeldes perigosos, Brizola foi transferido à galeria dos malditos incuráveis por seu estalo de clarividência. Ele percebeu que a grande mídia opera a fabricação de consentimento à venalização dos recursos físicos e a depreciação do patrimônio imaterial do Brasil, por meio do esvaziamento da consciência cívica dos brasileiros. No vazio, ela injeta o determinismo da submissão e da separação animosa dos brasileiros.

Brizola não lutou em vão contra a sinistra corporação que distorce a vontade, degrada consciências, perverte sentimentos e criminaliza desejos dos brasileiros. Deixou-nos a base de compreensão das engrenagens iníqüas da mentira e a granítica esperança de que o Brasil vai dar certo. Repetia sempre: “Antes de tudo, confiamos na lucidez do povo brasileiro”.
Nos bustos e estátuas que um dia imortalizarão a memória do homem público visionário da justiça social e da soberania nacional, as placas devem guardar espaço a uma homenagem posterior: “Patrono da luta pela democratização da informação no Brasil”.

Alvo diário de discriminação por ser o guardião fiel do legado libertador de Brizola, seu partido não pode esquecer, nos momentos difíceis, este conselho:

“Observem os meios de comunicação e no que eles se transformaram: o requinte da técnica, a máquina gigantesca que existe pelo mundo. Os centros de poder passaram a utilizar essas técnicas. Para mim, o chamado neoliberalismo nada mais é que o batismo, o verniz colorido com que encobriram o mesmo sistema de dominação e exploração dos povos. Eu chego a dizer: isto tem dente de jacaré, tem couro de jacaré, tem olho de jacaré, como não é jacaré? Como não é colonialismo?”
(
Palestra no Centro de Ensino Unificado de Brasília sobre A Inserção Soberana do Brasil no Mundo em Globalização, em 30/04/97)
Brizola vive!
1 – Jurandir Leite, presidente do Sindicato dos Telefônicos
2 – Declaração de Maílson de Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, segundo o jornalista Luís Nassif.

http://www.pdt-rj.org.br