sexta-feira, 5 de junho de 2015

O mercado é mesmo bom?



Por Luis Felipe Miguel, no Blog da Boitempo:

Há um elemento comum, nas manifestações recentes da direita brasileira – e não só brasileira: o discurso de que o Estado deve recuar e o mercado deve regular uma porção maior das interações humanas. Enquanto o Estado premiaria os “preguiçosos” por meio de suas políticas sociais, o mercado daria a cada um a recompensa justa pelo seu esforço. É o que diziam as faixas, nas manifestações de março e abril, que reivindicavam o direito daqueles que “trabalharam muito” a se dessolidarizar dos pobres e marginalizados. Por vezes, como quando denuncia as cotas nas universidades, este discurso ainda é tingido por um racismo indisfarçável.

É um entendimento que está presente mesmo em agentes que, à primeira vista, parecem mais motivados por uma pauta retrógrada no âmbito dos direitos individuais. Basta lembrar de Eduardo Cunha. Chegou à presidência da Câmara anunciando que barraria qualquer medida em favor do direito ao aborto, mas tratou de logo encaminhar, a todo vapor, a sacralização do financiamento privado de campanhas, seu principal interesse na “reforma política”, e o desmonte dos direitos trabalhistas, aprovando o PL 4330/2004. Jornalistas e advogados conservadores não tardaram a anunciar as vantagens da “terceirização”, que consistiriam exatamente em reduzir a regulação estatal das relações de trabalho, permitindo que a lógica do mercado opere mais livremente. Se a lógica do mercado opera, dizem eles, no final das contas todos ganham. Menos direitos trabalhistas gerariam mais lucro, logo mais riqueza, mais trabalho e maiores salários.

Será que é mesmo assim? Um conhecimento, mesmo que superficial, da história permite duvidar. Antes de que os trabalhadores conseguissem se organizar nos sindicatos e obter o reconhecimento público de alguns direitos, imperavam a jornada de 14 ou 16 horas, o trabalho infantil, a insalubridade e o salário de fome, sem descanso semanal e sem férias remuneradas. Eram essas as condições no século XIX. Engels as descreveu vividamente emA situação da classe trabalhadora na Inglaterra, mas quem tiver ojeriza pelo autor pode buscar qualquer historiador liberal sério que encontrará um retrato similar – efeito de um mercado de trabalho plenamente desregulado.





A ideia de que justiça é entregar a cada um aquilo a que seus méritos individuais dão direito entrou em certo senso comum, mas não é isenta de problemas. Afinal, “mérito” não é uma característica inata, mas fruto de um mundo social que valoriza certos atributos. A obtenção de tais atributos também depende centralmente das circunstâncias em que cada pessoa se encontra. E caso se prefira enfatizar os talentos naturais, não custa lembrar, como já anotava John Rawls, que eles são dádivas que recebemos gratuitamente, não configurando nenhuma forma de mérito subjetivo.

Mercado e justiça

Mesmo sem questionar o discurso da meritocracia, porém, é difícil aceitar a ideia de que o mercado realiza algum padrão de justiça, recompensando qualidades e punindo defeitos. A possibilidade de agir com eficácia no mercado depende sobretudo do controle de recursos que os próprios mecanismos de mercado distribuem de forma muito desigual e que refletem uma série de acasos, a começar pela loteria do nascimento. Ainda há quem pense que o fato de que os ricos são quase sempre filhos de ricos é uma demonstração da superioridade do material genético dos privilegiados, mas evidentemente é bem mais razoável aceitar que a relação causal é outra. O mercado não premia o mérito, seja lá o que isso for.

Até o mais competente defensor da ideia de que o mercado realiza um padrão de justiça, o falecido filósofo estadunidense Robert Nozick, reconhecia que tal justiça dependia de um momento inicial de igualdade de recursos. Uma vez que esse momento nunca existiu, toda distribuição posterior deve ser considerada injusta (conclusão de que Nozick fugia, mas que é inescapável). Uma proposta de produzir tal estado inicial ideal aparece no “socialismo de mercado” apresentado por John Roemer, em que o capital seria redistribuído equitativamente a cada geração. Deixando de lado as múltiplas dificuldades técnicas do projeto de Roemer, cabe observar que muitas das oportunidades dos filhos de famílias privilegiadas, como o acesso a bens educacionais e a redes de contatos, não dependem da herança que receberão e não são atingidas pela medida.

De resto, a “justiça” que o mercado realizaria ecoa uma visão de responsabilidade individual que nega espaço à solidariedade social. Uma aposta errada pode arruinar de maneira definitiva as possibilidades de vida de uma pessoa, mas isso não seria problema, já que cada um é responsável por seus próprios atos. E uma vez que se considera que cada um tem sua chance, não há nenhum compromisso em relação àqueles que estão em situação pior. Trata-se de uma visão de justiça que, além de fundada no pressuposto indefensável da absoluta autonomia decisória dos agentes, conduz a uma atomismo social bem pouco atraente. Por isso, muitos apologistas do mercado adotam um discurso diverso e admitem que ele pode gerar injustiças. Mas esse seria o preço a pagar pela garantia da liberdade, que o mercado produziria.

Mercado e liberdade

É corrente, nesse tipo de discurso, a oposição entre o Estado, esfera da coerção, e o mercado, espaço de interações livres e voluntárias. De fato, o cumprimento da lei é (ou pretende ser) obrigatório: não depende de minha vontade usar cinto de segurança ou pagar os impostos. Já no mercado, não sou coagido a comprar ou a vender nada; só me engajo nestas trocas se julgo que serão, de alguma maneira, vantajosas para mim. Trata-se, é claro, de uma visão ancorada num entendimento radicalmente negativo da liberdade, em que a autoridade política conta como coação, mas a necessidade material, não. Na verdade, as trocas livres e voluntárias do mercado ideal só existem nos modelos de seus ideólogos. A maior parte das pessoas age constrangida por necessidades prementes e esse é um elemento incontornável do funcionamento do mercado capitalista. Não por acaso, o capital se opõe a tudo aquilo que reduz a situação de privação do trabalho – acesso à terra, renda básica universal, pleno emprego.

Pelo menos o mercado permitiria expressar a intensidade das preferências individuais. Também é clássica a oposição entre o direito de voto, que vale o mesmo, quer eu deseje muito a vitória de um candidato, quer eu seja quase indiferente, e a troca mercantil, em que eu me disponho a pagar menos ou mais por um produto conforme minha vontade de possuí-lo seja menos ou mais intensa. Mas tal observação, que pode ser verdadeira para cada indivíduo, é falaciosa para o coletivo. Quanto mais dinheiro eu possuo, menor a utilidade marginal de cada real, logo com mais liberalidade ele pode ser dispendido. Por isso, ricos adquirem bens mesmo com preferência pouco intensa por eles, ao passo que pobres não adquirem mesmo aquilo que desejam fervorosamente. Em suma – e ao contrário da tradição liberal que opõe os dois valores –, qualquer medida de liberdade será enganadora na ausência de um patamar mínimo de igualdade.

Cabe lembrar que o quadro ainda é mais complexo, uma vez que as próprias preferências que seriam expressas “livremente” refletem assimetrias de mercado. O ambiente social em que as pessoas definem suas prioridades e anseios é influenciado pelos discursos de diversos agentes, entre os quais se encontram, com destaque, a publicidade comercial e a mídia por ela influenciada. No mercado, se manifestam preferências que o mercado busca induzir – a começar pela ideia de que o consumo é o caminho tanto para a solução dos problemas quanto para a autorrealização humana.

Se o mercado não se realiza como o espaço de liberdade que alguns de seus defensores desenham, ao menos ele seria crucial para garantir a liberdade na sociedade como um todo. De acordo com a visão pluralista, desenvolvida na metade do século passado e ainda vigorosa, sociedades de mercado permitiriam uma dispersão dos recursos de poder – em contraste com as economias estatistas, em que poder político e poder econômico estariam fundidos. Mais uma vez, tal narrativa não passa pelo crivo da investigação crítica. O poder econômico se transmuta facilmente em poder político, por meio do financiamento de campanhas, do lobby, da influência sobre a opinião pública e, enfim, da dependência estrutural que o Estado tem em relação ao investimento privado. Ele sobrevive da arrecadação de impostos, que reflete o nível de atividade econômica, que, por sua vez, reflete o nível de investimento. Com isso, os governantes, quaisquer que sejam suas simpatias políticas, precisam introjetar os interesses do capital, garantindo uma situação que estimule a manutenção de taxas elevadas de investimento econômico. Não é necessária nenhuma conexão especial com a elite política, nem a apresentação de algum tipo de chantagem ou ameaça por parte da classe capitalista; a estrutura econômica garante que seus interesses receberão uma atenção privilegiada por parte dos detentores do poder de Estado.

Uma linha auxiliar do argumento de que o mercado protege a liberdade foca em seu suposto caráter antidiscriminatório. Há quem afirme, por exemplo, que os mecanismos de mercado combatem o racismo (ou a discriminação contra pessoas com deficiência) melhor que qualquer política pública: firmas que se recusassem a contratar negros ou a vender para negros perderiam bons empregados ou bons clientes e seriam punidas na competição com seus concorrentes. É desnecessário dizer que isso não tem nenhuma comprovação empírica. Pelo contrário, regras que coíbam a discriminação racial se mostraram cruciais para impedir que as empresas respondam ao incentivo a práticas racistas que a existência de um público racista fornece. E como o racismo não é um desvio de caráter, mas um conjunto de dispositivos estruturais, ele faz com que os negros sejam marginalizados e tenham menor potencial para se tornar “bons empregados” ou “bons clientes”. Os remédios de mercado para o combate ao racismo simplesmente não funcionam.

Outras formas de preconceito também encontram incentivos em práticas de mercado. A manutenção das mulheres na posição de donas-de-casa e/ou de objetos sexuais favorece inúmeras indústrias, de eletrodomésticos a cosméticos, e é pesadamente reforçada pelo discurso publicitário. O sexismo aberto e renitente da publicidade reforça estereótipos tanto ao se dirigir às mulheres quanto ao se dirigir aos homens, a tal ponto que, ainda nos anos 1980, a solução proposta pelo Ombudsman dos Consumidores da Dinamarca para lutar contra ele foi a proibição da representação de qualquer ser humanos em anúncios. Na luta contra a desigualdade de gênero e os estereótipos contrários à emancipação das mulheres, o mercado certamente tem atrapalhado mais do que ajudado.

Mercado e progresso

Abandonados os valores mais elevados, como justiça ou liberdade, a defesa dos benefícios do mercado recua para vantagens mais instrumentais, como a “inovação” ou a ampliação geral da prosperidade. A concorrência e a busca do interesse próprio seriam os motores do progresso; sem elas, estaríamos fadados à estagnação. Se o colapso do modelo soviético, no final dos anos 1990, serve hoje de ilustração dessa tese, não custa lembrar que em outros momentos históricos um veredito oposto aparecia como igualmente óbvio. Quando escreveu seu libelo ultraliberal O caminho da servidão, em meados dos anos 1940, Friedrich Hayek justificou a superioridade do mercado unicamente em termos políticos, julgando que não valia a pena disputar a crença, amplamente dominante, de que a economia centralizada era mais eficaz.

A racionalização do processo produtivo parecia evitar vários dos problemas do jogo do mercado capitalista, como sua vulnerabilidade a crises cíclicas, e promover um desenvolvimento mais acelerado e constante. O fato de que hoje o planejamento de tipo soviético tenha sido desmoralizado não autoriza a ignorar os problemas associados à gestão puramente mercantil da economia, como as tendências à crise e à concentração da riqueza ou os elevados custos sociais e ambientais que implica. Uma prosperidade que é acompanhada pelo crescimento da pobreza, como ocorre há décadas no mundo capitalista, é a ressurreição da frase memorável do nada saudoso general Médici, que dizia que “a economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Ao mesmo tempo, é reconhecido que os fundamentos da inovação tecnológica não são financiados pelo mercado. A pesquisa básica depende quase que integralmente de fundos públicos, mesmo nas economias capitalistas mais ricas. E nem tão básica: muito do que há de mais emblemático na “revolução tecnológica” atual nasceu diretamente da pesquisa sustentada pelo Estado, da biotecnologia à informática. Como escreveu a pesquisadora Mariana Mazzucato, da Universidade de Sussex, “todas as tecnologias que tornam ‘inteligente’ um iPhone foram bancadas pelo Estado, da tela sensível ao toque ao sistema de comando de voz Siri”.

Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem mercado. Talvez algum tipo de regulação mercantil da atividade econômica seja necessário, não “para sempre”, mas pelo menos até onde a vista alcança. Mas o projeto de uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais livre – em que as pessoas tenham ampliado o exercício da sua autonomia – passa certamente pelo fortalecimento de um espaço abrangente de relações desmercantilizadas.

* Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde editama Revista Brasileira de Ciência Política e coordenam o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Comemos no McDonald's carne que seria a mais barata para cachorros', diz especialista

'
Jamie Oliver denunciou uso de hidróxido de amônio pela rede McDonald’s para converter sobras de carne gordurosas em recheio para seus hambúrgueres nos Estados Unidos. A empresa anunciou que vai mudar sua receita de hambúrguer

mcdonalds
Jamie Oliver denunciou uso de hidróxido de amônio pela rede mundial de lanchonetes McDonald’s. Foto: divulgação
Após o chefe de cozinha e ativista Jamie Oliver descobrir – e divulgar em seu programa de TV – que a rede McDonald’s utiliza hidróxido de amônio para converter sobras de carne gordurosas em recheio para seus hambúrgueres nos Estados Unidos, a marca anunciou que mudará a receita, segundo informações do jornal Mail Online. “Estamos comendo um produto que deveria ser vendido como a carne mais barata para cachorros e, após esse processo, dão o produto para humanos”, disse Oliver. “Por que qualquer ser humano sensato colocaria carne com amônio na boca de suas crianças?”, questiona.
O processo de conversão da carne é feito por uma empresa chamada Beef Products Inc (BPI), segundo o jornal. O veículo afirma ainda que esse processo nunca foi utilizado no Reino Unido, nem na Irlanda – que utilizam a carne de produtores locais. O McDonald’s negou que tenha sito forçado a trocar sua receita por causa da campanha de Oliver. O jornal diz ainda que outras duas redes de comida rápida, Burguer King e Taco Bell, já tinham sido pressionadas e removeram o hidróxido de amônio de suas receitas.

Leia mais

Na América Latina, a Arcos Dorados, empresa que opera a marca em toda a região, informa que “o aditivo em questão não é e nunca foi utilizado como ingrediente em qualquer processo da cadeia produtiva da marca”. A companhia acrescenta que os hambúrgueres são preparados com 100% de carne bovina e que toda a produção é validada pelas autoridades regulatórias locais.

SIGNIFICADO DE HIDRÓXIDO DE AMÔNIO

O hidróxido de amônio, de fórmula química NH4OH é uma base solúvel e fraca, só existe em solução aquosa quando faz-se o borbulhamento de amônia (NH3) em água.
Hidróxido de Amônio não é considerado cancerígeno pela OSHA.
Resumo de riscos: Nocivo quando ingerido, inalado e absorvido pela pele. Extremamente irritante para mucosas, sistema respiratório superior, olhos e pele.
Efeitos agudos: A inalação pode causar dificuldades na vítima como consequência: espasmos, inflamação e edema de garganta, pneumonia química e edema pulmonar.
Efeitos crônicos: A exposição repetida ao produto pode causar tosse, respiração ruidosa e ofegante, laringite, dor de cabeça, náusea, vômito e dor abdominal.
http://www.pragmatismopolitico.com.br/

Fortuna da Zara e trabalho escravo


Por Altamiro Borges

O empresário espanhol Amancio Ortega, dono das redes varejistas Zara e Pull&Bear, já é o segundo homem mais rico do planeta, com uma fortuna calculada de US$ 71,5 bilhões. Segundo o ranking da agência "Bloomberg", divulgado nesta semana, ele passou o rentista ianque Warren Buffet e só está atrás de Bill Gates, criador da Microsoft  – que manteve a liderança mundial dos ricaços com uma fortuna avaliada em US$ 85,5 bilhões. Ao divulgar o "Índice de Bilionários da Bloomberg", a mídia privada foi só elogios ao dono da Zara – uma "generosa" anunciante publicitária –, escondendo totalmente as várias denúncias sobre uso de trabalho escravo nas empresas terceirizadas da Zara.

O jornal Estadão – que foi fundado no século retrasado por alguns escravocratas – publicou uma nota recheada de bajulações nesta quarta-feira (3). Ela destaca que o fundador e presidente da Inditex, multinacional que controla várias marcas de roupa, é um "operador insano" e com visão estratégica. "De acordo com a agência, a fortuna de Ortega cresceu 17%, para US$ 71,5 bilhões este ano, enquanto o lucro da Inditex também subiu em função do crescimento das vendas da empresa. A varejista espanhola opera mais de 6 mil lojas ao redor do mundo... Mantendo parte da produção perto da sede da empresa na Espanha, e distribuindo para lojas duas vezes por semana, a Inditex se tornou apta a responder às novas tendências no mundo da moda mais rapidamente que seus concorrentes, que concentram a produção na China para cortar custos".

O jornal oligárquico não cita, sequer uma vez, as denúncias sobre o uso do trabalho escravo contra as varejistas de Amancio Ortega em várias partes do mundo – inclusive no Brasil. Este "corte de custos" não conta para o Estadão, que prefere alfinetar a China. Afinal, a terceirização e o trabalho precário fazem partem da lógica capitalista da exploração da mais-valia absoluta.

O ciclo da dependência pode ser quebrado

317339_446344455447273_534922397_n.jpg
As pessoas respondem a incentivos.  Todos nós sabemos disso, e essa é a base para a grande maioria das decisões de política econômica.  Os seguidores da escola behaviorista, por exemplo, defendem que o governo adote políticas que "incentivem" e "estimulem" as pessoas a se comportarem como o governo gostaria que elas se comportassem em vez de criar mais leis estatais. 

A diferença é ilusória, mas há casos em que realmente há grandes diferenças.  Por exemplo, as pessoas realmente acham preferível o governo aumentar os impostos sobre o fumo e a bebida — para desestimular o consumo dessas substâncias — em vez de proibir diretamente o uso delas.
Os incentivos também se aplicam ao comportamento eleitoral, e os políticos sabem perfeitamente disso.  As pessoas sempre votarão naqueles candidatos que elas julgam ser os que mais efetivamente irão atender aos seus interesses.  É por isso que os políticos sempre se esforçam para dizer exatamente aquilo que esse eleitorado quer ouvir e sempre fazem promessas que uma simples aritmética orçamental comprova não serem minimamente exequíveis. 
No entanto, em todo esse fenômeno há um fator nada trivial: esse comportamento leva à perpetuação de políticas que tentam alinhar os interesses do eleitor médio à agenda do partido político que está no poder.
O exemplo mais engenhoso e explícito disso é a maneira como a esquerda tenta criar uma dependência em relação aos programas do governo.
Dado que a mentalidade esquerdista exige cada vez mais controle governamental, então a solução passa a ser clara: criar programas que façam com que uma maioria se beneficie financeiramente à custa de uma minoria.  Isso levará à criação de um bloco eleitoral que jamais votará a favor de um partido que defenda a redução do estado.
E não se está aqui falando apenas do assistencialismo aos mais pobres.  Há também os vários tipos de assistencialismo aos ricos, um filão que a esquerda ao redor do mundo descobriu ser extremamente rentável em termos eleitorais.
Um bom exemplo de assistencialismo para os ricos ocorre quando grupos de interesse — organizações empresariais e sindicais — fazem lobby junto ao governo com o intuito de aprovar leis e regulamentações que os favoreçam, seja na forma de subsídios diretos (tanto para empresários quanto para sindicatos), seja na forma de maiores tarifas de importação ou na forma de regulações que favoreçam as empresas estabelecidas e que dificultem a entrada de novas empresas no mercado.
Esses grupos se aglomeram em torno do governo como moscas ao redor de uma lata de lixo.  Eles assaltam o Tesouro e manipulam o aparato regulatório governamental em benefício próprio.  E os políticos, quase sem exceção, se mostram excepcionalmente contentes em ser parceiros dessa gente, pois assim garantem reeleições, mais dinheiro e mais poder.
Os grupos de interesse de maior êxito recebem polpudos e óbvios benefícios do governo, ao passo que o custo fica escondido e disperso por toda a economia.  Eles dependem fortemente da intervenção governamental, pois uma ligeira mudança nas regulamentações pode significar a diferença entre o sucesso e bancarrota total.  Acima de tudo, eles possuem a suprema capacidade de revestir suas depredações em um manto de preocupação pelo bem-estar geral.
Já o assistencialismo governamental aos mais pobres é mais conhecido por todos e seu funcionamento é bem mais simples e direto.  Mas há efeitos que são desconhecidos pela maioria.  Os gastos assistencialistas só vêm crescendo desde a década de 1980, e tudo em nome da ajuda aos pobres.  Mas o dinheiro, em grande parte, não vai para os pobres, que ficam com as migalhas, mas sim para aqueles grupos de interesse poderosos o suficiente para subornar e fazer lobby a favor da redistribuição.  O dinheiro real vai é para os "pobristas" — os reais defensores da pobreza —, para os consultores, para as empreiteiras que constroem as moradias populares, para os funcionários de hospitais públicos, e principalmente para os próprios membros da burocracia que coordena todo o esquema.
Os pobres são maldosa e intencionalmente transformados em uma subclasse perpétua, dependente do governo, para que alguns parasitas possam viver confortavelmente bem à custa de todo o resto da sociedade.  Graças ao estado assistencialista, praticamente não há mais uma genuína mobilidade social.  Os degraus mais baixos da escada foram retirados em nome da compaixão.
Para a esquerda, no entanto, o projeto de poder sempre foi o mais essencial.  E o raciocínio é bem simples: se ambos os assistencialismos acima descritos alcançarem 51% da população — ou seja, se 51% da população (empresários, sindicalistas e os muito pobres) se tornar financeiramente dependente de programas do governo —, então a esquerda poderá se perpetuar no poder.
Realmente, se os beneficiados por esse assistencialismo votarem de modo a recompensar o partido político que criou essas benesses, então tal raciocínio será totalmente válido.
Há alguma maneira de reverter essa tendência?  É possível.
O assistencialismo para os ricos é mais fácil de ser combatido.  Uma simples, porém clara e explícita, exposição sobre seu funcionamento já seria o suficiente para fazer com que ele gerasse repulsa no eleitor médio.  Basta apenas surgir um grupo organizado e influente o bastante para difundir essa mensagem.  Já o assistencialismo para os pobres é mais complicado. 
Mas ele também pode ser revertido.
O segredo é que, embora a esquerda compreenda muito bem o papel dos incentivos em suas políticas, ela ainda tem uma visão de mundo um tanto cientificista: ela se concentra muito nos números, e se esquece dos custos psíquicos, os quais são bem menos tangíveis, mas que têm um peso enorme nas decisões individuais.
As pessoas agem por todos os tipos de motivos; elas não são guiadas apenas pelo dinheiro.  As pessoas têm valores e princípios.  Para um libertário de princípios, por exemplo, a necessidade de pegar dinheiro do governo traria um enorme custo psíquico, muito maior do que o próprio valor do dinheiro em si.  Sim, há poucas pessoas no mundo com esse mesmo valor ético, mas todas as pessoas têm seu próprio senso de ética pessoal, cuja violação lhes causaria pelo menos algum tormento.  Não deve ser nada controverso afirmar que o número de pessoas que têm grande prazer em viver à custa de terceiros é menor do que muitos imaginam.  E, embora as circunstâncias possam forçar as pessoas a receber assistencialismo do governo, nem todas as que participam disso o fazem com júbilo.  Não levar em conta esses tipos de custo psíquico no cálculo eleitoral é ignorar uma grande fonte de incentivos extra-monetários.
Também ignoradas na análise da esquerda estão as preferência temporais.  Uma pessoa pode facilmente estar disposta a trocar um benefício de curto prazo por um benefício de longo prazo, desde que o benefício de longo prazo seja suficientemente grande para compensar o fato de que ele vem mais tarde em vez de agora.  Para o beneficiado, políticas assistencialistas garantem um determinado nível básico de renda por toda a sua vida, mas quase não oferecem oportunidades para que ele aprimore sua própria situação e possa enriquecer no futuro.  Para muitas pessoas, o desejo de se libertar da dependência estatal pode ser tão poderoso quanto o incentivo para manter a atual e limitada renda assistencial.
O objetivo de tudo isso foi o de apenas injetar um pouco de otimismo em uma até então lúgubre situação de crescente dependência estatal.  Embora o aumento no número de dependentes do estado (pobres e ricos) seja desanimador, e embora isso ajude na perpetuação do partido que está no poder, essa tendência não necessariamente tem de ser permanente. 
Incentivos financeiros importam, mas as ideias ainda são mais poderosas.

http://www.mises.org.br/

Os juros sobem. O desemprego também!


Por Altamiro Borges

Pela sexta vez consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa básica de juros (Selic) em 0,5% – de 13,25% para 13,75% ao ano. A decisão ortodoxa, que terá forte impacto na geração de emprego e renda, foi tomada por unanimidade nesta quarta-feira (3). Com esta nova alta, os juros são os maiores desde dezembro de 2008. Os banqueiros e rentistas, como já era de se esperar, comemoraram a decisão, afirmando que ela é vital para derrotar o “fantasma da inflação”. Já as centrais sindicais e as entidades da indústria criticaram a sexta elevação da Selic, argumentando que a inflação não dá sinais de descontrole e que a elevação dos juros retrai o consumo e o crédito, reduz a produção e, como efeito inevitável, gera mais demissões. 






A decisão do Copom, com a sua autonomia relativa, reforça a recente opção do governo federal pelas políticas macroeconômicas de corte neoliberal. Diante do cenário de crise mundial do capitalismo, que não dá sinais consistentes de recuperação, a presidenta Dilma alega que esta opção pela ortodoxia é “tática” e visa evitar maiores turbulências no futuro. Isto explicaria as medidas provisórias que restringem direitos trabalhistas, como o seguro-desemprego, e os drásticos cortes anunciados nos gastos públicos. O problema é que as turbulências já são visíveis nos índices de desemprego e podem agravar ainda mais os desgastes políticos do governo, dando brechas, inclusive, para novas ofensivas golpistas pelo seu impeachment ou pelo seu continuo sangramento.

Nesta semana, antes desta nefasta decisão do Copom, o próprio governo anunciou que a taxa de desemprego teve a quarta alta seguida e atingiu 8% da PEA (População Economicamente Ativa). Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a procura por trabalho aumentou entre fevereiro e abril deste ano em relação a igual período de 2014, mas a oferta de vagas não foi suficiente para acomodar esse novo contingente. Com este resultado, a taxa de desocupação atingiu o mesmo patamar ao observado no primeiro trimestre de 2013. Em ambos os casos, é o maior nível já observado na série, iniciada em janeiro de 2012. O resultado também representou aumento em relação a igual período de 2014, quando estava em 7,1%.

A regressão social também se manifestou no rendimento dos assalariados. Para o trimestre encerrado em abril deste ano, a renda média real do trabalhador foi de R$ 1.855,00. O valor é 0,4% menor do que em igual período de 2014. Ainda de acordo com a Pnad, o setor da construção civil foi o que mais demitiu: 609 mil trabalhadores no trimestre, uma queda de 7,6% no nível de emprego em relação a igual período de 2014. Já a administração pública, em função do ajuste fiscal que atinge governos estaduais e municipais, extinguiu 560 mil postos, um recuo de 9,5% no trimestre até abril diante de igual período do ano passado. Até quando o governo Dilma sustentará seu discurso "tático" da austeridade? 

Aécio, o “arregão”, abandonou Marin?


Por Altamiro Borges

Na semana passada, o cambaleante Aécio Neves ganhou um novo e singelo apelido: “arregão”. Ele foi dado pelos golpistas mirins, cheirando a mijo e indignados com a ausência do tucano na marcha que reuniu meia dúzia de fascistas em Brasília pelo impeachment de Dilma. Até o patético “Batman do Leblon” postou vídeo detonando o presidente do PSDB. “Covarde”, “duas caras”, “arregão” e outros carinhosos adjetivos foram destinados ao senador mineiro-carioca. Agora, com a prisão dos mafiosos da Fifa, o apelido ganha consistência. Aécio Neves ainda não prestou solidariedade ao seu amigo José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que se engajou com toda a energia na sua frustrada campanha presidencial de outubro passado.

O tucano “ético” – que até hoje não explicou a grana pública torrada no aeroporto da fazenda do seu tio-avô ou os gastos em publicidade nas rádios da sua família durante seu governo de Minas Gerais – não pronunciou uma palavra sobre a corrupção que corrói o futebol mundial e brasileiro. Ele sequer conseguiu deletar as várias fotos em que aparece, cheio de carinho, ao lado do cartola-corrupto José Maria Marin – mesmo sendo ele um craque da censura na internet. Nesta operação abafa, o “arregão” conta com a cumplicidade da mídia tucana, que evita citar o seu nome no escândalo de corrupção da Fifa e da CBF. Aqui cabe registrar a postura corajosa, quase solitária, do jornalista Juca Kfouri, que não tergiversa sobre a relação do cambaleante com os mafiosos do futebol:

*****


Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC. Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A OLIGARQUIA FINANCEIRA E MIDIÁTICA E O FURTO DA DEMOCRACIA

A oligarquia financeira e midiática e o furto da democracia
Favorite
Incluir na "ESTANTE"
Ricardo Machado – Luiz Gonzaga Belluzzo analisa a atual conjuntura brasileira e debate como o neoliberalismo se apropriou do Estado
De poucas mas contundentes palavras, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é muito direto ao analisar a atual conjuntura econômica e política do Brasil. Tem um jeito calmo de falar, mas é firme nas análises. “O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo”, dispara, em entrevista por telefone à IHU On-Line. Para ele, a “exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, levantando problema para vícios como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica, a resistência daqueles que, na verdade, conseguem ter maior apropriação da riqueza e do poder”, avalia.
“O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, do despotismo daquilo que se imagina que seja a economia”, descreve Belluzzo. Na opinião do professor, a despeito da ausência de uma tradição democrática mais contundente no Brasil, há uma crise global mais ampla, “onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo”, frisa. Frente a este cenário, o pesquisador argumenta que há, para além de todas as complexidades, uma espécie de ódio de classe, cujos odiados são os pobres. “Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas”, critica.
Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, atualmente, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. É autor, entre outros, de O capital e suas metamorfoses (São Paulo: Unesp, 2013), Os antecedentes da tormenta: origens da crise global (Campinas: Facamp, 2009) e de Temporalidade da Riqueza – Teoria da Dinâmica e Financeirização do Capitalismo (Campinas: Oficinas Gráficas da UNICAMP, 2000). Depois da Queda (BELLUZZO, Luiz Gonzaga e ALMEIDA, Júlio Gomes de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002).
IHU On-Line – Frente a atual crise econômica, há alternativas que derivam de uma perspectiva não alinhada ao modo capitalista dominante na atualidade?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão que exige muita investigação porque se imaginarmos que houvesse uma alternativa ao capitalismo, devemos considerar autores como Wolfgang Streeck  — ele escreveu um livro chamado Tempo Comprado – A crise adiada do capitalismo democrático (Coimbra: Actual, 2013) — ou como István Mészáros . Quando o Marx  falou na superação do capitalismo, ele se referiu a uma transfiguração interna que propõe a superação como uma possibilidade, mas não como um desfecho inevitável. Socialismo ou barbárie, ele proclamou. O que está acontecendo hoje no mundo inteiro revela que a economia capitalista está atormentada cada vez mais por contradições internas que sugerem algumas soluções de ultrapassagem, que não encontram forças sociais e políticas capazes de levar adiante um processo de transformação.
Em sua configuração atual, o capitalismo global parece incapaz de incluir a sociedade em seu movimento. O capitalismo colocou um espartilho na sociedade e empurrou muita gente para fora do jogo. A exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica que não encontram solução diante da resistência daqueles que se apropriam das engrenagens da riqueza e do poder. Isso tudo cria um clima muito grave e não pode ser tratado de maneira abstrata. É preciso que se aglutinem as forças sociais capazes de levar adiante esta transformação. Obviamente não se vai reinventar o socialismo soviético, uma experiência histórica desastrada e cruel, não seria desejável. Então é preciso encontrar um novo caminho, chamado por Marx de democratização radical da sociedade. Não consigo vislumbrar um encadeamento de forças capazes de fazer isso.
Vamos tomar o exemplo da política econômica brasileira, a do ajuste fiscal. O que ela revela?
As forças que elegeram a Dilma são as mais vulneradas pelo ajuste fiscal. A tentativa de se fazer um ajuste fiscal de cima para baixo não vai funcionar porque a presidente não tomou em conta aqueles que a elegeram. É o vezo tecnocrático.
Voltamos ao capitalismo. “Salvar o capitalismo” é uma missão que já foi atribuída a Keynes , o que é uma impropriedade, porque ele não queria salvar nada, senão conduzir a sociedade à boa vida, como mostram os biógrafos dele. Estou escrevendo um livro sobre ele chamado “Keynes além da economia”, para mostrar que ele tinha uma visão muito mais profunda e ampla da sociedade do que os economistas tentam fazer crer com o propósito de transformá-lo no idiota dos déficits orçamentários e da política fiscal.

IHU On-Line – O que se pode esperar de uma política econômica sustentada na opinião de agências internacionais de riscos que, meses antes do Lehman Brothers  quebrar, avaliaram o banco com a melhor nota AAA?
Luiz Gonzaga Belluzzo – As ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Isso se transformou em um instrumento poderoso de persuasão e não somente as agências de risco, mas também as auditorias, estão sendo avaliadas negativamente, sobretudo as que têm a obrigação de dar transparência às empresas, aos balanços, aos negócios. Ao contrário, elas contribuem para ocultar. As agências de risco são estelionatárias, não têm nenhuma legitimidade, no entanto o que se observa é que os pigmeus ou gigantes do mercado ameaçam com essa redução da nota do Brasil, com a perda do grau de investimento. Isso é uma forma de constranger os países, assim como foi feito no passado de outra maneira, como na Crise de 1930, durante o final do século XIX início do século XX, feito pelos Money Doctors , agora é feito através das agências de risco que são essas auditorias que fazem as maiores falcatruas, mas são consideradas guardiãs da transparência e da moralidade.
O que se tem hoje é uma supremacia exercida também por intermédio dos meios de comunicação, totalmente submetidos a este tipo de perspectiva e isso acaba, por exemplo, na difusão de boatos como os de que a Dilma faria um “sequestro da poupança”. Isso é terrorismo. Não tem pé nem cabeça, é uma coisa criminosa, mas isso é feito de dentro do mercado por um sujeito que se diz funcionário de um banco e as pessoas acreditam. Então vivemos em uma sociedade de massas tecnológica que se comunica através dos whats apps da vida, difundindo uma interpretação das coisas do mundo que revela “o medo da verdade”, como dizia o filósofo Theodor Adorno, medo de um certo grupo que envolve os mercados financeiros, a grande imprensa internacional.

IHU On-Line – Trata-se de um complexo sistema biopolítico?
Luiz Gonzaga Belluzzo – É o que o Foucault  explicou em O nascimento da biopolítica (Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2008). Isso não é uma questão da supremacia do mercado, mas da forma como se governa. O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo. Um sistema, na verdade, ultradiscricionário, com o poder concentrado em poucas instâncias, com uma massa de pessoas manipulada pela opinião dominante. Em um país com as carências culturais gravíssimas como o Brasil tem, essa carência de espírito crítico afeta muito menos os desfavorecidos e muito mais os que se consideram informados e qualificados. Não vou falar cultos porque eles não sabem direito o que isso significa.

IHU On-Line – Após a reunião do Ministro Joaquim Levy com a Standard and Poors , na primeira semana de março, ele prometeu “ajustes estruturais”. De que ordem devem ser tais ajustes? Como fica o papel do Estado neste contexto?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um exemplo claro de que ele (Joaquim Levy ) teve que ajoelhar no milho para a Standard and Poors. Isso é um clássico. Eu comentei dos Money Doctors, que eram, na verdade, emissários dos banqueiros ingleses que vinham aqui ensinar os nativos como eles deviam se comportar em relação às políticas econômicas. O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, pelo despotismo daquilo que se imagina que seja a economia. Eles operam as questões como se fosse um jogo de lego e não levam em conta a resistência das pessoas e entidades sociais, o que causa o desgaste muito grande do governo, porque o Estado se apequenou e não exerce o seu papel de mediador entre as visões e os interesses divergentes, que é sua função na democracia, e acaba servindo de instrumento para as ordens das agências de risco, que são os instrumentos que o mercado usa para “colocar ordem na casa”.
Como defende Dani Rodrik , a experiência mostra que o movimento de entrada de capitais frequentemente prejudica os países e os coloca em dificuldades. É isso que acontece sempre no Brasil, nos períodos de bonança e crescimento há a entrada de capitais que depois se transforma em uma ameaça porque a política econômica fica à mercê dos humores deles. Criam-se problemas cambiais, problemas com as taxas de juros, e não há nenhuma liberdade para se fazer a política monetária e fiscal, sem contar as facilidades de sonegar e enviar dinheiro para a Suíça. A questão do Swissleaks  tem a ver com a globalização financeira, foi isso que abriu as comportas para que a sonegação e evasão de divisas se tornasse uma prática dos ricos.
Keynes advertiu isso em seus trabalhos preparatórios à conferência de Bretton Woods.  Dizia que era preciso ter um controle muito rigoroso dos movimentos de capitais para inibir as instabilidades e as falcatruas fiscais. Por exemplo, há a ameaça de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, coisa que será feita com muito cuidado, porque se ela subir, os ativos dos países emergentes vão sofrer e isso significa a desvalorização do câmbio, a subida da taxa de juros para conter a saída. Mas, depois do chamado Quantitative Easing, a estrutura de ativos dos bancos americanos está povoada de títulos do governo muito valorizados e a subida imprudente dos juros vai jogar os preços para baixo. Pode ocorrer um crash e a economia americana também vai sofrer.

IHU On-Line – De que forma esta lógica coloca em causa qual é o verdadeiro poder soberano, a democracia ou a economia de mercado?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu li o Yanis-Varoufakis , o ministro grego, e quando lhe perguntam sobre o déficit democrático ele solta uma gargalhada. Ele diz: “Déficit democrático? Não se tem democracia”. A democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais. Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo.

IHU On-Line – Do que se trata, exatamente, o princípio da “Santíssima Trindade” da “teologia” dos economistas?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A “Santíssima Trindade” é o tripé macroeconômico. A economia transformou-se, como disseram Adorno  e Horkheimer  na Dialética do esclarecimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1985), no mito. A economia cria figuras como o tripé que eu comparei à Santíssima Trindade, na realidade a uma espécie de Santíssima Trindade, porque junto com o mistério há uma riqueza maior que essa banalidade do tripé. Depois de 1971, quando Friedman  advogou a taxa de câmbio flutuante nas economias centrais — ou seja, nas economias que têm moedas conversíveis — ele estava pensando nos interesses dos Estados Unidos. Aliás, o câmbio flutuante só é interessante para países que têm moeda conversível, para os demais as condições são muito menos favoráveis, porque a volatividade é desastrosa.
As pessoas não sabem direito o que é o sistema monetário. A dificuldade de lidar com isso é muito grande. O problema é que fazem o Brasil lidar com isso como se fosse a Zona do Euro ou a China, que na verdade se precatou contra isso ao acumular 4 bilhões de dólares de reserva e impôs controles de capitais. Já os países ditos emergentes, toda vez que há qualquer incidente cambial, ficam mais vulneráveis e isso afeta as taxas de juros. É isso que eu falei, de que temos uma teologia do tripé, se é que se pode chamar isso de teologia. Eu como fui seminarista dos jesuítas penso que isso é um desrespeito com a teologia.

IHU On-Line – Uma argumentação recorrente, inclusive defendida pelo Ministro da Fazenda, é de que o país precisa cortar gastos e continuar elevando os juros. Mas como resolver esta contraditória equação se o principal gasto do Estado é, justamente, com os juros? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um ponto importante. Afinal, cortar gastos de quem, cara-pálida? Cortar gastos do seguro desemprego, de alguns incentivos que foram dados às empresas via concorrência externa de desoneração, corta-se o Fundo de Financiamento Estudantil – Fies, etc. Então se vai em cima dos mais frágeis. Esta amarração da política econômica faz com que haja uma transferência brutal de riqueza para os rentistas, que no Brasil são os bancos e os seus clientes ricos. É para eles que transferimos os recursos em dinheiro que são capturados de quem paga impostos, ou seja, dos assalariados, aqueles que compram alguma coisa e têm que pagar os impostos. É preciso ver o que está por trás disso, então se cortam os gatos dos setores mais frágeis, que têm menor resistência. Naturaliza-se isso, porque pagar juros tornou-se algo como a lei da gravidade, ninguém discute esse aspecto da estrutura tributária e da estrutura de gastos. Eles querem cortar o Bolsa Família, é o que gritam os paneleiros aí na rua, pois acham que isso não serve, não é bom, e que eles ganham dinheiro trabalhando, o que é mentira.

IHU On-Line – De que forma a dívida externa brasileira, desde sua aquisição com os militares, impacta na fragilização do setor industrial brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A dívida externa do governo é baixíssima por causa da acumulação de reservas. Hoje quem está endividado é o setor privado, com R$ 208 bilhões de dívida de empresas, onde boa parte delas não está protegida. Então se tem uma desvalorização cambial que prejudica gravemente o balanço das empresas, pela desvalorização cambial. O impacto da dívida, do câmbio e dos juros nas empresas é muito grande e isso afeta o nível de atividade, porque em um primeiro momento as empresas vão tentar se proteger, evitar novos investimentos. Isso é uma consequência, comentada há tempo por estudiosos da questão, o chamado descasamento da moeda. Fatura-se em real, mas se deve em dólares.

IHU On-Line – A balança comercial brasileira tem demonstrado, na média, desde 2003 um pequeno superávit das exportações em relação às importações (em 2014 foi negativa), mas a principal matriz exportadora é de commodities. Como o senhor avalia esses dados? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O superávit que se tinha recentemente é o do agronegócio, da exportação de commodities e tem a ver com a subida de preços até 2010. O ciclo de commodities começou em 2003 e foi até 2009. Agora os preços estão caindo, por isso que se começou a apresentar déficit na balança comercial. O déficit da indústria é uma coisa pavorosa, já ultrapassou os R$ 100 bilhões.

IHU On-Line – Quais os desafios para o país retomar a industrialização e deixar de ser um exportador primário?
Luiz Gonzaga Belluzzo – O Brasil teve uma reprimarização da pauta de exportação ao longo do tempo desde os anos 1990. Essa reprimarização significa que o estímulo à exportação de manufaturas do tempo dos militares foi desmontado ao longo das décadas e, ultimamente, se agravou. Fizemos isso no momento em que a China entrou no cenário competindo, principalmente, em preços. A indústria brasileira sofreu um golpe importante nesses anos todos e recentemente ela está muito enfraquecida. Uma das questões é não permitir mais a variação cambial, que é fundamental, mas não se pode restringir a isso apenas. O Brasil tem a possibilidade de desenvolver uma política industrial embutida nos investimentos do pré-sal e de infraestrutura, assim como a tentativa de criar um elo mais forte entre o desenvolvimento do agronegócio, uma atividade muito avançada tecnicamente e os setores industriais.

IHU On-Line – Tentando compreender a questão política em seu sentido mais amplo a partir da economia, de que maneira a democracia é permanentemente tensionada pelo capitalismo? Como isso se caracteriza no caso brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu brinco que a ideia do Estado Democrático de Direito não “pegou” aqui. Há vários movimentos de esforço que acabaram malsucedidos ou não foram concluídos por conta da estrutura social que se tem aqui. Recentemente houve um processo econômico de inclusão, passando por inclusão de conhecimento — foi muita gente para dentro da escola, etc. —, mas isso ainda é uma coisa muito precária. Não temos, na verdade, uma tradição de contribuir à democracia para além de sua simples dimensão econômica. Ela não se sustenta só nisso, é preciso que se tenha a formação de uma cultura democrática. Temos ainda, dentro da sociedade, uma resistência muito grande aos valores democráticos.
A democracia europeia foi fustigada muito tempo pelo capitalismo, mas aqui no Brasil não se consegue fazer avançar, não se consegue dar passagem na sociedade democrática que inclui a transformação do cidadão, que ele seja capaz de compreender melhor sua situação. Não se trata apenas de uma ascensão do cidadão, mas de sua capacidade de compreensão, daquilo que está sendo obnubilado pela mídia, por exemplo. Esse passo é muito complicado e precisamos de uma política deliberada para se fazer isso. Precisamos de um debate amplo para que o cidadão tenha a capacidade por si mesmo de saber qual a importância de sua liberdade e de sua autonomia.
Vou contar uma história. Um amigo, dono de uma empresa, foi cumprimentar o jardineiro que estava com as mãos sujas e o jardineiro não pôde dar as mãos e ele deu um abraço no jardineiro. O empregado ficou absolutamente surpreso porque disse que nunca havia sido tratado dessa maneira. Esse episódio revela muito mais do que um abraço, isso é o Brasil.

IHU On-Line – O senhor considera que há um ódio de classe no Brasil?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é uma dimensão do que acabei de relatar. Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas, “eles não são o que nós somos”, ou seja, não conseguem reconhecer o outro, a alteridade. Eles não são nossos semelhantes, aí está a origem dessa coisa toda, o resto é tudo conversa mole — da Dilma ao ajuste fiscal. Eles (os ricos) perderam a eleição e durante o pleito vimos como se portaram não reconhecendo o outro, que mora no mesmo espaço jurídico-político deles. No Brasil essa é que é a barreira fundamental. Eu sempre digo que não houve liberalismo político aqui. Marx reconheceu que isso era uma invenção fantástica da ascensão burguesa e por isso queria a democracia radical.

IHU On-Line – Como a crise da economia reflete a crise do humanismo evidenciada em nossas sociedades? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – A crise da economia que estamos vivendo agora e os remédios que estamos tentando administrar para debelar a crise é expressão mais escancarada desta desumanização que estamos observando. É a desumanização dos diferentes. Alguém teve a ideia de fazer um “dia do orgulho hétero”, por que isso? Será que o cara não percebe? Eu tenho algumas reservas às políticas de gênero, raça, credo. Na minha opinião elas devem ser universais, dirigida a todos, independente de raça, credo, etc., mas por que alguém vai criar um “dia do orgulho hétero”? Afinal de contas, são os gays e as mulheres que são assassinados. O momento exige um status especial às mulheres para que não sejam agredidas, temos que caminhar na direção da universalidade, na tentativa de minorar as diferenças. Só que no Brasil as forças sociais que mandam no país tratam de acentuar as diferenças.

IHU On-Line – Que Brasil teremos nos próximos quatro anos?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Temos dificuldade de saber o que vai acontecer na próxima semana. A única coisa que eu posso fazer é uma aposta, uma aposta na estabilidade institucional, seria um horror se nós tivéssemos um golpe. Aposto na luta democrática pelo Estado de Direito para avançar no debate democrático como sugeriu Keynes, um economista que eu admiro. Era um aristocrata, mas queria que o homem se livrasse das garras da economia.
Texto postado originalmente em:
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5830&secao=461

A ‘revelação’ de Mariana Godoy sobre os apresentadores da Globo. Por Paulo Nogueira




Agora ela pode fazer perguntas


Paulo NogueiraAs pessoas pareceram surpresas, nas redes sociais, com uma declaração da jornalista Mariana Godoy, ex-Globo, sobre os apresentadores da emissora.

Numa entrevista, ela se disse feliz com seu novo emprego na Rede TV porque, finalmente, pode fazer perguntas, e não simplesmente ler as que os outros fazem por ela.

Outros não. Outro: Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo.

As pessoas achavam que os apresentadores da Globo tinham luz própria para fazer alguma coisa além de declamar.

Não.

Mariana fez questão de incluir Bonner na lista dos que são papagaios de Kamel.

Numa discussão entre jornalistas no Twitter, alguém ponderou que, a rigor, não havia novidade.
Mas outro notou que era a primeira vez que alguém, com autoridade, dizia tão cruamente isso.

A primeira constatação é que Kamel não é um grande perguntador, dado o nível de entrevistas da Globo.

A segunda é que ele é um centralizador doentio. Um chefe inspirador recruta ou forma apresentadores capazes de fazer perguntas a quem quer que seja.

Se seus comandados não são capazes de conduzir uma conversa, o problema está em você, e não neles.

Ensine-os a pescar, em vez de dar-lhes os peixes.

Outra coisa é como é ruim trabalhar na Globo. A emissora dá visibilidade, mas não oferece as coisas que realmente tornam atraente uma atividade, a começar por autonomia.

Você pode miseravelmente pouco quando não é um Marinho na Globo, ou alguém de seu círculo mais próximo.

O que Mariana não disse, por ir além do que ela via, é que as perguntas de Kamel são devidamente aprovadas previamente por João Roberto Marinho, o irmão que cuida do conteúdo da Globo.

Não me refiro, obviamente, às perguntas triviais, mas às que verdadeiramente contam.

Por exemplo, as que foram feitas no Jornal Nacional aos candidatos à presidência.

O que os apresentadores devem saber fazer é lidar com as respostas. Patrícia Poeta, pelo que se noticiou, não foi aprovada na maneira como encaminhou, ou desencaminhou, a entrevista com Marina, e foi tirada do JN.

Mas o mais relevante, no debate, é que o que ocorre na Globo é um lugar comum nas corporações de mídia. Só quem manda são os donos.

Na Veja, o diretor de redação Eurípides Alcântara executa, apenas, as vontades dos Civitas.

Em outros tempos, você tinha um certo equilíbrio no jornalismo brasileiro. Os donos, compreensivelmente, eram de direita. Mas as redações eram, também compreensivelmente, progressistas.

Na Folha, Claudio Abramo puxava o jornal para um lado e Octavio Frias para o outro, e o resultado era um conteúdo frequentemente instigante.

O equilíbrio se perdeu a partir de 2003, com a ascensão de Lula.

Os donos buscaram obsessivamente chefes de redação afinados com eles, ou ao menos completamente submissos, como Eurípides na Veja ou Kamel na Globo.

Para facilitar seu trabalho, estes também se cercaram de replicantes.

Na Globo, ascenderam, por essa lógica, jornalistas como Erick Bretas, diretor de mídias digitais da empresa – e com um viés antipetista tão intenso que, em março, ele convocou seus seguidores no Facebook para uma manifestação contra o governo. Avisou, é claro, que estaria na rua.

Ainda na Globo, outro jornalista que cresceu sob tal ambiente é Diego Escosteguy, que fez da Época uma Veja, como se uma não bastasse.

Semanalmente, sob Escosteguy, a Época, como a Veja, se dedica a semear denúncias “bombásticas” contra Lula e o PT que não dão em nada.

A Época não se detém diante de nada. Na campanha presidencial, publicou uma pesquisa de um certo Instituto Paraná pela qual Aécio hoje estaria na presidência, tamanha a vantagem que lhe davam.

Mais recentemente, o mesmo instituto foi usado pela revista para dizer que, se fossem hoje as eleições, Aécio levaria. O leitor poderia responder: se fosse pelo instituto e pela revista, Aécio já teria sido eleito em outubro.

Esta, enfim, é a mídia brasileira. Se não é a pior do mundo, disputa esse título acirradamente.
Mariana Godoy apenas mostrou, para os iludidos, como é o ambiente dentro das redações: péssimo, como o jornalismo que sai delas.

(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).