sábado, 11 de abril de 2009

GETÚLIO VARGAS
Enganam-se redondamente os que julgam que o povo brasileiro me foi buscar e me reconduziu ao governo para pescar sardinhas. Vamos fisgar tubarões. Não descansarei enquanto não conseguir proporcionar aos homens, às mulheres e às crianças do meu país a existência digna, segura, tranquila, próspera e confortável a que têm direito. E isto eu reafirmo agora, como um juramento solene, nesta passagem de ano, sempre tão cheia de inquietações e de esperanças.
Na primeira prestação de contas do meu governo, cumpre-me fazer uma revelação. Por detrás dos bastidores da administração pública, logrou o governo descobrir aos poucos, e não sem dificuldades, uma trama criminosa, que há cinco anos se vinha tecendo contra a economia, a riqueza e a independência da pátria. Fora tão bem feita, tão bem planejada e tão bem executada, que passou despercebida aos olhos da opinião pública. Levou tempo, até que lhe descobríssemos a pista, de tal modo estava ela envolta numa rotina burocrática aparentemente inocente. Ainda que pareça incrível, não foi apenas obra de particulares ou de capitalistas interessados em sugar o nosso patrimônio. Foi orientada à sombra da autoridade do próprio governo, através de um regulamento e de vários aditivos e esse regulamento, baixados pela direção da Carteira de Câmbio do Banco do Brasil.
Com a melhor das intenções patrióticas, o chefe do Poder Executivo, que me antecedeu, promulgou, a 27 de fevereiro de 1946, um decreto-lei, que tomou o nº 9.025 e que assegurou aos capitais estrangeiros aplicados no Brasil o direito de retorno ao seu país de origem, mas na proporção máxima de 20% ao ano. Assegurou-lhe também o direito de remeter para o estrangeiro os juros, lucros e dividendos produzidos no Brasil, porém, no máximo, até 8% ao ano. Essa lei está em vigor; e, para cumpri-la, fez-se mister o registro prévio dos capitais estrangeiros na Carteira de Câmbio.
Essa lei, infelizmente, nunca foi cumprida. No mesmo ano de 1946, fez-se um regulamento, baixado pela Carteira de Câmbio do Banco do Brasil, mais tarde completado por vários aditivos, onde se permitiu que os juros, dividendos, lucros etc. do capital estrangeiro, que ultrapassassem os 8% previstos na lei, também fossem considerados como “capital estrangeiro” e somados a este último, para fins de registro e cálculos de juros posteriores.
Assim, um mero regulamento, baixado por autoridade de menor hierarquia, sabotou totalmente não só o espírito, mas o próprio texto do decreto-lei, e conseguiu inaugurar, em surdina e sem que ninguém se desse conta, um sistema de vazamento subterrâneo da moeda brasileira para o exterior. Vazamento tão grande, tão extorsivo do fruto do trabalho de milhões de brasileiros, que, em menos de cinco anos, se logrou subtrair à economia nacional uma soma fabulosa, quase equivalente ao total do papel-moeda circulante no país e que foi escandalosamente incorporada ao capital estrangeiro.
Em 1948, estavam registrados no Banco do Brasil, a título de capitais estrangeiros, 12 bilhões e 960 milhões de cruzeiros. Mas, nesse total, apenas 6 bilhões e 730 milhões representavam moeda estrangeira realmente entrada no Brasil; os outros 6 bilhões e 230 milhões constituíam moeda nacional, acumulada no Brasil por conta de lucros que excediam a percentagem legalmente transferível e que foram indevidamente incorporados ao capital, por força do regulamento.
Nos anos seguintes, a situação agravou-se consideravelmente. O total dos registros de capital estrangeiro montou a 15 bilhões e 490 milhões de cruzeiros em 1949, e a 25 bilhões e 130 milhões em 1950. Mas, neste último total, o dinheiro estrangeiro realmente trazido para o Brasil representava pouco mais de 9 bilhões e 417 milhões, enquanto se considerava como capital estrangeiro mais de 15 bilhões e 718 milhões de cruzeiros em moeda nacional, provenientes de lucros legalmente intransferíveis e indevidamente incorporados ao capital.
Tomando-se por base esse malabarismo de cifras, essa criminosa “multiplicação” do capital estrangeiro em detrimento do trabalho de milhões de brasileiros, foram metidos para fora, em três anos, a título de rendimentos e de remessas de retorno de juros e dividendos, as seguintes quantias, em números redondos: 791 milhões de cruzeiros em 1948; 883 milhões em 1949; 1 bilhão e 28 milhões em 1950 – ou seja, nos três anos mencionados, um total de mais de 2 bilhões e 700 milhões de cruzeiros. Se se tivesse cumprido a lei e respeitado os 8% permitidos, as remessas para o exterior teriam sido apenas, em números redondos, de 540 milhões em 1948, 450 milhões de cruzeiros em 1949 e 750 milhões em 1950, ou seja, ao todo, cerca de 1 bilhão e 750 milhões de cruzeiros. Portanto, foram indevidamente remetidos para fora 950 milhões de cruzeiros a mais do que permitia a lei.
A rigor, esses 950 milhões excedentes deviam ter sido considerados como retorno de capital e descontados do total deste último, que, em 1950, ficaria, assim, reduzido a pouco mais de 8 bilhões e 460 milhões. Entretanto, o que vimos, nesse mesmo ano de 1950, foi o capital estrangeiro registrado num total de 25 bilhões e 130 milhões ostentando, pois, um excedente de 16 bilhões e 670 milhões de cruzeiros sobre o seu legítimo e real valor. Isto representa um aumento escandaloso e ilegal de cerca de 200% no capital estrangeiro aplicado no Brasil.
O excedente de mais de 16 e meio bilhões de cruzeiros significa nada mais nada menos que uma dívida contraída pelo Brasil no estrangeiro e que terá que ser paga, ou melhor, “restituída” dentro de certo prazo. E vamos restituir o quê, para o quê? Pagar o que não devemos; restituir o que não recebemos, o que é nosso, o que foi majorado por simples magia de cifras, a fim de supervalorizar o capital estrangeiro, em detrimento dos valores do trabalho brasileiro e da produção brasileira.
Essa vultosa cifra em cruzeiros equivale a mais de 830 milhões de dólares, em moeda internacional. E se a nação souber que os técnicos já calcularam as necessidades financeiras do Brasil, para levar a cabo um importante programa de desenvolvimento econômico, em cerca de 500 milhões de dólares, compreenderá desde logo que o total do dinheiro criminosamente arrancado ao povo brasileiro e ilegalmente incorporado ao capital estrangeiro foi, no triênio 1948-1950, muito superior à quantia de que necessitamos para a nossa própria recuperação econômica, excedendo em proporção maior de uma vez e meia o seu valor.
Sem dúvida, precisamos incentivar o capital estrangeiro e assegurar o retorno dos juros, dividendos e do próprio capital, em percentagem razoável. Nunca, porém, nessa voragem de dilapidação do patrimônio nacional, que acarretou para o país duas graves conseqüências.
A primeira foi a de permitirmos a transferência para o exterior de lucros resultantes da aplicação de verdadeiros capitais nacionais, num injustificável esbanjamento dos nossos parcos recursos cambiais. Isto significa que tivemos de reduzir as nossas possibilidades de importar máquinas, matérias-primas essenciais e bens indispensáveis ao povo brasileiro, para remunerar os estrangeiros possuidores de capitais nacionais.
A segunda conseqüência dessa inépcia administrativa foi a de sobrecarregar as gerações presentes e futuras com dívidas e compromissos injusta e indevidamente assumidos pelo Brasil, o qual terá de pagar quantia muitíssimo superior à que recebeu – quantia para cobertura da qual todas as nossas atuais reservas em ouro e divisas não seriam suficientes.
Já determinei que fosse suspenso o critério ilegal, fixado no regulamento de 1946, e um novo regulamento será decretado dentro de poucos dias, a fim de pôr cobro a essa exploração e salvaguardar o patrimônio nacional, sem todavia, afugentar os investimentos de capitais estrangeiros, que, dentro de um critério de justa e razoável retribuição, trazem incontestáveis benefícios à nossa economia.
Com o fito de corrigir o déficit orçamentário, determinei, desde o começo do ano, ao ministro da Fazenda, que tomasse providências capazes de estimular, de norte a sul, a arrecadação dos impostos e refrear as despesas excessivas. O resultado dessas medidas já se faz sentir. Hoje posso anunciar à nação que, a 30 de novembro último, havia um saldo, na execução orçamentária, de 4 bilhões e 680 milhões de cruzeiros. E as arrecadações, na mesma data, já subiam a 23 bilhões e 480 milhões, ou seja, 3 bilhões e 300 milhões acima da previsão orçamentária.
Devo esclarecer ainda que, embora com sacrifício de suas realizações diretas, a União procurou ajudar os poderes dos Estados e municípios a se libertarem das ingentes dificuldades financeiras em que se encontravam. Para isso, foi ampliado de 1 bilhão de cruzeiros o total dos empréstimos do Banco do Brasil aos governos estaduais e municipais.
Consolidada a parte financeira, restabelecido o equilíbrio orçamentário, poderemos consagrar-nos, em 1952, ao desenvolvimento de um programa de base para a recuperação nacional. Não pretendo prosseguir nessa rotina de realizações esparsas, sem um eficaz planejamento de conjunto, como se vinha fazendo até agora. O governo reconhece a necessidade de um programa de larga envergadura, que já está sendo traçado e que lhe permitirá enfrentar a solução conjunta dos grandes problemas nacionais.
Nesse primeiro ano, foram assentadas as bases para um financiamento total de 20 bilhões de cruzeiros, destinados a uma série de empreendimentos básicos, que abrangem a dragagem e o reaparelhamento dos portos e da navegação, o incentivo das construções navais, o reaparelhamento das estradas de ferro, a construção de armazéns, silos e frigoríficos, o desenvolvimento de um plano geral de aproveitamento de energia, bem como o incremento das indústrias básicas. Desse total, 10 bilhões já foram autorizados pelo Congresso, e outros 10 bilhões deverão ser providos em moeda estrangeira pelo Banco Internacional, de acordo com os entendimentos estabelecidos. Para a abertura e conservação das estradas de rodagem, também foram ampliados consideravelmente os recursos do Fundo Rodoviário.
Constroem-se neste momento, por iniciativa e patrocínio oficial, vários armazéns e frigoríficos; e um plano nacional de silos, armazéns, frigoríficos e matadouros industriais está sendo elaborado.
Propôs o governo uma nova lei de garantia e de preços mínimos aos produtores, para defendê-los da especulação dos intermediários e dos azares da falta de transporte, estimulando, assim, a produção.
A assistência aos produtores, sob a forma de revenda, a preços de custo e a prazo, de máquinas e outros materiais, foi muito ampliada em 1951.
Nova legislação está sendo elaborada, para permitir maiores facilidades de acesso à pequena propriedade, mesmo antes de uma indispensável reforma agrária, que ora é objeto de estudos num órgão especial, criado pelo governo – a Comissão Nacional de Política Agrária.
O planejamento dos recursos de energia vai sendo progressivamente realizado. Está no Congresso o Plano do Carvão Nacional, que deverá duplicar a produção e reduzir sensivelmente os preços do combustível nacional, elevando os salários e as condições de trabalho e de vida dos mineiros.
Para solucionar em bases nacionais o problema do petróleo, propôs o governo a criação da Petróleo Brasileiro S. A., na qual, sob o efetivo controle do Estado se poderão associar subsidiariamente capitais privados, em limites definidos, para completar os recursos necessários ao programa nacional de petróleo e dar caráter industrial à grande organização de produção. Os recursos serão buscados, de preferência, na tributação de artigos de luxo, processando-se, dessa maneira, sem atingir as classes menos favorecidas.
A expansão dos serviços de energia elétrica é objeto de preocupações especiais e constitui uma das mais altas prioridades no Plano Nacional de Reaparelhamento Econômico.
Criou-se uma comissão de desenvolvimento industrial, com o fim de coordenar e impulsionar o planejamento e as providências oficiais para uma sólida política de expansão industrial do país. A Fábrica Nacional de Motores vai entrar em fase de produção eficiente. A instalação da usina de álcalis está vencendo os últimos obstáculos. O governo animou, em 1951, a criação e expansão da produção de metais não ferrosos, de que o Brasil carece. As indústrias de fertilizantes, cimento, material elétrico e de máquinas em geral são outras produções básicas, que estão sendo desenvolvidas através de medidas governamentais. A Companhia Vale do Rio Doce, neste ano, excedeu em preços, produção e volume de exportação os níveis alcançados desde a sua instalação.
A Companhia Hidrelétrica do São Francisco teve acelerada a marcha de suas obras e luta apenas contra o atraso na entrega dos equipamentos encomendados no estrangeiro. Antes de concluída a primeira fase da construção da usina de Paulo Afonso, que lhe dará 180 mil quilowatts de potência, já está o governo cuidando de ampliar as instalações para a segunda fase, que lhe dará a potência de 300 mil quilowatts. A proposta de criação do Banco do Nordeste, que ora se encontra no Senado, dará, se concretizada, extraordinário impulso a todo o desenvolvimento econômico da região.
A Comissão do Vale do São Francisco também prossegue seus trabalhos em ritmo intenso, dando prioridade à regularização do fluxo do rio, à eletrificação, irrigação e colonização de várias zonas marginais, e ao levantamento dos recursos minerais da região.
O Plano de Valorização da Amazônia vai se desenvolvendo, tendo-se antecipado o governo à lei do Congresso, cuja aprovação aguarda, porém, para levar a cabo o empreendimento, que deverá abranger o desenvolvimento dos transportes fluviais e aéreos, a ampliação das disponibilidades de energia elétrica nos maiores centros urbanos, a plantação nacional de 30 milhões de seringueiras, a organização de colônias, a produção agro-industrial e a pesquisa de petróleo.
Tudo isto é apenas um pequeno esboço do grande programa de recuperação nacional, que o meu governo está procurando firmar em questões-chave, selecionando os pontos básicos, essenciais à vida da nação. Oportunamente vos darei contas mais minuciosas de cada uma das partes do programa. Aqui pretendi apenas atender à vossa inquieta expectativa e lembrar-vos que o presidente está cumprindo as promessas do candidato.
Unamo-nos todos, e congreguemos os nossos esforços para o aumento da produção nacional.
E a todos vós, brasileiros, a todos vós, trabalhadores, envio daqui a minha mensagem de confiança e a minha promessa de lutar sem tréguas e sem desfalecimento para a defesa dos vossos interesses, do vosso bem-estar e segurança.
A crise brasileira é uma crise de crescimento e há de ser superada. Governo e povo caminharão juntos para construírem a prosperidade e a grandeza do Brasil.
DIIRCURSO DE GETULIO VARGAS NA PASSAGEM DE ANO 1952
Posição soberana do Brasil sobre Coréia Popular na ONUdeixa a Folha inconformada
Terminou no último dia 27 de março a reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra, na qual o Brasil se absteve em votação de um texto condenando a RPDC por violação aos direitos Humanos.
Em matéria publicada no dia 27 de março sobre a questão, a Folha de S. Paulo, o mesmo jornal que há dias foi alvo de protestos em frente a sua sede por referir-se aos anos de chumbo da ditadura no Brasil como “Ditabranda”, referiu-se à Coréia Popular como “ditadura asiática” e, em tom de lamentação, afirmou que “o texto foi adotado sem o endosso do Brasil” apesar das fortes pressões do governo do Japão em Brasília e em Genebra para que o Brasil apoiasse o texto da resolução contra a RPDC. O Itamaraty declarou “ser mais produtivo buscar o diálogo que o confronto”.
Segundo o jornal paulista, “a decisão do governo brasileiro de não condenar regimes acusados de ‘violações graves’ dos direitos humanos como o Sudão, o Congo e a RPDC é alvo de críticas dos defensores dos direitos humanos”, provavelmente EUA, Japão, Israel, e seus seguidores em certos jornais, que não admitem a autonomia e independência da política externa brasileira.
Além disso, o jornal repete os relatórios da CIA contra a Coréia Popular, ecoa a histeria do governo japonês contra o Brasil e o desespero do governo reacionário sul-coreano contra o crescimento do apoio popular no sul da Coréia à política de reunificação defendida pela RPDC.
Talvez a “Folha” ficasse mais contente se o embaixador japonês não saísse da reunião tão “decepcionado com o Brasil”. “Tivemos intensos contatos com o governo brasileiro aqui e em Brasília, mas de nada adiantou”, afirmou o embaixador do Japão no Brasil, Sumi Shigeko.
Durante os quase cem anos em que os militaristas do Japão ocuparam o território coreano, promoveram muitas “bondades”: fizeram de 200 mil coreanas escravas sexuais, proibiram o ensino do idioma coreano nas escolas coreanas e fizeram da Coréia o grande fornecedor de matérias-primas ao Japão a custo zero. São mais do que conhecidas as atrocidades e crimes cometidos pelas tropas japonesas na Coréia e na Manchúria chinesa durante a II Guerra. Mas a Coréia Popular que se libertou do colonialismo japonês e é hoje um país independente e próspero, uma autêntica democracia popular, onde buscar o bem estar de todos é tarefa do Estado.
O atual governo japonês, saudoso dos áureos tempos da ocupação e do ganho fácil a custa do suor e da vida do povo coreano, inutilmente esperneia, com o apoio dos EUA, que até hoje continua ocupando o sul da Coréia, e da Folha.
Na matéria citada, o jornal reclamou também que na reunião do dia 27, “na mesma sessão, foram votadas cinco resoluções ligadas ao conflito israelo-palestino, algumas com fortes críticas a Israel. O Brasil votou a favor de todas elas, que foram aprovadas por quase unanimidade.”
Também no Brasil as coisas mudaram e não vivemos mais os tempos de ditadura que a Folha cunhou “ditabranda”.
O Brasil é um país democrático que constrói, a custa do trabalho de seu povo, liderado pelo Presidente Lula, seu desenvolvimento, sua soberania e sua política externa autônoma.
É bom se conformar com isso.
ROSANITA CAMPOS
Rússia: ameaça dos EUA contra satélite da RPDC éapenas hipocrisia e cinismo


“Quando alguns países dizem que o lançamento de um foguete pela Coréia do Norte é uma ameaça contra sua segurança, esse ponto de vista reflete hipocrisia e cinismo”, afirmou o chefe-adjunto do Estado Maior Geral das Forças Armadas russas, Anatoli Nogovitsin, respondendo aos Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul, que assinalam que a colocação em órbita de um satélite de comunicações pela República Popular Democrática da Coréia (RPDC), programada para os próximos dias, violaria a resolução 1718 do Conselho de Segurança da ONU, porque se acionaria um míssil balístico de longo alcance.
“Qual é o critério que permite que uns possam fazer coisas que outros não podem?”, questionou o oficial em declarações à rádio Eco de Moscou, sublinhando que existe semelhança com a propaganda contra o projeto coreano de uso da energia nuclear para contribuir com o desenvolvimento do país. “Na França, por exemplo, 80% da eletricidade é gerado em instalações núcleo-energéticas. Por que outros estados não podem fazer o mesmo?”, disse o militar.
O general acrescentou que a Federação russa possui tecnologia e equipamentos para monitorar o espaço extraterrestre. “Nada do que é ou será lançado fica oculto. E da mesma maneira que nós, os EUA têm as mesmas capacidades técnicas. Só podemos pensar então que essa atitude de lançar suspeitas é hipócrita”, analisou.Sob a base dessa justificação, o Pentágono mobilizou para a península coreana pelo menos cinco unidades navais armadas com foguetes interceptores. O Japão botou na região ainda três navios do tipo Aegis e ordenou a suas tropas apontar suas baterias de mísseis Patriot-3 em direção ao nordeste do arquipélago, território que avaliam será sobrevoado pelo satélite da RPDC.O jornal Rodong Sinmun, órgão do Partido do Trabalho da Coréia, afirmou em sua edição de domingo passado, que alguns países têm posto em órbita milhares de satélites, mas o tema nunca foi discutido nas Nações Unidas
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O império das bases militares
Ao abordar as 865 bases americanas instaladas em vários países, ou mais de mil se incluídas as do Iraque e Afeganistão, o professor Hugh Gusterson questiona a sua finalidade, denuncia a agressão e as atrocidades cometidas contra as populações locais, e os bilhões de dólares para mantê-las, num momento em que a Casa Branca, afogada no vermelho, precisa desesperadamente cortar gastos. “Apesar dos políticos e especialistas dos meios de comunicação parecerem esquecidos dessas bases, tratando o posicionamento de tropas americanas espalhadas pelo mundo inteiro como se fosse um fato natural, o império americano de bases está atraindo cada vez mais a atenção de acadêmicos e ativistas”, diz
HUGH GUSTERSON*
Antes de ler este artigo, tente responder: quantas bases os Estados Unidos têm em outros países? a) 100; b) 300; c) 700; ou d) 1.000.
De acordo com a própria lista do Pentágono, a resposta é 865, mas, se incluirmos as novas bases no Iraque e no Afeganistão, são mais de mil. Essas mil bases constituem 95% de todas as bases militares que todos os países do mundo mantêm em território de outro país. Em outras palavras, os Estados Unidos estão para as bases militares assim como a Heinz está para o ketchup.
Antigamente, o colonialismo praticado pelos europeus consistia em conquistar países inteiros e administrá-los. Mas isso era deselegante. Os Estados Unidos foram os pioneiros numa abordagem mais requintada para um império global. Conforme diz o historiador Chalmers Johnson, “a versão americana da colônia é a base militar”. Os Estados Unidos, diz Johnson, têm um “império de bases”.
“Este ‘império de bases’ dá aos Estados Unidos um alcance global, mas o modelo deste império, na medida em que cercam a Europa, é uma relíquia alargada e anacrônica da Guerra-fria”.
Essas bases não saem baratas. Excluindo as bases americanas no Afeganistão e no Iraque, os Estados Unidos gastam cerca de 102 bilhões de dólares por ano para manter as suas bases de além-mar, segundo Miriam Pemberton, do Instituto de Estudos Políticos. E em muitos casos é preciso perguntar qual é a sua finalidade. Por exemplo, os Estados Unidos têm 227 bases na Alemanha. Talvez isso fizesse sentido durante a Guerra-fria, quando a Alemanha estava dividida ao meio pela cortina de ferro e os políticos americanos tentavam convencer os soviéticos de que o povo americano veria em um ataque à Europa um ataque a si próprio. Mas numa nova era em que a Alemanha foi reunificada e os Estados Unidos se preocupam com pontos de conflito incendiários na Ásia, na África e no Oriente Médio, faz tanto sentido que o Pentágono mantenha 227 bases militares na Alemanha como os correios manterem uma frota de cavalos e diligências.
Afogada no vermelho, a Casa Branca precisa desesperadamente cortar despesas desnecessárias no orçamento federal, e Barney Frank, deputado democrata de Massachusetts, propôs que o orçamento do Pentágono fosse reduzido em 25%. Quer se ache ou não o número de Frank politicamente realista, as bases militares são certamente um alvo lucrativo para o machado do corte orçamental. Em 2004, Donald Rumsfeld calculou que os Estados Unidos podiam poupar 12 bilhões de dólares se fechassem umas 200 bases no estrangeiro. Isso também teria um custo político relativamente baixo, visto que os locais que se podem ter tornado economicamente dependentes das bases são estrangeiros e não podem retaliar em eleições americanas.
Mas essas bases estrangeiras parecem invisíveis quando os cortadores do orçamento olham de esguelha para o orçamento proposto pelo Pentágono, de 664 bilhões de dólares. Reparem no editorial de 1º de março do The New York Times, “O Pentágono enfrenta o mundo real”. Os editorialistas do Times pediram “coragem política” à Casa Branca para cortar no orçamento da defesa. Sugestões? Cortar o caça F-22 da força aérea e o destróier DDG-1000 da marinha, reduzir os mísseis defensivos e o Sistema de Combate Futuro do exército, para poupar 10 bilhões de dólares por ano. Todas, boas sugestões - mas e as bases no estrangeiro?
Apesar dos políticos e especialistas dos meios de comunicação parecerem esquecidos dessas bases, tratando o posicionamento de tropas americanas espalhadas pelo mundo inteiro como se fosse um fato natural, o império americano de bases está atraindo cada vez mais a atenção de acadêmicos e ativistas – como demonstrado por uma conferência sobre as bases estrangeiras americanas na Universidade Americana no passado mês de fevereiro. A NYU Press [editora da Universidade de Nova Iorque] acaba de publicar Bases of Empire, de Catherine Lutz, um livro que reúne acadêmicos que estudam as bases militares americanas e ativistas contra essas bases. A Rutgers University Press publicou Military Power and Popular Protest, de Kate McCaffrey, um estudo sobre as bases americanas em Vieques, Porto Rico, que foram fechadas perante os protestos maciços da população local. E a Princeton University Press publicará Island of Shame: The Secret History of the U.S. Military Base on Diego Garcia, de David Vine – um livro que conta a história de como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha acordaram secretamente deportar os habitantes da ilha de Diego Garcia, no arquipélago de Chagos, para as Maurícias e para as Seychelles, para que a sua ilha pudesse ser transformada numa base militar. Os americanos foram tão cuidadosos que até mataram com gás todos os cães dos chagossianos. Os chagossianos não foram autorizados a apresentar o seu caso nos tribunais dos Estados Unidos, mas ganharam o processo contra o governo britânico em três julgamentos, tendo a sentença derrubada pelo supremo tribunal do país, a Câmara dos Lordes. No momento, apelam para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
Os dirigentes americanos dizem que as bases no exterior cimentam as alianças com nações estrangeiras, sobretudo através do comércio e de acordos de ajuda que acompanham frequentemente o arrendamento das bases. Mas os soldados americanos vivem numa espécie de simulacro da América nas suas bases, vêem a TV americana, ouvem o rap e o heavy metal americanos e comem a fast food americana, a fim de que os rapazes do campo e os meninos da cidade, para ali transplantados, tenham pouca exposição a outro modo de vida. Entretanto, do outro lado da cerca de arame farpado, os residentes e comerciantes locais ficam muitas vezes dependentes dos soldados e defendem que eles ali se mantenham.
Essas bases podem tornar-se pontos de irrupção de conflitos. As bases militares normalmente descarregam lixo tóxico nos ecossistemas locais, como em Guam, onde as bases militares levaram a nada menos que 19 pontos extremamente poluídos. Essa contaminação gera ressentimento e por vezes movimentos sociais extremamente explosivos contra as bases, como aconteceu em Vieques nos anos 90. Os Estados Unidos utilizaram Vieques para exercícios de bombardeio real durante 180 dias por ano, e, em 2003, na época em que os Estados Unidos se retiraram, a paisagem estava atulhada de granadas detonadas e por detonar, esferas de urânio depletado, metais pesados, petróleo, lubrificantes, solventes e ácidos. Segundo ativistas locais, a taxa de câncer em Vieques era 30% mais alta do que no resto de Porto Rico.
Também é inevitável que, de tempos a tempos, os soldados americanos – muitas vezes embriagados – cometam crimes. O ressentimento que esses crimes provocam ainda é mais exacerbado pela freqüente insistência do governo americano de que esses crimes não sejam julgados nos tribunais locais. Em 2002, dois soldados americanos mataram duas adolescentes na Coréia quando iam a uma festa de aniversário. Os veteranos da Coréia afirmam que esse foi um dos 52.000 crimes praticados por soldados americanos na Coréia entre 1967 e 2002. Os dois soldados americanos foram imediatamente repatriados para os Estados Unidos a fim de fugirem ao julgamento na Coréia. Em 1998, um piloto dos marines cortou os cabos de um teleférico na Itália, matando 20 pessoas, mas os oficiais americanos recusaram-se a permitir que as autoridades italianas o julgassem. Esses e outros incidentes semelhantes prejudicam as relações dos EUA com importantes aliados.
Os ataques de 11/Set são, sem dúvida, o exemplo mais espetacular do tipo de ricochete que pode gerar-se a partir do ressentimento local contra as bases americanas. Nos anos 90, a presença de bases militares americanas junto dos lugares sagrados do Islã, na Arábia Saudita, encolerizou Osama Bin Laden e proporcionou à Al Qaeda uma poderosa ferramenta de recrutamento. Os Estados Unidos, sensatamente, fecharam as suas maiores bases na Arábia Saudita, mas abriram outras bases no Iraque e no Afeganistão que estão se tornando rapidamente novas fontes de atrito na relação entre os Estados Unidos e os povos do Oriente Médio.
Muitas dessas bases são um luxo que os Estados Unidos já não podem aguentar numa época de déficits orçamentais recordes. Além disso, as bases americanas no estrangeiro têm uma dupla face: projetam o poder americano por todo o globo, mas também incendeiam as relações externas dos EUA, gerando ressentimentos contra a prostituição, os danos ambientais, os pequenos crimes, e o etnocentrismo cotidiano que são a sua consequência inevitável. Esses ressentimentos forçaram recentemente o fechamento de bases americanas no Equador, em Porto Rico e no Quirguistão, e se o passado é apenas um prólogo, podemos esperar no futuro mais movimentos contra as bases americanas. Acredito que, dentro dos próximos 50 anos, assistiremos ao aparecimento de uma nova norma internacional segundo a qual as bases militares estrangeiras serão tão indefensáveis como a ocupação colonial de um outro país passou a ser nos últimos 50 anos.
A Declaração da Independência [dos EUA] critica os britânicos “por posicionar grandes corpos de tropas armadas entre nós” e “por protegê-los, através de julgamentos fantoches, da punição por quaisquer crimes que cometam contra os habitantes destes Estados”. Belas palavras! Os Estados Unidos deviam começar por levá-las a sério.
* Hugh Gusterson é professor de antropologia e sociologia na George Mason University. É especialista em cultura nuclear, segurança internacional e antropologia da ciência. Acompanhou um considerável trabalho de campo nos Estados Unidos e na Rússia, onde estudou a cultura de cientistas de armas nucleares e de ativistas anti-nucleares. Dois dos seus livros encerram este trabalho: Nuclear Rites: A Weapons Laboratory at the End of the Cold War (University of California Press, 1996) e People of the Bomb: Portraits of America’s Nuclear Complex (University of Minnesota Press, 2004). Também foi co-autor de Why America’s Top Pundits Are Wrong: Anthropologists Talk Back (University of California Press, 2005); tem em preparação uma sequência, The Insecure American. Anteriormente foi professor no Programa sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade, do MIT
Déficit, espoliação econômica e máquina de guerra dos EUA (2)


A questão que Michael Hudson examina nesta segunda parte de seu artigo (publicado, sob o título original “Economic Meltdown: The ‘Dollar Glut’ is What Finances America’s Global Military Build-up”, na revista do Centre for Research on Globalization, 29/03/2009) já foi abordada por nós há alguns meses. Com a irrupção da crise nos países centrais, em especial nos EUA, apareceram os vendedores (e os compradores) de ilusões. Uma delas, comprada a preço particularmente barato por alguns, é a de que o caos especulativo provocado por anos de neoliberalismo não pode ser superado por medidas no terreno nacional, ou seja, os governos nacionais nada podem e nada têm a fazer para proteger seus países do parasitismo da oligarquia financeira, sediada principalmente em Wall Street, e do abismo em que ela própria se lançou. Assim, só com um acordo “internacional”, com uma regulação “internacional” e com medidas “internacionais”, isso seria possível.
Tal regulação “internacional” seria tão internacional, no máximo, quanto o dólar é a moeda “internacional”. Naturalmente, não existe nada internacional no mundo de hoje que esteja acima das nações, pois este mundo é composto, precisamente, por nações. A cooperação internacional é a cooperação entre nações, assim como a espoliação internacional é a espoliação de uma ou de algumas nações sobre outras.
Parece óbvio, mas, analisemos com mais vagar a questão.
Se fosse hoje impossível às nações enfrentar a espoliação especulativa – isto é, a invasão de dólares para comprar empresas públicas e privadas e para negociar com papéis na Bolsa e no “mercado” de títulos públicos –, a consequênacia seria, evidentemente, condenar todos os países do mundo à impotência, como se eles fossem meros apêndices do capital especulativo, principalmente norte-americano. No entanto, tudo está aqui de cabeça para baixo: são os monopólios financeiros que dependem, para continuar seu brutal enriquecimento parasitário, de extrair recursos a granel de outros países. Não são estes países que dependem do capital especulativo para sobreviver. Afirmar o contrário seria a mesma coisa que declarar que são as lombrigas que permitem a seus hospedeiros viver, e não o contrário.
Certamente, tal concepção revela, sobretudo, submissão à oligarquia financeira dos países centrais – esmagamento diante de um poder que, na atualidade, jamais foi tão frágil, jamais foi tão falido e jamais foi tão minguante desde que essa oligarquia existe. É interessante observar que é precisamente no momento em que mastodontes como o Citibank e a GM estão em bancarrota, que tal ideia é posta a circular. O motivo é relativamente simples: é a eles que tal superstição beneficia, ao mesmo tempo que prejudica os países, povos e governos, especialmente os da periferia do sistema, mas até mesmo alguns países centrais. A rigor, tal expectativa fantasiosa beneficiaria exclusivamente à oligarquia financeira norte-americana.
Hudson demonstra que, ao contrário, a única solução para recuperar a soberania de cada país sobre sua economia é a ação de cada governo, representando a sociedade, neste sentido. Como muitas coisas abafadas pela enxurrada neoliberal, depois de explicitado isso parece evidente: que regulação “internacional” pode existir se ela não for consequência da regulação que cada país estabeleça em prol do interesse público? Absolutamente nenhuma – e depositar as esperanças de que o FMI estabeleça tal regulação “acima” dos interesses da oligarquia financeira norte-americana, já é quase escorregar para o ridículo. O FMI foi, desde o início, e continua sendo, o guardião, mais precisamente, o leão de chácara, da hegemonia financeira desta oligarquia sobre os demais países. Exatamente por isso vários governantes, inclusive o presidente Lula, têm proposto a abolição do dólar como moeda “internacional”.
Realmente, rebaixar a economia dos demais países a tributárias do dólar é somente ressuscitar o sistema que os romanos impunham aos gauleses e outros povos, sob nova forma. A antiga, aliás, era bem mais honesta – e menos predatória. Mesmo assim, todos sabemos como o Império Romano acabou.
C.L.
MICHAEL HUDSON *
A pergunta decisiva é: o que podem fazer os países para enfrentar esse ataque financeiro? Um sindicalista basco me perguntou se eu acredito que o controle de movimentos especulativos de capital asseguraria que o sistema financeiro atual poderia servir ao interesse público, ou se é necessário uma nacionalização direta para desenvolver melhor a economia real?
Não é simplesmente um problema de “regulação” ou de “controle de movimentos do capital especulativo”. A questão é como as nações podem atuar como verdadeiras nações, em seu próprio interesse, em lugar de serem manipuladas para servir a qualquer coisa que os diplomatas dos EUA decidam que é de interesse dos Estados Unidos.
Qualquer país que trate de fazer o que os EUA têm feito durante os últimos 150 anos, seria acusado de ser “socialista” – e isso por parte da economia mais anti-socialista do mundo, com exceção de quando chamam “socialismo para os ricos” ao resgate para seus bancos, isto é, da oligarquia financeira. Essa inflação retórica quase não deixa outra alternativa senão a nacionalização direta do crédito como serviço público básico.
Sem dúvida, a palavra “nacionalização” tem-se convertido em sinônimo de resgate de empréstimos tóxicos dos maiores e mais imprudentes bancos, e resgate de hedge funds e contrapartidas não-bancárias perdidas no “capitalismo de cassino”, que joga com derivativos que a AIG e outras seguradoras ou participantes do lado perdedor desse jogo não podem pagar. Semelhantes resgates não representam uma nacionalização no sentido tradicional do termo - devolver o crédito e outras funções financeiras ao domínio público. É o contrário. Imprimem-se mais títulos do governo para entregá-los – junto com o poder auto-regulador – ao setor financeiro, bloqueando a disponibilidade de que a cidadania recupere essas funções.
Focalizar o tema como uma escolha entre democracia e oligarquia leva à questão de quem controla o governo que faz a regulação e “nacionaliza”. Se quem decide é um governo cujo banco central e os principais comitês do Congresso que se ocupam das finanças são dirigidos por Wall Street, não se ajudará a dirigir o crédito para usos produtivos. Simplesmente continuará a era Greenspan-Paulson-Geithner de mais e maiores obséquios para seus eleitores financeiros.
A noção de “regulação” da oligarquia financeira é assegurar que desreguladores estejam instalados em posições chave. Apesar do anúncio de Mr. Greenspan de que finalmente viu a luz e que se deu conta de que a auto-regulação não funciona, o Tesouro segue dirigido por um funcionário de Wall Street e a Reserva Federal [banco central dos EUA] por um lobista de Wall Street. Para os lobistas, a verdadeira preocupação não é a ideologia em si – mas o interesse próprio de seus clientes. Podem escolher bobos de boa vontade, especialmente personalidades prestigiosas do mundo acadêmico. Pois são só testas de ferro, dirigidos por seguidores de Milton Friedman na Universidade de Chicago. Tais indivíduos são alocados para que sirvam de “porteiros” nas principais revistas acadêmicas para excluir ideias que não sirvam aos lobistas financeiros.
Essa desculpa para excluir o governo de uma regulação que tenha sentido, prega que as finanças são tão técnicas que só alguém da “indústria” financeira é capaz de regulá-la. Para piorar as coisas, se faz a afirmação adicional contra-intuitiva de que uma característica da democracia é que o banco central seja “independente” do governo eleito. Na realidade, claro está, isso é o contrário da democracia. As finanças são um ponto crucial do sistema econômico. Se não são reguladas democraticamente em função do interesse público, são “livres” para serem capturadas por interesses especiais. De modo que isto se converte na definição oligárquica de “liberdade de mercado”.
O perigo é que os governos permitam que o setor financeiro determine como se aplicará a “regulação”. Os interesses especiais querem ganhar dinheiro com a economia, e o setor financeiro não passa de um modo extrativo. Este é seu plano de marketing. As finanças atuais atuam de maneira que desindustrializa as economias, não as fortalecem. O plano é: austeridade para a mão de obra, a indústria e todos os setores com exceção das finanças, como nos programas do FMI impostos a desventurados países do Terceiro Mundo. A experiência da Islândia, Letônia e outras economias “financiadas” deveria ser examinada, como lição objetiva, ainda que somente por estarem nos primeiros lugares na lista do Banco Mundial em termos de “facilidade para fazer negócios”.
A única regulação que tem sentido provém de fora do setor financeiro. De outra maneira, os países sofrem com o que os japoneses chamam de “filhos do céu”: reguladores selecionados das fileiras dos banqueiros e seus “idiotas úteis”. Ao retirar-se do governo, voltam ao setor financeiro para receber postos lucrativos, “compromissos para conferências” e remunerações afins. Como troca, regulam a favor de interesses especiais, não do público em geral.
O problema dos movimentos do capital especulativo vai além da elaboração de um conjunto de regulações específicas. Depende do alcance do poder do governo nacional. Os Artigos de Acordo do Fundo Monetário Internacional impedem que os países restaurem os sistemas “de tipos falsos de câmbio” que muitos retiveram durante os anos cinqüenta e inclusive nos anos sessenta. Era uma prática generalizada que os países tivessem uma taxa de câmbio para bens e serviços (às vezes várias taxas de câmbio para diferentes categorias de importação e exportação) e outra para “movimentos de capital”. Sob pressão americana, o FMI impôs a ficção de que existe uma taxa de “equilíbrio” que por casualidade é a mesma para bens e serviços como para movimentos de capital.
* É ex-economista de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles “Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire
A democracia cubana e o Intersom

EMERSON LEAL*

Que meus bons amigos da rádio Intersom-FM entendam minha manifestação como uma forma de contribuir com o debate sobre a realidade cubana. Faço-o pelo fato de que suas observações no programa de terça-feira passada, sobre a decisão de Raúl Castro de substituir alguns ministros, apresentaram algumas incorreções.Poucas pessoas no Brasil sabem como funciona a democracia cubana. Elas não têm culpa disso. A culpa é da nossa mídia monopolista que, por ser subserviente aos interesses norte-americanos e, óbvio, por pura ideologia também, distorce os fatos, omite-os ou mente sobre a realidade na Ilha de Fidel. Então fica difícil, senão impossível, formar uma opinião correta sobre o que ocorre em Cuba.A maior desinformação, divulgada aos quatro ventos, é a seguinte: “Fidel ficou mais de 45 anos no poder. Nunca quis largar a rapadura. Portanto, é um ditador”! Ora, afirmar isso é desconhecer, primeiro, que o sistema de governo em Cuba é parlamentarista, como na maioria dos países europeus; segundo, que esta decisão, consubstanciada na Constituição cubana, foi construída num amplo processo em que o povo participou amplamente das discussões, aprovando-a; terceiro, que Fidel, como todos os membros do Parlamento Cubano, tem de se submeter, de quatro em quatro anos, ao veredicto popular através de eleições, como candidatos a deputado. Isso é democracia!Simples assim, meus amigos. Por outro lado, se o Parlamento a cada quatro anos escolhia Fidel Castro como Primeiro-Ministro, era pelo fato de que ninguém, dentre os deputados do partido (nem dos sem-partidos – sim, porque em Cuba qualquer cidadão sem partido pode se candidatar às eleições, como acontecia na ex-URSS) tinha uma liderança ou uma popularidade maior que a dele. Além disso, o voto em Cuba é distrital. Pergunto: quem, no Distrito em que Fidel morava, o sobrepujava em reconhecimento e popularidade? Então, não era nenhuma surpresa que ele sempre se elegia deputado com mais de 90% dos votos. Registre-se ainda que é o primeiro-ministro, em qualquer sistema parlamentarista, que forma o governo, como fez Raúl Castro recentemente.Em síntese, chamar Fidel Castro de ‘ditador’ é não só ignorância política, como um desrespeito para com o povo cubano. Eles escolheram sua democracia dessa forma, e não da nossa (felizmente), onde o que prevalece é a força do poder econômico – que o digam as bancadas do setor agro-exportador (ruralista), a dos banqueiros, a dos evangélicos etc., no nosso Parlamento (o Congresso Nacional). Outra grande desinformação é sobre a eleição ilimitada. Pelos comentários de meus amigos na rádio pode-se concluir que os EUA, por mais de 150 anos – desde a eleição de seu primeiro presidente George Washington em 1789, até 1950 quando acabou o sistema de eleições ilimitadas – foram sempre uma ‘ditadura’ e, portanto, seus presidentes foram todos ‘ditadores’. Da mesma forma, os países europeus como a Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, etc., seriam hoje ditaduras também, porque neles prevalecem as eleições ilimitadas.O que não entendo, é por que Fidel ou Hugo Chaves seriam ‘ditadores’ por apoiarem as eleições ilimitadas, e os presidentes ou primeiros-ministros dos países europeus não! Registre-se ainda o fato de que a classe dominante norte-americana acabou com as eleições ilimitadas nos EUA por puro medo de que um outro Franklin D. Roosevelt fosse eleito e acabasse com a ‘alegria’ do complexo industrial-militar e do setor financeiro, como fez o presidente Roosevelt com o ‘New Deal’, ou como tentou fazer Kennedy (por isso o mataram).Moral da história: há que respeitar, sempre, o sentimento do povo, que é sábio! Ninguém se elege ilimitadamente se ele – o povo – não quiser! ‘Eis a questão...’
*Doutor em Física Atômica e molecular e vice-prefeito de São Carlos.
CONDENADO A PRISÃO BANDIDO FUJIMORI.
O MARGINAL, LADRÃO, ASSASSINO ALBERTO FUJIMORI, EXDITADOR DO PERU, IDOLO DE FHC- ESTE O PRESENTEOU COM A ORDEM CRUZEIRO DO SUL, UMA AFRONTA AO BRASIL E AO SEU POVO- E DO SISTEMA FINANCEIRO, FOI CONDENADO A 25 ANOS DE PRISÃO, POR CORRUPÇÃO E ASSASSINATOS.
CONDENA-LO A PRISÃO É POUCO, DEVERIA SER FUZILADO EM PRAÇA PÚBLICA ESTE PULHA. CAPACHO DA OLIGARQUIA-BÉLICA-FINACEIRA-FASCISTA DOS EUA.
FALTA MAIS ALGUNS LACAIOS A TEREM O MESMO DESTINO.
PENSAM ESTES MARGINAIS QUE FICARAM IMPUNES DIANTE DO CRIME QUE COMETEM CONTRA O POVO.

sexta-feira, 6 de março de 2009

LULA DE NOVO PRESIDENTE DO POVO

O BRASIL VIVE UM MOMENTO IMPORTANTE. TEM UNS PERDEDORES QUE QUEREM DESESTABILIZAR, DESACREDITAR O GOVERNO DO PRESIDENTE LULA. OS ATAQUES VEM DA MIDIA COLONIZADA EM ESPECIAL A FOLHA DE SÃO PAULO E O GLOBO. MAS ESTA CLARO QUE A INTENÇAO DESTES É IMPOR A CANDIDATURA TUCANA ENTREGUISTA. ATACAM O PRESIDENTE DE TODAS AS MANEIRAS. SEUS PRECONCEITOS, ODIO DE CLASSE FICAM CADA VEZ MAIS EXPOSTOS.

MAS O POVO BRASILEIRO É INTELIGENTE E SABERÁ FAZER NOVAMENTE A DIFERENÇA NOVAMENTE.

OS CÃES RAIVOSOS ESTÃO AI. A DIREITINHA ENTREGUISTA VASSALA DA OLIGARQUIA-BÉLICA-FINANCEIRA-FASCISTA DOS EUA, QUEREM QUE O BRASIL SEJA UMA ESTRELINHA NA BANDEIRA AMERICANA.

NÃO VAI SER NÃO...

AQUI TEM BRASIL E POVO.

BRASIL NELES!!!!!

segunda-feira, 2 de março de 2009



Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.

Encontramo-nos actualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.

Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.
O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.

Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação com a graça de Deus venha gerar uma nova Liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da face da terra.

ABRAHAM LINCOLN

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009


O testemunho do mais eminente ministro da Agricultura soviético

Benediktov: A URSS na época de Stalin e depois dele - (1)


Em 1980, o jornalista soviético V. Litov preparava alguns programas radiofônicos sobre a Índia com Ivan Alekssandrovitch Benediktov, ex-embaixador da URSS naquele país. Porém, em suas conversas com Benediktov, conta o jornalista, “não consegui conter-me e comecei a colocar para Ivan Alekssandrovitch questões sobre um tema que me interessava mais”.

O tema era o passado e o presente da URSS. Benediktov havia sido ministro (comissário do povo) da Agricultura de 1938 a 1943 e, depois, de 1946 a 1955; ministro dos Sovkhozes (as fazendas estatais) de 1955 a 1957; outra vez ministro da Agricultura de 1957 a 1959, antes de ser nomeado embaixador na Índia (1959-1967) e na Iugoslávia (1967-1970). Portanto, convivera pessoalmente com Stalin, Molotov, Kaganovitch e outros dirigentes da época em que a URSS construía o socialismo, assim como Kruschev e algumas figuras que ficaram conhecidas posteriormente.

Operário têxtil na época da Revolução Russa, Benediktov formou-se em engenharia agronômica e economia agrícola em 1928 e foi um dos pioneiros da coletivização da agricultura no Usbequistão, onde exerceu a vice-presidência da república. No cargo de comissário do povo, foi o responsável pela formação dos estoques agrícolas soviéticos que alimentaram o país durante a II Guerra Mundial.

A partir de 1953, ficou conhecido por suas divergências com Kruschev, que assumiu a primeira-secretaria do PCUS após a morte de Stalin, sobre a condução da agricultura. Já nesse ano, seu plano de aumentar a produtividade das áreas agrícolas é rejeitado por Kruschev, que prefere o aumento extensivo da produção – através da exploração nas então chamadas “terras virgens”.

Porém, somente seis anos depois Benediktov é afastado do ministério. Começa, então, sua trajetória na diplomacia.
Em 1981, Litov terminou suas entrevistas com Benediktov, que morreria em 1983. Porém, essas entrevistas somente foram publicadas em 1989, na revista “Molodaya Gvardia”. Como explica Litov, “Ivan Alekssandrovitch não se opôs à publicação das suas declarações, apesar de duvidar fortemente que tal fosse possível. Nisto verificou-se que tinha toda a razão: todas as minhas tentativas de ‘colocar’ a entrevista numa revista literária, mesmo na versão mais truncada, resultaram num fracasso. No entanto, apesar de ter perdido uma esperança real, continuei a insistir: pretendia demonstrar ao antigo comissário do povo que as suas apreciações pessimistas eram inconsistentes e, eventualmente desse modo, fixar um alicerce para o prosseguimento ulterior do tratamento literário das suas memórias. Passados alguns meses após ter recebido mais uma rejeição por parte da redação de uma conhecida revista, Ivan Alekssandrovitch faleceu... As motivações para continuar a luta caíram por si próprias e entreguei o original ‘à crítica roedora dos ratos’”.

Naturalmente, como Benediktov esclarece em suas entrevistas concedidas a Litov, os revisionistas acusavam Stalin daquilo que eles próprios faziam – no caso, tentar abafar um testemunho de inestimável importância histórica. Ao não conseguir responder ao tranquilo depoimento do ministro da Agricultura de Stalin, uma demolidora denúncia dos falsificadores da História – mais demolidora ainda porque seu entrevistador está em posição oposta ao entrevistado – eles o suprimiam, como se isso apagasse a verdade dos fatos. Sobre esta, o leitor poderá julgar por si mesmo.

A tradução das entrevistas de Benediktov pode ser encontrada no excelente site “Para a história do socialismo” (http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt). O texto que hoje iniciamos a publicação foi adaptado ao português do Brasil.

C.L.

LITOV - Desde o final dos anos 70 que se observa uma queda evidente na nossa economia. Nos documentos oficiais ela é explicada quer por dificuldades objetivas, quer por falhas subjetivas. A maioria dos cientistas e especialistas considera que a raiz do mal está na ausência de um autêntico mecanismo econômico de desenvolvimento e gestão da economia e, em especial, da introdução dos avanços científico-tecnológicos... Gostaria de conhecer a opinião de um homem que ocupou um importante cargo na nossa economia num período em que esta registrava das maiores, se não as mais elevadas taxas de crescimento do mundo...

BENEDIKTOV - Temo decepcioná-lo com o meu “conservadorismo” e “dogmatismo”. Considero que o sistema econômico vigente em nosso país até os anos 60 poderia ainda hoje garantir elevadas e estáveis taxas de crescimento, uma orientação firme para a eficácia e qualidade e, como consequência natural, a elevação constante do bem-estar de largas camadas de trabalhadores. Claro, a vida é a vida, algumas coisas teriam de ser mudadas e renovadas. Mas isto refere-se apenas a alguns estrangulamentos e pormenores porque, em geral, o amaldiçoado, pelos economistas, “sistema stalinista”, como você corretamente observou, demonstrou uma alta eficácia e vitalidade. Foi graças a ele que, no final dos anos 50, a União Soviética era em termos econômicos e sociais o país mais dinâmico do mundo. Um país que partiu convictamente do seu atraso, aparentemente insuperável face às potências capitalistas mais desenvolvidas, mas que em alguns setores-chave do progresso científico-tecnológico catapultou-se à frente. Basta recordar as nossas realizações no espaço, o desenvolvimento para fins pacíficos da energia atômica, os êxitos nas ciências fundamentais.

Enganam-se aqueles que pensam que nós conseguimos tudo isto à custa de fatores extensivos e quantitativos. Nos anos 30 e 40, e mesmo nos 50, a tônica, quer na indústria quer na agricultura, colocava-se não na quantidade mas na qualidade; os indicadores mais importantes e decisivos eram o crescimento da produtividade do trabalho mediante a introdução de novas máquinas e a redução dos custos de produção. Estes dois fatores foram colocados na base do crescimento econômico, eram eles que determinavam a avaliação e promoção dos dirigentes econômicos, era exatamente isto que se considerava como o mais importante e como uma decorrência direta dos ensinamentos do marxismo-leninismo. Claro que, hoje, tal “rigidez” e linearidade parecem um pouco ingênuas e também é verdade que naquela altura produziram determinados efeitos negativos. Mas no conjunto a orientação foi tomada de forma inteiramente correta, o que é demonstrado pela experiência das atuais empresas americanas, da Alemanha Ocidental e japonesas, muitas das quais já planificam não só o crescimento da produtividade do trabalho, mas também a redução dos custos de produção num horizonte de vários anos...

O mesmo pode ser dito sobre a esfera social e o clima político-ideológico na sociedade. A massa fundamental dos cidadãos soviéticos estavam satisfeitos com a vida e olhavam para o futuro com otimismo, acreditavam nos seus dirigentes. Quando Khruschev lançou o objetivo de alcançar a mais alta produtividade do trabalho no mundo e atingir as mais avançadas fronteiras no campo do progresso científico-tecnológico, poucos duvidaram do êxito final, tão grande era a convicção nas suas forças e na capacidade de alcançar e ultrapassar a América.

Mas Khruschev não era Stalin. Um mau capitão é capaz de fazer encalhar o melhor navio. Foi o que aconteceu. Os nossos capitães primeiro perderam o rumo, falhando nos ritmos estabelecidos, depois começaram a saltar de um extremo para o outro e a seguir deixaram mesmo escapar o leme das mãos, deixando a economia num impasse. Como não desejavam reconhecer abertamente a sua incapacidade, claramente incompatível com [seus] altos cargos, lançaram a culpa no navio, no “sistema”, montando uma ininterrupta linha de produção de decisões e resoluções sobre o seu “desenvolvimento” e “aperfeiçoamento”.

Por seu lado, os “teóricos” e cientistas começaram a justificar esse carrossel de papel com “inteligentes” considerações sobre um alegado “modelo econômico otimizado”, que, por si próprio, asseguraria de forma automática a resolução de todos os nossos problemas. Aos dirigentes bastaria sentar na cabine de comando desse “modelo”, apertando de tempos a tempos um ou outro botão. Uma ilusão absurda, puramente de gabinete, acadêmica!

LITOV - No entanto, até Lenin incentivou as experiências, a busca de soluções otimizadas...

BENEDIKTOV - Não tem propósito a citação que você faz de Ilitch [Lenin], nenhum propósito. A tendência para as reorganizações e reformas, o constante prurido reestruturador foi classificado por Lenin como o mais infalível sinal de burocratismo, quaisquer que sejam as roupagens “marxistas” de que se veste. Não se deve alvoroçar o povo com “rupturas de sistema” e reorganizações, avisou Vladimir Ilitch ainda no início dos anos 20, recrutem-se pessoas e controle-se a execução real das tarefas, isto será valorizado pelo povo. Este importantíssimo, talvez o mais importante ensinamento leninista sobre como governar, o qual atravessa literalmente todas as últimas obras, notas e documentos de Ilitch, na prática (em palavras é claro que todos estão a favor) está hoje esquecido. Por que nos surpreendemos então que, apesar da avalanche de “amadurecidas” resoluções e reorganizações, as coisas vão de mal a pior em nosso país?

Durante o tempo de Stalin, a palavra de ordem “os quadros e o controle resolvem tudo” era aplicada à vida de forma consequente e firme. Apesar de evidentes erros e falhas (quem não os tem?), foram resolvidas todas as tarefas históricas maiores que se colocaram ao país, seja a criação das bases econômicas do socialismo, a derrota do fascismo ou a reconstrução da economia nacional. Nomeie-me nem que seja apenas um problema, social ou econômico, que Khruschev e os seus sucessores tenham conseguido, já não digo resolver, mas pelo menos atenuar. Por todo o lado o que vemos é toneladas de papel e gramas de obra, não se vê avanço real. Pelo contrário, estamos cedendo posições conquistadas...

Compreenda bem o que lhe digo. Eu não sou contra as reformas ou reorganizações enquanto tais. Eu sou contra que se concentrem nelas as atenções, esperando que mais uma resolução produza resultados milagrosos. É preciso diminuir dez vezes o número de tais resoluções e reorganizações e canalizar todas as forças para um trabalho meticuloso, duro, rotineiro na realização de poucas mas rigorosas e concretas tarefas. Então, sim, surgem os resultados milagrosos, reforça-se a confiança do povo no partido, a qual, infelizmente, está mais abalada a cada ano que passa. Refira-se que aqui não estou descobrindo a América. Era exatamente neste espírito que trabalhava o aparelho estatal-partidário nos chamados anos do “culto à personalidade”. Penso que não é em vão, mas antes com bastante sucesso, que a experiência daqueles anos é estudada por dirigentes das maiores corporações monopolistas do Ocidente.

LITOV - Ivan Alekssandrovitch, perdoe-me pela franqueza, mas as suas considerações parecem-me demasiado simplistas. Depreende-se das suas palavras que, em última instância, tudo depende de quem está à frente do país... Não se estará a atribuir dessa forma uma espécie de força demoníaca ao fator subjetivo, o que, sem dúvida, contraria os pressupostos fundamentais do marxismo-leninismo?...

BENEDIKTOV - Lenin, segundo a sua lógica, “contrariou os pressupostos fundamentais do marxismo-leninismo” quando, após o fim da guerra civil, declarou que para a vitória do socialismo na Rússia era apenas necessário “nível cultural” dos comunistas. Em outras palavras, aptidão para governar o País, em relação ao que [os comunistas] eram “gotas d’água num mar de povo”. Isto era afirmado em condições de uma terrível destruição, fome, de um atraso medieval no campo, numa situação em que o País, citando as palavras de Lenin, lembrava “um homem espancado até à morte”!

A esmagadora maioria dos cientistas e especialistas, tanto na Rússia como no exterior, hipnotizados pelos chamados “fatores objetivos”, apelidavam publicamente o plano de Lenin de “uma ilusão doentia”, uma aposta nas “forças demoníacas do partido bolchevique”. Os demônios são demônios, mas o fato é que nós construímos o socialismo em prazos curtíssimos, apesar de todos as “sábias corujas”, com os seus graus e títulos acadêmicos.

Mas as analogias históricas não convencem ninguém. É preferível falar do presente. Mesmo no atual sistema econômico, temos dezenas de empresas, quer na indústria quer na agricultura, que estão ao nível mundial e em certos aspectos até o superam. Veja, por exemplo, a unidade de construção metalomecânica em Ivanov, dirigida por Kabaidze, ou o famoso kolkhoz do presidente Bedulia.

A condição mais importante, decisiva para o êxito dos setores mais avançados (navios-capitânea) da nossa economia é o nível de direção, a competência profissional do diretor ou do presidente. Se Kabaidze ou Bedulia não prepararem os seus sucessores, tudo começará a descarrilhar, resvalando para o nível medíocre e cinzento que predomina no nosso país. Daqui conclui-se que a raiz do mal não está no sistema econômico existente, nas condições que oferece às pessoas com talento, capazes de fazerem milagres (!), mas no que se costuma designar como “fator subjetivo-pessoal”. Muito se fala entre nós sobre o aumento do papel deste fator no socialismo. Trata-se de fato de uma constatação correta, só que o papel deste fator não pode ser entendido de forma simplista e cor-de-rosa. Um dirigente inteligente e competente acelera substancialmente o desenvolvimento de uma empresa, de um ramo, de um país; da mesma forma que um fraco e medíocre o trava e o atrasa gravemente. Por isso, os quadros dirigentes têm de ser submetidos a uma exigência rígida e a um controle constante e global da sua evolução profissional, ideológica, moral e política. Sem isto o socialismo não só não se realiza como, pelo contrário, perde a sua superioridade histórica.

Falar da criação de um “novo sistema” é falar de um sistema de grande escala, amplamente disseminado e profundamente refletido, de revelação, promoção e estimulação da evolução de pessoas talentosas em todos os escalões de direção, quer estatais quer partidários. Se conseguirmos preparar e “munir” os altos objetivos com algumas dezenas de milhares de Kabaidze e de Bedulia, o país realizará uma forte arrancada. Se não, continuará a marcar passo ao som da fanfarra das habituais resoluções e reorganizações. A principal tarefa partidária e, em grande parte, do aparelho de Estado, deve consistir exatamente na descoberta e promoção de pessoas com talento. Ora, neste momento só se pensa nisto quase em último lugar, dedicando-se praticamente todo o tempo à preparação das habituais decisões e resoluções e de sonoras iniciativas para as propagandear.


Porém, mais do que isso, as pessoas talentosas e brilhantes são preteridas em favor dos obedientes, dóceis e medíocres que irrompem agora até em cargos ministeriais. E quando “em cima” tudo está de pernas para o ar, “em baixo” as coisas não andam. Não me surpreendo em nada com o aumento do descontrole nos processos econômicos e sociais na sociedade, com o enfraquecimento da disciplina, da consciência e responsabilidades dos trabalhadores comuns, com a disparada do que hoje se costumam chamar de “fenômenos anti-socialistas”. Repito, a principal causa dos nossos males está na baixa abrupta do nível da direção partidária-estatal, no esquecimento dos geniais ensinamentos de Lenin sobre a seleção dos quadros e o controle de execução como instrumento fundamental e decisivo de influência partidária.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Ação demo-tucana no TSE visa “interditar” as obras que beneficiam ao povo, afirma Dilma
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou, nesta quarta-feira (17), que “é inadmissível que, em um momento de crise, alguém se coloque contra iniciativas para combater a própria crise”. A declaração da ministra foi feita em resposta ao recurso apresentado pelo DEM e o PSDB ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra a sua presença à frente das obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
“Acho absolutamente incorreta essa visão de que estamos fazendo campanha. É estranho que essa tentativa sempre ocorra quando há políticas do governo sendo implantadas. E são políticas que beneficiam o Brasil”, declarou a ministra, após fazer uma exposição sobre o PAC na sede da central Força Sindical.
Para a ministra, a oposição “tem o intuito, sobretudo, de interditar o governo”. “Acho que, diante do volume de obras e iniciativas que nós temos e do fato de que fomos capazes de entregar R$ 100 bilhões ao BNDES mostra que não temos uma relação clássica que eles tiveram diante da crise. Diante da crise, eles mandaram cortar investimentos, cortar salários e recorreram ao Fundo Monetário. A crise no Brasil foi vivida sempre como um momento de ajuste fiscal”, disse Dilma.
Para o presidente Lula é natural que a oposição esperneie, mas “a ministra Dilma tem que trabalhar”. “É legítimo que Dilma vá em todas as inaugurações das obras do PAC no Brasil, afinal ela é gestora do projeto”, disse o presidente. Diante da comparação feita por um auxiliar de que José Serra (PSDB) também teria participado de um evento no Paraná, Lula respondeu que até isso é diferente. “É bem diferente, porque ele não tem obra no Paraná para verificar”, afirmou o presidente.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Das dificuldades de Obama (2)
O falecido senador norte-americano William Fullbright, durante mais de 30 anos um dos melhores parlamentares dos EUA, disse uma vez que "criamos uma sociedade cuja principal ocupação é a violência. A maior ameaça para o nosso país não é uma qualquer força exterior, mas o nosso próprio militarismo. Temos a amarga impressão de que nós, os americanos, estamos habituados à guerra. Já há muitos anos que, ou bem estamos em guerra ou então prestes a desencadear uma, não importa em que região do mundo. A guerra e o militarismo tornaram-se uma parte inseparável do nosso quotidiano, e a violência o produto principal da nossa economia" (V. seu livro "The Arrogance of Power").
Realmente, a história dos EUA são uma série tão grande de atropelos e agressões a outros países, promovidos por uma casta dominante que já era imperialista antes do surgimento dos monopólios capitalistas (v. nossa edição anterior), que às vezes demanda um esforço que não é pequeno perceber em que aspectos do passado o povo norte-americano pode se basear para construir uma nação irmã - e não algoz - das outras nações e justa para com seus próprios cidadãos.
No entanto, esses aspectos, de que o povo norte-americano pode se orgulhar, existem. Por exemplo, em relação a seus presidentes, é verdade que os norte-americanos tiveram na Casa Branca uma quantidade incomum de fariseus (Quincy Adams, Herbert Hoover), trogloditas (James Polk, Theodore Roosevelt) e/ou meras mediocridades (citar um exemplo aqui seria cometer alguma injustiça). Também existiram alguns presidentes que quase poderiam ter sido extraordinários (Woodrow Wilson, John Kennedy), não fossem limitações pessoais ou porque não os deixaram ser.
Mas os norte-americanos, apesar disso, tiveram dois grandes presidentes - Abraham Lincoln e Franklin Delano Roosevelt.
A esse propósito, é muito positivo que o atual presidente, Barack Hussein Obama, tenha tomado esses dois, justamente os maiores de seus antecessores, como modelo. Mas, para isso, é necessário ser coerente com o que de melhor existe na história dos EUA. Não se podem misturar alhos democráticos com bugalhos imperialistas - sob pena de renunciar à herança dos primeiros.
Por exemplo, em seu discurso de posse, Barack homenageou os que "por nós, combateram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sanh".
Tudo bem em relação a Concord, Gettysburg e a Normandia. O problema é: o que está Khe Sanh fazendo nessa lista?
Concord, no Estado de Massachusetts, foi, em 19 de abril de 1775, o lugar da primeira batalha da guerra de independência contra o domínio inglês. Nessa cidade foi organizada a guerrilha dos "minutemen", que, apesar da desigualdade de forças, fez o exército britânico recuar para Boston, logo em seguida sitiada, na primeira fase da Revolução Americana.
Em Gettysburg, na Pennsylvania, foi travada, durante os três primeiros dias de julho de 1863, a batalha mais gloriosa da história dos EUA e a mais sangrenta da Guerra Civil. Nela, o Exército do Potomac, depois de uma série de derrotas para os escravagistas confederados, com um histórico de generais vacilantes e/ou incompetentes, e com um comandante nomeado, por decisão pessoal de Lincoln, apenas três dias antes - George Meade, o melhor caráter entre todos os generais dessa guerra - barrou a invasão do Norte por parte do general sulista Robert Lee. A batalha de Gettysburg foi a virada na guerra civil, onde até então o exército sulista estava em ofensiva - com a capital do país, Washington, localizada dentro do estado sulista da Virgínia, em perigo. Depois de Gettysburg, nunca mais os sulistas conseguiram sair da defensiva - o que, após a nomeação de Grant, que estabeleceu seu comando geral junto às tropas de Meade, possibilitou, dois anos depois, a vitória da União e o fim do escravismo nos EUA.
Gettysburg é também conhecida pelo discurso de Lincoln, o mais notável (e mais ignorado) discurso da história dos EUA, proferido na homenagem aos mortos da batalha, em novembro de 1863. Numa cerimônia para a qual não havia sido convidado - foi promovida pelo governador do Estado - e na qual teve de aguentar mais de duas horas de arenga por parte do orador oficial, um acadêmico contratado pelo governo da Pennsylvania, o presidente Lincoln, em menos de dois minutos, definiu a Guerra Civil como o ponto de partida para uma democracia verdadeira nos EUA: "Somos, antes, nós, os vivos, que devemos consagrar-nos à tarefa inacabada que aqueles que aqui lutaram fizeram avançar tanto e tão nobremente. Somos, antes, nós, os que devemos consagrar-nos aqui à grande tarefa que ainda permanece diante de nós: que, destes mortos aos quais honramos, tomemos e aumentemos nossa devoção à causa pela qual eles deram até a última medida plena de devoção; que resolvamos aqui, firmemente, que estes mortos não morreram em vão; que esta nação, sob Deus, terá um novo nascimento da liberdade; e que o governo do povo, pelo povo, para o povo, não sucumbirá nesta terra".
A Normandia, naturalmente, é a parte da França onde os norte-americanos e os ingleses desembarcaram em 1944, para abrir, finalmente, a segunda frente contra os nazistas. Até então a luta contra Hitler havia sido sustentada, à custa de milhões de mortos, pelo Exército Vermelho - apesar dos vários apelos soviéticos, em especial de Stalin, pela abertura da segunda frente na Europa. É justo observar que o dirigente ocidental mais sensível aos apelos soviéticos foi o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, que, entre ingleses e americanos, realizou o principal empenho para o desembarque e pela abertura da segunda frente.
Nada disso - nem Concord, nem Gettysburg, nem a Normandia - têm algo a ver com Khe Sanh e a agressão ao Vietnã, onde os invasores norte-americanos mataram, segundo seus próprios números (as estatísticas vietnamitas são maiores), 1 milhão e 400 mil vietnamitas, mutilaram 1 milhão e 800 mil - sem contar as vítimas de anomalias genéticas devidas ao "agente laranja", e outras barbaridades -, apesar de, nem por isso, conseguirem submeter um povo que havia decidido ser livre.
Khe Sanh foi, além disso, uma derrota humilhante dos imperialistas, onde o general Giap atraiu os invasores, que esperavam que ele usasse a mesma tática com que, em 1954, derrotara os franceses em Dien Bien Phu. Com a atenção dos norte-americanos concentrada em Khe Sanh, Giap desfechou a ofensiva em todo o sul do Vietnã - que ficou conhecida como "a ofensiva do Tet", o ano novo lunar da tradição vietnamita, a maior e mais desastrosa derrota militar dos EUA desde a guerra da Coréia.
Em Concord, Gettysburg e na Normandia os norte-americanos estavam, realmente, lutando pela liberdade, antes de tudo pela sua liberdade, ainda que também tenham contribuído para a liberdade de outros povos.
No Vietnã, as tropas norte-americanas (meio milhão de soldados, uma esquadra inteira e o maior contingente de bombardeiros até então reunido) estavam perpetrando uma agressão imperialista das mais covardes que já houve na história do mundo. Eram hordas que não estavam "combatendo e morrendo" pelos norte-americanos, mas tentando escravizar um país pobre e pequeno, situado a dezenas de milhares de quilômetros dos EUA, e, como esse país não se submetia, tentando apagar seu povo da face da Terra.
Naturalmente, levaram o troco - aliás, bastante modesto, comparado ao que sofreu o povo vietnamita para expulsá-los de lá: morreram 60.159 norte-americanos e 300 mil foram feridos. Mas foi uma agressão tão covarde, criminosa - e tão mal sucedida - que o próprio povo norte-americano levantou-se contra ela. Uma agressão, inclusive, ilegal até do ponto de vista dos EUA, pois a Casa Branca, para obter a aprovação parlamentar, mentiu ao Congresso, falsificando o chamado "incidente do golfo de Tonkin".
Tal como na questão da "liderança dos EUA", abordada em nossa última edição, é impossível que Obama não saiba o que significou a guerra do Vietnã. No entanto, em seu discurso de posse, optou por fazer uma concessão ao belicismo imperialista, misturando coisas que não se podem misturar. Muitas vezes é justo fazer alguma concessão. Porém, há concessões e concessões. E, sem dúvida, não será possível recuperar os EUA fazendo concessões de princípio aos verdadeiros inimigos do país.
C.L.
Das dificuldades de Obama

Em seu discurso de posse, o presidente Obama afirmou: "Estamos prontos para liderar mais uma vez".
Sabemos que não é fácil ser presidente de um país em que faz parte da cultura abater a tiros presidentes e personalidades influentes que não se ajustam bem ao figurino concebido por suas classes dominantes.
Mas não podemos deixar de registrar que o pensamento exposto, longe de sintonizar as melhores tradições americanas, evoca as piores.
Em 1909, quando assumiu o governo, o presidente Howard Taft declarou: "Todo o hemisfério ocidental nos pertencerá, de fato, devido à superioridade de nossa raça, pois moralmente já nos pertence".
Mas não foi ele quem inventou a receita. Naquela altura do campeonato, os EUA haviam efetuado 31 intervenções militares no hemisfério: Porto Rico, Argentina, Peru, México, Nicarágua, Uruguai, Panamá, Colômbia, Cuba, República Dominicana e Honduras já haviam provado o gosto amargo desse desejo de liderança "moral".
Na verdade, a idéia de que os EUA têm por missão liderar é muito antiga. É inclusive anterior à formação do capital monopolista que, como a história já demonstrou à exaustão, empurra seus respectivos Estados nacionais para além das fronteiras a fim de que ele possa servir de suporte à conquista de novos mercados, que absorvam o capital excedente, e ao controle das fontes de matérias primas.
O presidente James Buchanan (1857-1861) afirmava: "A expansão dos EUA sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça. E nada pode detê-lo". E ele, por sua vez, estava ancorado a uma sólida tradição de expansionismo que já havia custado ao México boa parte de seu território.
O New Orleans Creole Courier, em 1855, expressava a idéia nos seguintes termos: "A pura raça anglo-americana está destinada a estender-se por todo o mundo com a força de um tufão. A raça hispano-mourisca será batida".
Em julho 1845, o jornalista John O'Sullivan cunhou o termo "Destino Manifesto", num editorial do United States Magazine and Democratic Review, como expressão sintética do dogma corrente de que, sendo o povo dos EUA eleito por Deus para comandar o mundo, o expansionismo seria apenas decorrência do cumprimento da vontade Divina.
Ele achava natural afirmar que "o Texas foi absorvido pela União no processo de cumprimento da lei geral que está levando nossa população em direção ao Oeste. Ele foi arrancado do México de acordo com o curso natural dos eventos. O braço avançado do irresistível exército da emigração anglo-saxônica já começou a se estender sobre a Califórnia".
Artistas e intelectuais não estiveram imunes à crença.
Em 1849, o escritor Herman Meville (Moby Dick) afirmava: "Nós americanos somos um povo peculiar, escolhido, o Israel de nosso tempo; carregamos a arca das liberdades do mundo. O resto das nações precisa, brevemente, estar na nossa retaguarda".
Antes disso, o poeta Walt Withman havia expressado o mesmo ideal sem maior preocupação com a sutileza: "O que tem a ver esse México miserável e ineficiente – com suas superstições, com sua paródia de liberdade, sua tirania real de poucos sobre muitos – que tem ele a ver com a grande missão de povoar o novo mundo com uma raça nobre? Que seja nosso lograr essa missão".
Caminhando um pouco mais em direção à origem da crença, vamos encontrar em Emerson – celebrado como grande pensador e filósofo naquele país - a seguinte reflexão: "Certamente, a forte raça britânica, que já conquistou grande parte desse território, deve também apoderar-se daquele pedaço [Texas], e do México e do Oregon, e, com o passar das eras, os métodos segundo os quais isso foi feito será de pouca importância. A América é o último esforço da divina providência em favor da raça humana".
Portanto, antes mesmo que o capital monopolista se formasse nos EUA e impulsionasse a expansão imperialista, a burguesia americana havia associado o seu destino ao expansionismo. Ampliar as bases para o desenvolvimento capitalista, que interessava ao Norte, sem desestruturar as relações escravistas e os vínculos do Sul com a economia inglesa, seria resolvido através da conquista de novos territórios, associada à imigração maciça de colonos europeus.
Tal era o projeto que levava, em 1828, o representante dos EUA na Colômbia, Beaufort Watts, a fazer considerações pouco diplomáticas sobre o povo do país: "O colombiano típico é um animal obediente que se torna ainda mais submisso quando castigado". Ou Quincy Adams a afirmar, em 1823, dois anos antes de assumir a presidência da República: "Estas ilhas [Cuba e Porto Rico] são apêndices naturais do continente norte-americano, e uma delas - quase visível a olho nu de nossas costas - tornou-se por muitas considerações um objeto de importância transcendental para os interesses políticos e comerciais da nossa União. É difícil resistir à convicção de que a anexação de Cuba por nossa república Federal será indispensável à continuidade e à permanência de nossa própria União". Ou, ainda, Alexander Scott, representante dos EUA na Venezuela, a dizer em carta a James Monroe ("A América para os americanos" – do Norte), em 1812, um ano após a revolução contra o domínio espanhol, liderada por Miranda: "O povo do país é tímido, indolente, ignorante, supersticioso, incapaz de esforço e desprovido de iniciativa".
O segundo presidente dos EUA, John Adams, que foi vice de George Washington, dizia em carta a Thomas Jefferson: "Um governo livre e a religião católica romana não poderão jamais coexistir, em qualquer país. Qualquer projeto de conciliar essas duas coisas na velha ou na nova Espanha é utópico, platônico e quimérico. E é do meu entendimento que na nova Espanha as coisas são piores, se isso é possível".
Não é à-toa que seu filho, Quincy Adams, tenha escrito em seu diário, aos 12 anos de idade: "Os espanhóis são vadios, sujos e malvados, em suma, seria justo compará-los a uma vara de porcos".
Obama desconhece isso? É claro que não.
A maior tragédia que se abateu sobre os EUA foi o encontro dessa ideologia expansionista e racista com os interesses dos monopólios. Produziu um imperialismo cretino, encardido e difícil de erradicar.
Mas, numa avaliação otimista, talvez possamos dizer que, com essa singela declaração, Obama tenha simulado um recuo para surpreender o adversário pela retaguarda.
Às vezes dá certo. Mas quase sempre, não.